A portas fechadas, testemunhas contam como era relação de Jazbik e esposa

Primeira audiência de instrução e julgamento acontece na tarde desta quinta-feira (5), sem acesso da imprensa

BATANEWS/CGNEWS


Sala onde acontece a audiência de instrução e julgamento, no Fórum de Campo Grande, a portas fechadas (Foto: Geniffer Valeriano)

A primeira audiência de instrução e julgamento do caso de feminicídio de Fabíola Marcotti ocorre a portas fechadas para a imprensa, a pedido da defesa do médico João Jazbik Neto, de 78 anos. Conforme apurado pela reportagem, nesta quinta-feira (5), estão sendo ouvidas as testemunhas de acusação, que falaram sobre a relação do casal. Fabíola foi morta em 18 de maio, na casa onde vivia com João, na Chácara dos Poderes, região norte de Campo Grande.

Em entrevista à imprensa, a irmã de Fabíola, a fisioterapeuta Gisalda Moretti, afirmou que a família espera que o processo avance para que o julgamento pelo Tribunal do Júri seja marcado o quanto antes. Ela também relatou o sofrimento dos familiares diante da demora na realização das audiências e da tentativa inicial da defesa de sustentar a hipótese de suicídio.

Segundo Gisalda, a primeira audiência estava marcada para 15 de outubro, mas precisou ser adiada depois que o réu deu entrada no hospital para passar por procedimentos cardíacos. Desde então, a Justiça remarcou a sessão duas vezes. A família aguardava a conclusão dessa etapa para que o processo avançasse.

A irmã da vítima também contou que, após a morte de Fabíola, os familiares passaram a compreender melhor as diferentes formas de violência contra a mulher. Ela citou agressões psicológicas e financeiras, além de situações em que o homem utiliza filhos ou animais de estimação para atingir a companheira.

'Às vezes a gente acha que violência é só agressão física, bater, dar um soco, um beliscão. Mas não. Tem a violência psicológica, quando o homem menospreza, manda embora de casa ou diz que a mulher não serve para nada', relatou.

Gisalda também fez um alerta para mulheres que vivem situações de violência e disse que é importante buscar ajuda, sem tentar enfrentar o problema sozinhas. Na avaliação dela, Fabíola tentava deixar a residência quando foi morta. A irmã destacou que a vítima estava vestida e com a bolsa e o celular próximos ao corpo.

A família, conforme Gisalda, também enfrentou momentos de angústia enquanto aguardava os laudos periciais que ajudaram a esclarecer as circunstâncias da morte. Ela afirmou que os resultados reforçaram a convicção dos familiares de que Fabíola havia sido vítima de feminicídio.

João Jazbik Neto, de 78 anos, não participou da audiência desta quinta-feira (5) porque está internado no Hospital da Cassems há 22 dias. O médico passou por procedimentos de cateterismo e angioplastia, com colocação de stents. A defesa pediu à Justiça que ele cumprisse prisão domiciliar, mas o pedido foi negado.

Caso - Fabíola Marcotti foi encontrada morta no fim da manhã de 18 de maio deste ano, na chácara onde vivia com o marido, na zona rural de Campo Grande. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) esteve no local. Por volta das 11h30, o cardiologista ligou para o 190, número de emergência da Polícia Militar. Na ocasião, ele teria sido orientado a preservar o local até a chegada da equipe policial.

Um vizinho que soube do ocorrido e foi até a propriedade contou à reportagem que João tinha ciúmes da mulher. “Ele tinha um ciúme danado dela. Ficava em cima', relatou. O médico foi preso no mesmo dia, mas acabou colocado em liberdade dias depois, com uso de tornozeleira eletrônica.

Análise pericial - A perícia realizada no quarto onde Fabíola foi encontrada morta identificou uma sequência de vestígios que, segundo a investigação, não corresponde à hipótese inicial de suicídio. O relatório final, assinado em 21 de agosto pela delegada Analu Lacerda Ferraz, do Sefem (Setor de Investigação de Feminicídios), aponta que a fisioterapeuta sofreu golpes na cabeça antes de ser atingida por um disparo de arma de fogo.

A análise da cena indica que Fabíola recebeu o primeiro golpe quando ainda estava em pé, na lateral direita da cabeça. Depois, caiu de joelhos e foi atingida outras vezes, principalmente do lado esquerdo. Os ferimentos provocaram sangramento e deixaram fragmentos ósseos espalhados pela suíte. Manchas encontradas na parede e na porta também foram interpretadas pelos peritos como sinais de que houve mais de uma agressão.

O disparo atravessou a cabeça da vítima, com entrada pelo lado esquerdo e saída pelo direito. O projétil ficou alojado em um quadro na parede e, conforme o exame balístico, saiu do revólver Smith & Wesson calibre .357 localizado sob o corpo. A perícia também apontou que Fabíola foi movimentada após o sangramento, a partir da análise da direção em que o sangue escorreu pelo rosto e pelo pescoço.

Outro detalhe identificado foi a presença de fios de cabelo no cano e no tambor do revólver. Para os peritos, a localização dos fios indica uma manipulação incomum da arma no momento do disparo. Já o exame necroscópico não encontrou sinais característicos de tiro encostado ou realizado a curta distância, como chamuscamento dos cabelos ou marcas na região de entrada do projétil.

O relatório também registrou resultado positivo para resíduos de disparo de arma de fogo na mão direita do médico João Jazbik Neto. Conforme a investigação, o vestígio indica que ele pode ter efetuado um disparo ou manuseado uma arma recentemente. A análise dos vestígios, somada ao exame do local e à necropsia, levou a Polícia Civil a afastar a hipótese de suicídio e concluir que Fabíola foi vítima de feminicídio.