Bactéria intestinal pode ajudar a prevenir ganho do peso após dieta, sugere estudo

BATANEWS/FOLHA


Uma pesquisa descobriu que uma bactéria intestinal pode ajudar a evitar o reganho do peso perdido - New Africa/Adobe Stock

Perder peso é difícil. Manter o peso alcançado costuma ser ainda mais difícil.

Pesquisas mostram que a maioria das pessoas que perde peso intencionalmente recupera pelo menos parte dele em poucos anos. Isso é frequentemente atribuído à falta de 'força de vontade', mas as evidências mostram que depois que perdemos peso, o corpo passa por uma série de mudanças biológicas que favorecem o reganho. Isso inclui aumento da fome, alterações no metabolismo e mudanças nos hormônios envolvidos na regulação do apetite.

Mesmo as pessoas que usam medicamento à base de GLP-1 têm dificuldade em manter a perda de peso assim que o tratamento é interrompido.

Um novo estudo publicado na Nature Medicine sugere que uma determinada bactéria intestinal pode ajudar a prevenir o reganho de peso.

A bactéria, chamada Akkermansia muciniphila, é uma espécie abundante no microbioma intestinal humano. Ela vive na camada de muco que reveste o intestino. Ela é capaz de se alimentar de mucina (as proteínas e açúcares que compõem esse muco) e acredita-se que desempenhe um papel na manutenção da barreira protetora do intestino e também pode influenciar o metabolismo.

A Akkermansia muciniphila tem chamado a atenção nas pesquisas sobre o microbioma nos últimos anos devido à sua associação com a melhora na saúde de pacientes com diversas doenças.

Estudos em humanos demonstraram que níveis mais elevados de Akkermansia muciniphila estão associados a uma melhor saúde metabólica, incluindo melhor controle do açúcar no sangue, o que reduz o risco de desenvolver problemas de saúde como o diabetes tipo 2. Por outro lado, níveis mais baixos de Akkermansia muciniphila são observados em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2.

Este estudo investigou se a suplementação de pessoas com Akkermansia muciniphila após a perda de peso poderia ajudar a limitar o subsequente ganho de peso.

O estudo envolveu 90 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os participantes seguiram uma dieta de baixo valor calórico durante oito semanas. Essa dieta consistia em sopas e caldos substitutos de refeições, totalizando 800 a 900 calorias por dia.

Após essa fase, os participantes que perderam pelo menos 8% do peso corporal foram então aleatoriamente designados para receber um placebo ou suplementos diários contendo Akkermansia muciniphila pasteurizada por 24 semanas. Eles também foram orientados a seguir uma dieta saudável alinhada com as diretrizes alimentares holandesas, mas foram informados de que poderiam comer tanto quanto quisessem.

Este estudo não utilizou bactérias vivas. Utilizou-se uma versão pasteurizada (as bactérias foram submetidas a tratamento térmico e já não estavam vivas). Isso pode parecer contraintuitivo, mas pesquisas anteriores sugerem que alguns dos efeitos benéficos dos probióticos podem vir de componentes da célula bacteriana, e não de micróbios vivos. A pasteurização pode até mesmo potencializar os efeitos do micróbio.

Ao final do estudo, o grupo que recebeu Akkermansia muciniphila havia recuperado significativamente menos peso do que o grupo que recebeu placebo. Em média, aqueles que tomaram o suplemento recuperaram cerca de 1,2 kg, em comparação com 3,2 kg no grupo do placebo. Isso sugere que a suplementação retardou, mas não impediu totalmente, a recuperação de peso após a perda inicial.

Os pesquisadores também observaram algumas melhorias em alguns marcadores cardiometabólicos, incluindo maior sensibilidade à insulina no grupo que recebeu o suplemento.

O microbioma é altamente complexo. Ele é influenciado pela alimentação, atividade física, sono, medicamentos e muitos outros fatores. Por isso, é improvável que as terapias baseadas no microbioma sejam soluções simples e válidas para todos.

Embora os resultados sejam animadores, o estudo foi relativamente pequeno e durou apenas seis meses após a fase inicial de perda de peso. Ainda não sabemos se os efeitos continuariam por períodos mais longos.

Há também dúvidas sobre quem tem mais chances de se beneficiar. Os participantes com níveis intestinais basais mais baixos de Akkermansia pareciam apresentar maiores melhorias cardiometabólicas. Isso destaca um desafio mais amplo na ciência do microbioma: os microbiomas intestinais das pessoas variam enormemente, e tratamentos que funcionam bem para uma pessoa podem ter pouco efeito em outra.

O estudo também envolveu uma intervenção alimentar substancial e apoio. Isso incluiu a oferta de um plano de substituição de refeições para a perda de peso inicial e o acompanhamento de nutricionistas durante o período do estudo. Portanto, o microrganismo não foi testado isoladamente das mudanças no estilo de vida, nem deve ser visto como um substituto para elas.

Também vale a pena notar que vários autores declararam vínculos com a empresa produtora do suplemento utilizado no ensaio. Tais colaborações são comuns na pesquisa translacional, mas estudos independentes serão importantes para confirmar e aprofundar essas descobertas.

As pesquisas até o momento mostram que o microbioma desempenha papéis fundamentais no metabolismo e na imunidade. Isso significa que ele pode influenciar tanto a saúde quanto o desenvolvimento de doenças.

Muitos suplementos probióticos atualmente comercializados para os consumidores têm evidências limitadas que os sustentam. Embora estudos como este sugiram que terapias direcionadas ao microbioma possam ter potencial para, eventualmente, serem utilizadas como parte de estratégias de manutenção de peso, são necessárias muito mais pesquisas.

Pode até ser possível apoiar e aumentar a Akkermansia muciniphila sem suplementação. A alimentação desempenha um papel importante na formação do microbioma. Dietas ricas em fibras, particularmente fibras prebióticas, podem ajudar a criar um ambiente no qual bactérias benéficas possam se desenvolver.

Essas fibras são encontradas em alimentos como cebola, alho, alho-poró, aspargos e muitos grãos integrais. Alimentos vegetais ricos em polifenóis (compostos vegetais naturais que podem proteger as células contra danos e inflamação) —como frutas vermelhas e uvas— também podem promover seu crescimento.

Por enquanto, as descobertas deste estudo reforçam as evidências crescentes de que uma interação complexa de fatores biológicos, ambientais e comportamentais influencia o peso corporal. Elas também contribuem para um quadro cada vez mais claro do microbioma intestinal como um importante regulador do metabolismo e da saúde.