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Memórias do Tetra: Branco e a bomba santa: 'Saiu do meu pé esquerdo e marcou a história'
Lateral relembra trajetória de quase cortado por lesão nas costas e reserva de Leonardo até herói com gol de falta diante da Holanda que salvou o tetra do Brasil na Copa do Mundo de 1994
BATANEWS/REDAçãO GE
Se você está ali, por volta dos 40 anos ou mais, certamente se lembra onde estava quando Branco acertou aquele chute. Se você é mais novo, não tem problema, certamente já te falaram sobre aquele chute. O tetra dos gols de Romário, das tabelas com Bebeto e das defesas de Taffarel teve no lateral-esquerdo um herói improvável, castigado por dores, questionado por todos e que deixou os Estados Unidos há 30 anos com um lugar na eternidade .
É preciso ser bem específico para falar daquele gol. Olhar para o resultado do jogo ou para a história de Branco não é suficiente para retratar aquele momento. Afinal, com três Copas do Mundo no currículo, título de Copa América e quase uma década como titular da Seleção, viver seu momento de protagonismo não seria surpreendente para o lateral. Mas para aquele Branco sim. Naquela Copa sim. Naquele jogo sim.
Titular em 1986 e 1990, a camisa 6 às costas não era suficiente para garantir prestígio. Muito pelo contrário. Com Roberto Carlos já em alta no Palmeiras, Branco teve até mesmo sua convocação questionada e chegou aos Estados Unidos na reserva de Leonardo. E a oportunidade diante dos holandeses surgiu após risco de corte e graças a expulsão do concorrente nas oitavas de final contra os Estado Unidos.
- Não tem os Deuses do futebol que dizem por aí? O destino me colocou ali. Com certeza foi um grande prêmio para a minha carreira por tanta pancada que eu levei, a imprensa dizia que eu estava acabado.
"Aqueles dois segundos da bola que saiu do meu pé esquerdo e marcou a história do futebol brasileiro e, com certeza, a minha vida... Uma carreira brilhante e encerrar a terceira Copa com o título mundial. Aquilo foi um prêmio. O destino estava traçado e deu certo"
A cotovelada de Leonardo em Tab Ramos abriu caminho para que Branco se tornasse titular nas três partidas finais da campanha do tetracampeonato. A vitória por 3 a 2 sobre a Holanda reservou ainda uma assistência de cabeça para o gol de Bebeto, o segundo do Brasil, mas não adianta falar das boas atuações, da cobrança perfeita nas penalidades contra a Itália ou de qualquer outro lance daquele Mundial.
Desde aquele 9 de julho de 1994, aquele chute de canhota aos 36 minutos do segundo tempo contra a Holanda insiste em ser exibido em looping na mente e diante dos olhos de Branco. Não adianta fugir, é mais forte do que ele:
- Fico emocionado, né? Tem coisas que eu fiz e às vezes olho e digo: "Po, eu fiz tudo isso". É um troço meio maluco assim, mas é verdadeiro. Não sou de estar olhando muito, mas meus filhos, os amigos mostram as imagens e eu digo: "Nossa senhora".
- Eu olho, parece ser difícil, mas eu fiz com tanta naturalidade, facilidade, sei lá. Aí, vem a questão do seu potencial individual, da sua capacidade, que logicamente aprimorei com o tempo.
Tudo naquela jogada está conectado ao destino traçado para Branco naquela Copa do Mundo. A corrida com o dedo apontado em direção ao banco de reservas e já com lágrimas nos olhos durante a comemoração remetia aos momentos de tensão antes da estreia diante da Rússia. Dores nas costas impediam o lateral de treinar e o temor pelo corte era uma realidade. Os amigos Mozer e Ricardo Gomes já tinham ficado pelo caminho.
- Po, medo? Tinha terror. Não era medo, era terror. Eu já tinha vindo de duas (Copas) e vi colegas cortados na preparação. Eu sentia esse temor de ter ido pelo mesmo caminho. Teve um dia depois do almoço, eu ficava no quarto com o Gilmar goleiro, e o Luisão massagista bateu na minha porta dizendo que tinha uma reunião me esperando.
"Quando eu entrei, te juro, cara, parecia a mesa da Santa Ceia. Era todo mundo naquela mesa enorme e eu disse: "Vou ser cortado". Mas foi o contrário. O Parreira me fala uma frase que foi importantíssima e determinante para o meu lado emocional. Ele disse: "Você foi, você é, e será importante para mim""
Duelo com Overmars
A profecia de Carlos Alberto Parreira se cumpriu semanas depois, por mais que Branco tivesse duvidado ao ser preterido durante as oitavas de final contra os Estados Unidos. Com a expulsão de Leonardo, Cafu foi escolhido para jogar improvisado, mas, mais uma vez, uma reunião a portas fechadas tranquilizou o camisa 6 sobre o que o esperava naquela Copa do Mundo.
- Eu pensei em entrar e não entrei, entrou o Cafu. E aí, como você fica? Minha cabeça ficou um trevo, mas mesmo assim fiquei lá fora apoiando. Eu fui conversar com o Parreira sobre a questão de ter entrado o Cafu, ele falou que eu iria jogar contra a Holanda, e foi o que aconteceu. Eu lembro muito bem que a gente tinha a informação dentro da concentração de que estava todo mundo preocupado que o Overmars ia deitar em cima de mim. Para resumir, o jogo inteiro o Overmars me marcou, eu não marquei ele.
