Reclamar é importante; mas quando começa a ser um comportamento tóxico?

BATANEWS/FOLHA


The Summer Hunter

É natural reclamar para reivindicar direitos, quando algo não sai como planejado ou ao notar um incômodo. Às vezes, fazer coro com a reclamação do outro pode, inclusive, ser uma forma de buscar pertencimento.

Mas o excesso de lamentação pode aprisionar em uma dinâmica de negatividade que afeta o funcionamento do nosso cérebro e até 'contagia' aqueles que estão ao redor. Como sair dessa espiral?

Suprimir sentimentos ruins pode fazer muito mal para nossa saúde mental. Além disso, se queixar pode ser útil quando o objetivo é promover mudanças ou corrigir uma situação. Em maior escala, grande parte dos avanços sociais só acontece porque algumas pessoas não aceitam a realidade como ela é e usam suas vozes para pontuar as injustiças sociais ao seu redor.

Mas atenção: nesses casos, é válido que sua objeção venha acompanhada de uma atitude, como conscientizar mais pessoas sobre o problema ou se organizar na luta.

Verbalizar o que está incomodando e compartilhar com os amigos ou durante a terapia também ajuda a entender os sentimentos que existem por trás. Em certas ocasiões, reclamar também pode ser uma maneira de impor seus limites.

A queixa se torna um problema quando deixa de ser objetiva e se torna um hábito sem propósito, quase um vício. E nem mesmo as conquistas e os acontecimentos supostamente felizes escapam dessa dinâmica. Uma pesquisa da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que reclamações crônicas geram efeitos fisiológicos.

Por meio da repetição de sentimentos de tristeza, impotência e frustração, o cérebro pode sofrer uma reconfiguração neural que reforça padrões de pensamentos negativos e deixa pouco espaço para sentimentos positivos, a exemplo de gratidão, admiração ou bem-estar. Com o tempo, os 'reclamões' tornam-se viciados em negatividade, atraídos pelo drama que acompanha essa atitude.

Antes de mais nada, é importante avaliar se você está reclamando demais. Em seu livro 'The Squeaky Wheel', ainda sem tradução no Brasil, o psicólogo Guy Winch explica como reclamar da maneira correta pode melhorar seus relacionamentos e aumentar a autoestima.

Uma boa forma de fazer um autodiagnóstico é analisando suas mensagens de texto. A maioria delas possui um teor negativo? As lamentações feitas ali têm alguma finalidade?

Fazer o exercício de não reclamar à toa por um período é uma ótima forma de quebrar essa dinâmica. Ao longo desse 'detox', exercitar a gratidão pode ajudar a começar a encarar as coisas de uma forma mais positiva.

Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia concluiu que pessoas que se esforçaram diariamente para cultivar esse sentimento tiveram melhora no humor e na energia, além de níveis mais baixos de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse.

Também vale dar um toque naquele amigo que vive sugando sua energia com uma infinidade de reclamações. Às vezes, esse é um comportamento tão naturalizado que talvez ele não perceba o quanto pode fazer mal a si e para quem está perto.

Outra atitude que pode nos ajudar a não cair na espiral de reclamações é desenvolver resiliência. Ou seja, ampliar a capacidade de navegar por tempos difíceis tomando decisões alinhadas aos nossos valores, ao invés de ficar apenas se queixando.

Embora algumas pessoas sejam naturalmente mais resilientes do que outras, há formas de desenvolver esse superpoder, que combina flexibilidade mental, emocional e comportamental.

Construir resiliência passa por entender que ruminar a frustração diante das coisas que saíram errado gera uma camada extra de sofrimento. Em vez disso, vale pensar: 'esta é a situação, como posso enfrentá-la?', e partir para resolver.

Também vale identificar como funciona a sua resposta ao estresse e, antes de reclamar, praticar o hábito de fazer um momento de pausa. Isso cria espaço para uma resposta mais racional — apartada do ódio e do impulso.

Se, ao invés de ficar reclamando, você conseguir rir diante das pequenas agruras do dia a dia, sobra mais energia para solucionar as buchas reais que pintarem no caminho.

Passar meia hora procurando o celular e descobrir que o aparelho está no bolso. Bater a porta e ficar trancado fora de casa. Ter o maior trampo para chegar ao médico e descobrir que a consulta era amanhã. Todo mundo faz isso alguma vez na vida, relaxe.