Bola de Ouro há 40 anos, craque do Bangu é retratado em documentário feito pelo filho: “Me senti abraçado'

Com Zico e Renato Gaúcho, filme sobre Marinho está em produção há três anos. Steve mostra o pai para muito além das mazelas que abreviaram a sua vida em 2020

BATANEWS/GE


Foto: Divulgação

Sentado no cimento de Moça Bonita, Steve Wonder se prepara para uma segunda etapa de entrevistas até receber um carimbo dos céus – um pombo fez suas necessidades na parte de trás da sua camisa preta.

O pai de Steve é Mario José dos Reis Emiliano, o Marinho, craque e ídolo histórico do Bangu vice-campeão brasileiro em 1985. Há 40 anos, num 31 de julho, Marinho encantava o Brasil mesmo sem levantar o caneco. Marcou 16 gols em 28 jogos e ganhou a Bola de Ouro – tradicional prêmio da revista “Placar' para o melhor jogador do Brasil.

O papel de entrevistado é incomum para Steve, que faz entrevistas para o documentário “Marinho – A história do meu pai' há três anos, com a ajuda de apenas dois amigos - “na cara e na coragem'. Veja alguns trechos inéditos do documentário no vídeo que esta reportagem.

- Com cada pessoa que eu conversei, que deu depoimento, eu me senti abraçado. Até hoje eu não vi ninguém falar mal uma vírgula dele - lembra.

O nome foi ideia da mãe Laiza Minelli –quase homônima da atriz e cantora americana – que ouvia “Isn't she lovely' (Ela não é adorável?), de Steve Wonder, na hora do parto. As outras opções eram Michael Jackson e Michael Jordan.

- Meu pai costumava brincar: “o nome do meu filho é Steve Wonder, da minha mulher Laiza Minelli, mas o artista da família se chama Mário José'. Então ele caía na gargalhada – conta o filho de Marinho.

É assim, com bom humor, que Steve quer reapresentar Marinho para quem viu e apresentar quem não viu o pai jogar. O ponta que saiu da antiga categoria dente de leite do Atlético-MG, catou latinha e engraxou sapato nas ruas de Belo Horizonte para levar dinheiro para casa e depois foi aplaudido no Maracanã. No antigo Maior do Mundo, sentiu o gostinho da consagração aos pés.

- Eu falei pro Steve que se o pênalti do Ado tivesse entrado ou o gol do Marinho não tivesse sido invalidado, hoje vocês estariam fazendo uma entrevista aqui com o Marinho. Porque eu acho que uma das grandes frustrações dele foi aquele jogo contra o Coritiba - interpreta Alessandro Campos da Silva, diretor do documentário.

Ele se refere ao gol anulado que desempataria a final. Com o empate de 1 a 1, o Coxa levou a melhor na decisão por pênaltis de 1985 e deu a volta olímpica num Maracanã com 100 mil pessoas.

Dois anos antes, Marinho era contratado a peso de ouro por Castor de Andrade numa das saborosas histórias da produção de Steve e dos amigos Alessandro, que é ator e dirige um filme pela primeira vez, e Eduardo Madruga. Tânia, primeira mulher e mãe de três filhos de Marinho, conta que Castor colocou dinheiro e um revólver na mesa na reunião com os dirigentes do Galo. Tempos depois, para tentar controlar Marinho, mandava dinheiro para a esposa trocar móveis na residência e distrair o craque na mansão em Bangu.

- Eu acabei me apaixonando pela história do Marinho – conta Eduardo Madruga.

Editor do documentário, Edu tem 29 anos. Ele nasceu 11 anos depois do auge do jogador em 1985. Em 1986, Marinho fez dois jogos pela Seleção, convocado por Telê Santana, e fez um gol com a camisa amarela (na vitória por 3 a 0 sobre a Finlândia).

- Steve diz que o Marinho era implacável no campo. Eu acho que não era só no campo, ele era implacável na vida. Ninguém parava o cara. Ele estava sempre nos melhores lugares. Fazia as coisas mais extraordinárias e o que mais me impressiona é que as pessoas choram quando falam nele. Quando a gente fez a reportagem do Steve com os irmãos, nós finalizamos, eu entrei no carro e comecei a chorar. Eu não conseguia parar de chorar. De tão forte que foi aquela emoção deles de lembrar do pai, de tudo aquilo. Eu soluçando como se eu tivesse perdido o meu pai. Acho que a melhor coisa foi realmente ter descoberto quem era o Marinho.

