Política
O pregão, o palanque e o poder
Mercado e governo não podem se tratar como adversários
VEJA / MURILLO DE ARAGãO
A eleição acabou, mas a guerra política continua, agravada pela indefinição sobre a política econômica. No primeiro pregão depois do segundo turno, o Ibovespa caiu 13,9%, o dólar saltou de 4,97 para 5,38 reais e o DI para janeiro de 2031 foi de 12,64% a 15,24%. Nove dias depois, a bolsa está 5% abaixo daquele patamar, o dólar fechou a 5,45 reais e o DI de 2031, a 14,99%, ainda 2,35 pontos acima da véspera da eleição. Juros e câmbio nesse patamar são o prêmio que o mercado cobra para financiar o Estado.
A reação aumentou o ressentimento do governo reeleito, e mercado e Planalto passaram a se tratar como adversários. Espera-se um pronunciamento de Lula, e não é preciso ser adivinho para antecipar a mensagem: ele dirá que fez o maior ajuste fiscal da história, que ampliou os programas sociais, e se proporá a repetir a proeza. Para o bem do país, torço para que dê certo, o que exigirá metas críveis e coerência entre anúncio e execução. Até agora, porém, entre declarações duras contra o mercado e promessas de equilíbrio, nada de concreto aconteceu.
Escrevi aqui que, fosse qual fosse o eleito, a pacificação seria prioridade e nenhum dos candidatos teria condições de conduzi-la. Espero estar errado. Por ora, o chamado ao entendimento não veio, e seu espaço foi tomado pela saída à francesa de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e pela carnificina nos mercados. O STF, foco do primeiro turno, ganha tempo em silêncio, enquanto os bastidores se agitam em torno da presidência do Senado.
“A confiança tornou-se o ativo mais caro do Estado brasileiro, e a conta do ajuste aumenta a cada dia”
As lideranças empresariais que embarcaram na campanha de Flávio sentirão o distanciamento magoado do governo. No PT, há quem queira manter a mobilização digital nos moldes de André Janones. Aprofundar a polarização rendeu votos, mas governar exige outra disposição, voltada a todo o país, inclusive à quase metade que votou contra Lula.
Cada votação no Congresso tem seu valor, e ele depende da aprovação do governo e do custo do dinheiro. Com desaprovação alta, o Centrão cobra mais e a base exige mais. Com juros e inflação altos, encolhe o espaço fiscal para atender a essas demandas. A confiança tornou-se o ativo mais caro do Estado brasileiro, e a conta do ajuste aumenta a cada dia sem um sinal fiscal crível.
Na quarta-feira 4, o Copom interrompeu os cortes e manteve a Selic em 13,75%. Logo alguém culpará o mercado ou o Banco Central, mas o juro reflete a confiança na política fiscal do país e o risco inflacionário. Baixar a Selic por vontade política tampouco ajuda, porque bancos emprestam por confiança. Com o risco fiscal em alta, o spread sobe, as garantias endurecem e o crédito encolhe. O risco é que projetos aprovados continuem no papel e que as empresas segurem investimentos e contratações, efeito que demora a aparecer nas pesquisas de aprovação mas costuma chegar antes ao PIB. Como se diz em Brasília, o poder é como o violino: segura-se com a mão esquerda e toca-se com a direita. Lula, que já tocou dessa forma em outros mandatos, terá de afinar o instrumento para uma plateia desconfiada. Formalmente, o quarto mandato começa em janeiro. Para o mercado, já começou, e o tempo corrido é medido pelo câmbio, pelo mercado acionário e pelos juros futuros.
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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
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