Cândido Vaccarezza | A dengue surpreende e assusta o país

Disponibilidade de vacinas e erradicação do Aedes aegypti devem nortear decisões de autoridades no combate à dengue no país, escreve Cândido Vaccarezza

BATANEWS/PODER360


Articulista afirma que ações para conter as arboviroses exigem do Brasil um conjunto articulado de medidas que extrapolam as orientações à população; na imagem, agente de saúde de Brasília durante ação de aplicação de inseticidas na capital federal

Infelizmente, no Brasil, o combate às arboviroses é semelhante à forma como combatemos os incêndios: os tratamos como uma emergência inesperada. Os incêndios, na maioria das vezes, são emergências inesperadas, a dengue não é. 

Nos últimos 20 anos, tivemos todos os anos surtos de dengue com várias gravidades. O período do ano para a tomada de posições, ditas emergenciais, contra a dengue deveria ter sido o inverno anterior, quando os ovos do Aedes aegypti –mosquito transmissor do vírus da dengue e de outras doenças– estavam incubados, aguardando o calor, as chuvas e as águas armazenadas para virarem larvas, depois pupas e, finalmente, mosquitos. 

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Agora, no verão, as fêmeas infectadas, sedentas por sangue para produzir seus ovos viáveis e depositá-los à beira das milhões de aguadas que existem país afora, estão transmitindo a doença. 

A orientação à população para evitar armazenar água parada, o famoso fumacê (veneno para matar o mosquito), ações para destruir ovos e larvas, cursos para os profissionais da saúde aprimorarem o manejo da doença e dos casos suspeitos e mesmo o plano vacinal não são medidas emergenciais. São providências que deveriam fazer parte dos padrões de rotina de uma estratégia geral de saúde pública. 

Levanto essas questões não para defender a flexibilização das ações propostas pelas autoridades sanitárias, como a convocação pelo Ministério da Saúde do Dia D de combate a dengue , realizado no sábado (2.mar.2023). Acredito, na verdade, que o país precisa reforçá-las. Do ponto de vista epidemiológico, deveríamos evoluir, estudando medidas mais definitivas para combater a dengue. 

Todas as ações anunciadas são importantes para minimizar os estragos que a –quase– epidemia nacional tem potencial de causar. Porém, mesmo com a chegada da vacina Takeda , conhecida como Qdenga , pela exiguidade das doses disponíveis, a expectativa para o final de março e começo de abril é muito preocupante. 

Só nos 2 primeiros meses de 2024, o país já registrou mais de 1 milhão de casos e mais de 200 mortes confirmadas por dengue. Além de outras mais de 600 mortes em investigação. 

Se considerarmos que, segundo diversos pesquisadores, no mínimo 50% dos casos de dengue são completamente assintomáticos, a situação é dramática, pois estes são hospedeiros a infectar mosquitos e multiplicar a difusão da doença. 

Ao observarmos o histórico da dengue no Brasil, houve 2 anos com surtos muito elevados: 2015, o maior, e 2023, ambos com mais de 1 milhão e 600 mil casos. Em 2 meses de 2024, o país já está perto desses números. 

Estudos de diferentes universidades indicam que o Aedes aegypti tem hábitos diurnos, urbanos e preferência por sangue humano. Também afirmam que, dentre os animais vertebrados, o vírus só infecta os seres humanos. Dessas constatações derivam muitas medidas de combate ao mosquito, que têm se mostrado muito limitadas. 

Para evitar discussões secundárias, reafirmo que sou a favor de todas, embora analise que sejam insuficientes e carentes de um planejamento baseado em estudos mais aprofundados. 

Com relação à visita a domicílios para acabar com focos de dengue, por exemplo, quantos agentes seriam necessários para visitar todos os domicílios dos municípios e povoados em que a doença aparece ou apareceu? 

O que dizer da aplicação de venenos em pneus, coleções de águas empoçadas etc? Imaginemos as grandes cidades com as chuvas de verão e a quantidade de água empoçada nas sarjetas, córregos fluviais e outros lugares… Honestamente, não tem cristão que dê conta. 

No que diz respeito à mobilização da população para evitar o acúmulo de água, temos 2 aspectos: 

No Brasil, são conhecidos 4 sorotipos do vírus em circulação. O Denv-1 e o Denv-2 já circulavam há muito tempo. O Denv-3 passou mais recentemente a circular. O Denv 4 ainda está restrito ao Rio de Janeiro e ao Amapá. Há um tipo 5, que por ora não tem casos registrados ou suspeitos no país. 

Cada sorotipo confere uma imunidade exclusiva para o seu respectivo tipo. Por isso, a 2ª ou a 3ª infecção por um tipo diferente é muito mais grave. 

O nível de gravidade, nesse caso, está relacionado com a reação humoral, a resposta do indivíduo à presença do vírus semelhante, mas que a defesa do organismo não tem condição de neutralizá-lo. Diferentemente, os anticorpos não neutralizantes preexistentes por causa das infecções anteriores aceleram a entrada do vírus e sua replicação nas células, aumentando o risco de formas mais graves. 