Marc Overmars era o ponta habilidoso da Holanda tido na época como um dos maiores velocistas do mundo. Aos 21 anos, já se destacava pelo Ajax e depois fez história ainda com as camisas do Arsenal e do Barcelona. O relato de Branco, por sua vez, é verdadeiro. Mesmo aos 30 anos, o lateral brasileiro foi mais incisivo e perigoso durante todo o jogo, invertendo os papéis.
Quando a Holanda empatou o jogo após o Brasil abrir 2 a 0, Branco já tinha dado uma assistência e cobrado outras três faltas de longa distância. Até que encarou a marcação de Overmars para mudar o jogo e a sua própria história como conta em detalhes:
- No meu gol ele estava onde? Na lateral direita e eu na ponta esquerda. Foi onde eu dei aquele chega para lá nele. Se tem VAR na época, com certeza eu estava roubado. Fiz aquela jogada e entrei na diagonal. Se você analisar bem o lance, o Jong vem no meio, eu vou na diagonal e cavo a falta. Coloquei meu pé direito e joguei, e o juiz deu a falta. Tanto que o zagueiro, o Koemann, quando vê que eu me joguei, deu um chute na minha barriga. Houve uma confusãozinha na hora. Nós tomamos gol de lateral, o Bergkamp fez 2 a 1. Depois, gol do Winter, que era baixo, de cabeça: 2 a 2 e pensei: de novo pênaltis? Em 86, eu saí fora e agora de novo? Olha só esse pensamento rápido. A gente só faria gol de bola parada: ou pênalti, ou escanteio ou falta, como eu fiz.
O relato de Branco é detalhado, como quem vê diante dos olhos um filme dos segundos mais importantes da vida:
- Quando coloquei a bola para cobrar a falta, o goleiro botou cinco na barreira e um para sair. Eu já tinha batido falta no jogo, uma que ele tirou e outra que foi por cima. Ele estava com a visão complicada e eu digo: "Vou botar no canto dele". Apontei a válvula da bola, que aprendi com o Éder Aleixo, meu grande professor, que aprendi com o Telê na Toca da Raposa, nem existia Granja Comary... Quando ouvi o barulho da batida na bola, eu disse: "Foi". Ela teve aquele endereço que todo mundo vê, espetacular. O Baixinho saindo. E ele chegou na bola. O goleiro era muito alto, o De Goeij, chegou atrasado, a bola bateu no pé da trave e entrou. Aí que eu saí apontado para o pessoal do DM cumprindo a promessa que tinha feito de que quando voltasse faria um gol para eles.
Cuidado, Romário!
Os "dois segundos" entre a bola sair de seu pé esquerdo e estufar as redes ainda permitiram que Branco assistisse outro lance marcante da história das Copas. A chute de efeito passa justamente entre o zagueiro holandês Stan Valckx e Romário, um pula para trás, o outro se curva como pode, e a bola segue sua trajetória para dar a vitória ao Brasil.
- O velhinho lá de cima e a minha velhinha (mãe), te juro, conduziram aquela bola. De tão longa, naquela direção cheio de curvas, passando nas costas do Romário entre o zagueiro... Até brinco: se bate nele, ele não seria Senador e o Brasil não seria campeão do mundo. São histórias que a gente... (pausa entre lágrima) Desculpe a emoção, mas a gente não esquece. Enfim, foi um momento importante e Deus preparou para mim. 2 x 0, 2 x 2, eu faço a jogada, faço falta, cavo a falta e faço o gol. São coisas que eternamente... Não vou estar aqui, mas muita gente vai lembrar. Fica marcado na nossa história, graças a Deus, pelo lado positivo.
Trinta anos depois, o gol ainda alimenta o folclore do futebol brasileiro. Como dito no início desse texto, quem viveu lembra onde estava naquela tarde de 9 de julho, e Branco é quem pode comprovar:
- Nós marcamos duas gerações. A gente chega no lugar e o pai fala que o filho quer tirar foto, mas é ele que quer (risos). Todo mundo lembra onde estava. Um estava se casando, outro no motel, outro pescando com uma televisão no barco... É impressionante.
Titular durante os 90 minutos diante da Suécia, na semifinal, e os 120 na decisão contra a Itália, Branco conta ainda do senso de humor aquele que foi o momento mais tenso da campanha nos Estados Unidos. O placar na disputa por pênaltis apontava 2 a 1 para a Itália quando o lateral cobrou o terceiro pênalti para o Brasil e, assim como já tinha acontecido na eliminação para a França, em 1986, fez o seu papel.
- Eu fui olhando para o Pagliuca, olhando, olhando, peguei uma certa distância, e ele não saia. A dois passos da bola, ele me deu o canto esquerdo dele e pulou para o lado direito. Você pode ver nas imagens que eu viro o pé.
"Se tu puder, ou alguém puder, eu peço pelo amor de Deus, encontrar a foto do Pagliuca no meu pênalti, eu quero, porque não encontrei até hoje. Porque ele não saiu na foto no meu pênalti (risos)"
Memórias de um herói improvável, castigado por dores, questionado por todos e que deixou os Estados Unidos há 30 anos com um lugar na eternidade. Afinal, quem não lembra da bomba santa de Branco?






