Dependência química: drama da pasta base se espalha por todo o Mato Grosso do Sul e exige ações integradas de saúde e apoio social

Derivada da cocaína, ela é mais barata e domina o consumo entre quem vive nas ruas

BATANEWS/REDAçãO


Dependente químico caminha pelo Centro de Campo Grande com maço de cigarros na mão. (Foto: Marcos Maluf)

A pasta base, droga derivada do refinamento da cocaína, é hoje a principal responsável pela dependência química que mantém usuários em situação de rua no centro de Campo Grande e em bairros próximos. Reportagem do Campo Grande News revelou histórias marcadas pela luta contra o vício e pela falta de suporte contínuo. Um homem de 41 anos relata ter tentado a reabilitação ao menos 13 vezes, sem sucesso definitivo. Outro, de 24 anos, começou a usar há apenas três meses, por influência de amigos.

De oito pessoas abordadas pela reportagem, sete confirmaram o uso da substância. O ciclo é rápido e cruel: a sensação de euforia, ainda que enganosa, vem em segundos, mas desaparece em poucos minutos — e a necessidade de repetir o consumo leva a novos gastos, crimes e rupturas sociais. “A sociedade acha que a gente só rouba, mas o que falta mesmo é amor e ajuda”, resume um dos entrevistados.

Além da pasta base, o álcool aparece como companheiro constante. “A cachaça é meu principal inimigo”, diz o mesmo homem de 41 anos, que vive na região da antiga rodoviária desde a infância. A droga custa entre R$ 10 e R$ 20 e é frequentemente misturada a materiais como Bombril, para potencializar os efeitos, o que agrava os danos ao organismo.

Segundo Eliandro Simonetti, fundador do Projeto Simão, que atua na recuperação e reinserção de dependentes químicos em Campo Grande, a pasta base é uma das substâncias mais devastadoras entre os usuários locais. “É uma droga que causa danos biológicos, psicológicos, sociais e familiares profundos. Um verdadeiro tsunami na vida do usuário. O sucesso no tratamento depende de múltiplos fatores, e o envolvimento da família é essencial durante e após o processo de recuperação”, explica.

O psiquiatra Eduardo Araújo, ex-coordenador da Rede de Atenção Psicossocial em Campo Grande, reforça que o modelo atual de tratamento público ainda é insuficiente. “O que é oferecido ao paciente não é o ideal. O tempo médio de 15 dias no CAPS não permite uma recuperação real. O tratamento não é simples — não é só tomar remédio e ficar bem. É preciso acompanhamento prolongado e suporte social contínuo”, destaca.

Na psiquiatria, a dependência química é classificada como uma doença crônica e recorrente do cérebro, semelhante ao diabetes ou à hipertensão: pode ser controlada, mas não necessariamente curada. Isso significa que recaídas são parte do processo, e o tratamento exige paciência, estrutura e apoio.

Estudos indicam que o cérebro de quem já desenvolveu dependência sofre alterações químicas que modificam o prazer, a motivação e o autocontrole. Com o tempo e o tratamento, há readaptação, mas a memória do uso e o risco de recaída permanecem. Por isso, especialistas defendem abordagens mais completas, que incluam não apenas medicamentos, mas assistência psicológica, acompanhamento familiar e oportunidades de reinserção social e profissional.

No contexto social, o problema é ainda mais complexo. O usuário, que já enfrenta uma doença, também lida com o rompimento de laços familiares, endividamento e ausência de rede de apoio. Sem renda e sem acolhimento, acaba retornando às ruas e à droga. “Tem gente que não tem muito o que perder. O nível de satisfação de vida é baixo. A pessoa precisa de motivação e de condições reais para se manter longe do vício”, diz o psiquiatra.

A Polícia Militar mantém presença ostensiva nas áreas mais afetadas, como o entorno da antiga rodoviária e o bairro Jockey Club, mas reconhece que o problema vai além da esfera policial. “A presença de pessoas em situação de rua é uma questão multifatorial, que envolve também saúde, assistência social e urbanismo. É essencial que os demais órgãos competentes continuem desenvolvendo ações integradas em suas áreas de atuação”, afirmou a corporação em nota.

Casos como esses não estão restritos à capital. Situações semelhantes se repetem em todos os municípios de Mato Grosso do Sul, independentemente do porte. Isso demonstra que a dependência química e o sofrimento mental são desafios presentes em todo o estado, exigindo atenção, articulação e políticas públicas conjuntas.

A solução passa por uma mobilização coletiva do poder público, das famílias, da sociedade civil e das instituições de saúde. É fundamental criar uma rede sólida de apoio, com foco na prevenção, acolhimento e tratamento humanizado.

Quem precisa de ajuda pode procurar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), disponíveis em diversas cidades de Mato Grosso do Sul, ou entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida), que oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br.

O problema da pasta base é, antes de tudo, um reflexo da fragilidade das redes de cuidado e de pertencimento social. E, para enfrentá-lo, é preciso mais do que policiamento ou repressão é preciso empatia, políticas efetivas e esperança de reconstrução.