No surto atual, a tendência pode piorar. A população conviveu no país inteiro com o Denv-1 e o Denv-2. Agora, passou a circular nacionalmente o Denv-3, que era desconhecido, e o 4 que pode se generalizar. As perspectivas, mesmo com todos os esforços das autoridades sanitárias e contribuição da população, são preocupantes. 

O Aedes aegypti é um mosquito africano que chegou ao Brasil no século 18 e é vetor para a transmissão de febre amarela, chikungunya, zika e dengue. A sua eliminação ou redução significativa é viável. Em meados da década de 1950, como resultado do combate à febre amarela, o inseto foi quase erradicado do Brasil, por meio de medidas drásticas e agressivas, com piretroide, querosene, queima de enxofre e outras ações que hoje não seriam permitidas. Cinco ou 10 anos depois o Aedes aegypti estava de volta. 

Tudo considerado, o combate a dengue deve ter 2 ramos principais a nortear as atividades sanitárias no Brasil: a vacina para imunizar a população e a erradicação do Aedes aegypti . 

É possível afirmar que o Brasil terá soluções positivas nos próximos anos, com diversos estudos e parcerias para novos imunizantes em andamento e em fases avançadas. 

A Dengvaxia, vacina licenciada em vários países e anteriormente aprovada pelas autoridades sanitárias, por cobrir só 1 sorotipo do vírus é recomendada apenas para pessoas que já contraíram a doença. É aplicada em 3 doses em pessoas de 9 a 45 anos. Apesar de ser uma alternativa, por causa de suas limitações e riscos, o imunizante não integra o SUS (Sistema Único de Saúde) e a tendência é entrar em desuso.

Felizmente, já há, em fase final de teste, a vacina tetravalente do Butantan . O imunizante brasileiro, ao fim dos testes e com aprovação da Anvisa, deve ser aplicado em dose única. 

Enquanto isso, a vacina já em uso no Brasil é do laboratório japonês Takeda , a Qdenga. É aplicada em duas doses, tem 63% de eficácia para a doença sintomática para os 4 sorotipos circulantes no país, eficácia de 85% para internação pela doença e os estudos iniciais já garantem uma cobertura em torno de 54 meses. 

O desafio em relação a Qdenga é que não há doses suficientes disponíveis. A previsão é que o Brasil adquira 50 milhões de doses em 5 anos, o que assegura a vacinação de 25 milhões de pessoas. 

Quanto mais a população for imunizada, mais a dengue deixa de ser um problema. Imaginem o sofrimento das pessoas que contraíram a dengue sintomática, a dor das famílias com entes queridos que tiveram as suas vidas ceifadas pela doença e os prejuízos para os serviços públicos e para as empresas privadas pelo afastamento de centenas de milhares de pessoas do trabalho. 

O Aedes aegypti é nefasto. Além de responsável pela transmissão de algumas arboviroses (virose transmitida por insetos e aracnídeos), transmite aos animais domésticos a dirofilaria immitis , conhecida como verme do coração e que mata os pets. Por essa razão, considero que devemos perseguir a erradicação do inseto, além de adotar medidas que devem, de forma articulada, eliminar ovos e larvas. 

Já existe, há mais de uma década, um mosquito transgênico, desenvolvido por uma empresa britânica, que mostrou grande eficácia no combate ao Aedes aegypti . Esse inseto geneticamente modificado acasala com as fêmeas, que passam a produzir ovos alterados, resultando em filhotes que morrem antes de poderem sugar alguém, ou de poderem se reproduzir. Realidade que está para além de contendas ideológicas contra a engenharia genética, consolidada em várias áreas da agricultura e representante de um avanço biotecnológico incontestável. 

Escrevi em artigo, na revista Teoria e Debate em 2003: 

“Qualquer programa de desenvolvimento para um país terá de incorporar, como um dos elementos fundamentais, a biotecnologia. A qualidade de vida dos seres humanos dependerá cada dia mais da nova ciência'.  

Naquela época, poderíamos falar de “nova ciência'. Voltando ao Aedes aegypti , acredito que o caminho para erradicá-lo no Brasil é a engenharia genética e, agora, agregando também a inteligência artificial. 

Uma outra possibilidade é a infecção do Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia . Um método que começou a ser pesquisado em 2016 pela Fiocruz , com o objetivo de impedir que o mosquito transmitisse a zika e outras arboviroses, inclusive a dengue. Essa metodologia surgiu a partir de estudos realizados na Austrália e consiste na introdução, em laboratório, da bactéria nos mosquitos que depois são soltos em áreas com a presença do vírus da dengue. Os insetos contaminados pela bactéria não transmitem as arboviroses. 

Por fim, é preciso compreender que as ações para conter as arboviroses exigem do Brasil um conjunto articulado de medidas que extrapolam as orientações à população.