Morte de filho chocou

Steve e os amigos estão fazendo o documentário com poucos recursos próprios. O filho quer evitar, por exemplo, lançar vaquinha online. Teme que se associe à imagem de necessidade que o pai passou em fase final da vida. Marinho morreu devido a complicações de uma pancreatite em 15 de junho de 2020, depois de algum tempo internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Alberto Cavalcanti, em Belo Horizonte (MG). Mas já vinha debilitado nos últimos anos de vida.

Do primeiro casamento, com Tânia, teve Priscila, de 45 anos, e João, que tem apelido de Marinho, 44. Com Laiza Minelli, teve Steve, de 33 anos, e Laís de Minelli, 32. Com Valda, já falecida, teve Micaela, 18, e Mickail, 16.

Ainda com Tânia, teve Marlon, que morreu antes de completar dois anos num episódio que marcou a família e a carreira de Marinho. Em 1988, ele dava entrevista em casa quando seu filho caiu na piscina. Morreu afogado.

- Marinho acabou ali – diz Ado, companheiro do craque no time de 1985 e que ainda trabalha no Bangu, no documentário de Steve.

- Perdi meu filho, perdi meu casamento. Se eu fiquei sem meu filho, fico sem o Marinho. Eu me fortaleci e me separei – conta, em outro momento, Tânia, a primeira mulher de Marinho.

O filho de Marinho não deseja que as pessoas lembrem do pai apenas por momentos como esse – num dos depoimentos, a mãe conta que ele virou "pai" de Marinho no fim da vida, com tantos cuidados. Mas levou luz à escuridão daquele momento trágico na vida do pai.

- Quis mostrar a realidade. Quis mostrar a verdade. Quero fazer um documentário que mostre o início do Marinho até o final. Nesse percurso teve a questão da droga, da morte do meu irmão. Isso não pode se esconder, não posso maquiar, se não estaria falhando na missão de mostrar quem foi o Marinho mesmo. Não é querer mostrar só o lado bom apagando o ruim. Mas para o lado bom acontecer e as pessoas saberem, esse lado ruim tem que estar também, faz parte da história dele – contou, com firmeza, Steve Wonder.

Aos 33 anos, Steve tentou a vida no futebol. Era cabeça de área e parou em 2016. Jogou na base do Botafogo, jogou no Bangu e no Santo André até parar em 2016. Hoje, ele é supervisor de transporte de uma empresa de tratamento oncológico.

Mora em Realengo, bem pertinho do campo do Bangu, e ganhou novo sentido familiar com a produção que comanda. Conheceu melhor tios, primos, e brinca que ganhou muito pão de queijo na visita a Belo Horizonte – o que ajudou a baratear a produção que contou com depoimentos de Zico e Renato Gaúcho, mas ainda promete ter Reinaldo, Marcelo Oliveira, João Leite, Paulo Isidoro e outros contemporâneos do pai.

Ele e Alessandro fizeram parte da produção “O jogo que mudou a história', série brasileira da Globoplay lançada em 2024 – Steve atuou e chega a perder um pênalti contra Carlos Germano no jogo cenográfico que teve participação de Paulo Nunes, Djalminha, Cafu, Odvan, entre outros. A ideia do trio de amigos é lançar o documentário em 2026, se tudo correr bem.

Ao longo das filmagens, Alessandro conduz passagens mais emocionantes quando pede aos entrevistados para imaginar a figura de Marinho diante deeles para dizer umas últimas palavras em 60 segundos para o carismático ponta, o mais carioca entre os mineiros. Na gravação com o ge, pela primeira vez Steve se imaginou na mesma situação.

- Eu sabia que essa pergunta um dia viria... (emociona-se) Acho que seriam 58 segundos de beijo e abraço e dois segundos dizendo “eu te amo'. A falta que o negão faz é surreal...