Jejum antes do exame de sangue: quando ele ainda faz diferença

Nova pesquisa sugere que o tempo de jejum tem pouca influência em muitos testes de rotina, mas preparo deve considerar necessidades específicas

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Exame de sangue: em certos contextos, jejum influencia resultado (IStock/Getty Images)

Ao longo da minha trajetória como endocrinologista, ouvi muitas histórias de pacientes que não conseguiram cumprir o jejum antes de um exame, seja por um café com leite tomado por hábito, seja pela dificuldade de sair de casa sem comer ou por dúvida sobre quantas horas ficar sem alimentação. E eu entendo que essa restrição pode ser um incômodo.

Por isso, um estudo publicado recentemente na revista científica JAMA Internal Medicine merece atenção ao discutir quando esse preparo realmente faz diferença.

A pesquisa que motivou esta reflexão analisou cerca de 9,8 milhões de resultados de 101.148 adultos atendidos em um hospital universitário na Coreia do Sul, entre 2021 e 2023. Os cientistas compararam coletas realizadas após menos de oito horas, de oito a doze horas e mais de doze horas de jejum. Parte dos pacientes fez exames em diferentes ocasiões, permitindo comparar resultados de uma mesma pessoa sob tempos distintos sem alimentação.

Segundo os autores, muitos parâmetros, incluindo componentes do hemograma e exames relacionados à função renal, apresentaram pouca variação relevante nas análises. Dez parâmetros mantiveram diferenças nas comparações de uma mesma pessoa. Entre eles, quatro exames que vieram mais altos quando a pessoa tinha comido havia menos de oito horas: glicose (10,8%), triglicérides (20,1%), GGT (14,8%) e lipase (36,4%).

Já na comparação entre quem ficou de oito a doze horas em jejum e quem passou mais de doze horas sem comer, nenhum parâmetro ultrapassou os limites adotados para avaliar as variações laboratoriais. Esse resultado questiona a ideia de que passar mais tempo sem comer torne o exame necessariamente mais confiável.

O trabalho, porém, tem limites. Foi realizado em uma única instituição e população, com adultos, e o tempo de jejum foi informado pelos participantes, sem detalhamento do que haviam comido. Também não avaliou diretamente se as diferenças observadas levariam a outros diagnósticos ou tratamentos, e uma mudança no número não significa, por si só, uma mudança no diagnóstico. Por isso, avalio que os achados apoiam um preparo definido conforme o exame, mas não autorizam abandonar as instruções recebidas.

Quando o jejum ainda é necessário

Na medicina diagnóstica, precisamos explicar o motivo de cada orientação. O jejum ajuda a reduzir a influência recente da alimentação quando ela interfere no que se pretende avaliar. Depois de uma refeição, algumas substâncias presentes no sangue podem variar, e partículas de gordura podem deixar a amostra turva e dificultar determinadas análises.

A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial orienta jejum de oito horas para a coleta de rotina, que pode ser reduzido para quatro horas na maioria dos exames, e recomenda evitar jejum acima de dezesseis horas. A necessidade de ficar sem comer depende, portanto, do exame e do método utilizado pelo laboratório.

Para testes comuns, como hemograma, creatinina, ureia, a maior parte das enzimas hepáticas e bilirrubinas, o jejum geralmente pode ser dispensado. Ainda assim, vale conferir o pedido completo: quando vários testes são realizados na mesma coleta, algum deles podem exigir restrição alimentar e determinar o preparo necessário.

Atualmente, a inteligência artificial também está ajudando: hoje, a empresa na qual eu trabalho já emprega um algoritmo desenvolvido internamente para integrar e sintetizar todas as orientações necessárias para o conjunto de exames agendados.

Assim, em vez de receber uma lista de preparos para cada exame, o paciente recebe um guia único e mais claro. Por exemplo, se dois exames que requerem 6 e 8 horas de jejum, a IA unifica e comunica o tempo único de 8 horas de jejum, eliminando qualquer incerteza.

Como se preparar para a coleta

Se o paciente comeu, minha orientação é que informe à equipe o que consumiu e em qual horário, antes de decidir cancelar o exame. Dependendo dos testes solicitados, a coleta poderá ocorrer normalmente. Se houver um exame com preparo específico, o laboratório avaliará a necessidade de reagendamento.

Quando o jejum estiver indicado, a água costuma ser liberada e não quebra o jejum, mas alguns exames específicos têm regras próprias, e o laboratório informa quando for o caso. Café, chá, suco e água de coco, por exemplo, podem interferir nos resultados. Dúvidas sobre medicamentos também devem ser elucidadas previamente, sem suspender o tratamento por iniciativa própria.

Como endocrinologista, considero importante explicar as diferenças de preparo com exemplos. A glicemia de jejum, utilizada na investigação do diabetes, exige pelo menos oito horas sem ingestão calórica. Os valores usados para interpretar o resultado pressupõem essa condição.

Já a hemoglobina glicada, também utilizada na investigação e no acompanhamento do diabetes, não exige jejum para sua dosagem, porque ela estima a exposição à glicose ao longo dos últimos dois a três meses. São exames relacionados à mesma doença, mas que oferecem informações diferentes. Por isso, não devemos presumir que o preparo seja igual.

A avaliação de colesterol e triglicérides também mostra como as recomendações mudaram. Em 2016, a Sociedade Europeia de Aterosclerose e a Federação Europeia de Química Clínica e Medicina Laboratorial publicaram um consenso conjunto recomendando a realização rotineira do perfil lipídico sem jejum, com restrição alimentar reservada a situações específicas.

No mesmo ano, um consenso brasileiro contemplou essa flexibilização. O documento foi elaborado pela SBPC/ML e pelas sociedades brasileiras de Cardiologia, por meio do Departamento de Aterosclerose (SBC/DA), Diabetes (SBD), Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e Análises Clínicas (SBAC).

Esse consenso permite avaliar o perfil lipídico sem jejum, considerando a indicação clínica e as referências adequadas à condição da coleta. Quando os triglicérides estão acima de 440 mg/dL em uma amostra sem jejum, a orientação é repetir a dosagem com doze horas de restrição alimentar, conforme avaliação do médico solicitante. O tempo de jejum deve ser registrado no laudo.

Assim, o fato de os triglicérides variarem com a alimentação não torna o jejum obrigatório em todas as situações. Tampouco a flexibilização desse exame pode ser estendida automaticamente aos demais.

Na minha experiência como médica, vejo quanto uma explicação pode ajudar o paciente a se preparar. Quem entende por que precisa ficar sem comer, durante quanto tempo e para qual exame tem melhores condições de seguir a orientação.

Também precisamos ouvir essas dificuldades. Se um preparo é necessário, devemos ajudar a pessoa a cumpri-lo. Se pode ser dispensado, não há motivo para impor uma restrição por hábito. Oferecer uma orientação precisa, que preserve a qualidade do exame e considere as preferências de quem vai realizá-lo, faz parte do cuidado centrado.

* Cristina Khawali é endocrinologista e gerente médica de análises clínicas da Dasa