De cada quatro novas doenças, três surgem nos animais

Integração entre saúde humana, animal e ambiental orienta pesquisas em vacinas, diagnósticos e vigilância sanitária.

BATANEWS/OPR


Foto: Divulgação

A relação entre a saúde dos animais, das pessoas e do meio ambiente deixou de ser apenas um conceito acadêmico para se tornar uma estratégia cada vez mais presente no enfrentamento de doenças e na prevenção de crises sanitárias.

Os números ajudam a explicar essa mudança de abordagem. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 60% das doenças infecciosas conhecidas são zoonoses, enfermidades transmitidas entre animais e seres humanos. Entre as doenças novas ou emergentes, essa participação é ainda maior: 75% têm origem animal.

Diante desse cenário, o conceito de Saúde Única (One Health) vem ganhando espaço em instituições de pesquisa e órgãos ligados à saúde pública. A proposta é reconhecer que a saúde humana, animal e ambiental são interdependentes e que ameaças sanitárias dificilmente podem ser enfrentadas de forma isolada.

Embora tenha ganhado força internacional nas últimas duas décadas, especialmente após a conferência “One World, One Health”, realizada em 2004 nos Estados Unidos, a abordagem tem sido incorporada em projetos que envolvem desde vacinação e diagnósticos veterinários até pesquisas ambientais e segurança hídrica.

Vacinação e diagnóstico na prevenção de zoonoses

Entre os exemplos mais conhecidos dessa conexão está a raiva, uma doença que pode ser transmitida por animais e que apresenta elevada taxa de letalidade.

O controle da enfermidade no Brasil está diretamente ligado às campanhas de vacinação animal. Atualmente, são disponibilizadas anualmente cerca de 28 milhões de doses de vacina antirrábica animal para abastecer programas públicos de imunização, medida considerada fundamental para reduzir a circulação do vírus e evitar casos em humanos.

Além da vacinação, o diagnóstico precoce é apontado como uma das principais ferramentas para interromper a transmissão de doenças entre animais e pessoas.

Nesse contexto, avançam pesquisas voltadas à produção nacional de insumos para diagnóstico de enfermidades como brucelose, tuberculose e leucose bovinas, doenças que afetam a pecuária e geram impactos sanitários e econômicos.

Outra frente de pesquisa busca desenvolver um teste nacional para diagnóstico da leucose enzoótica bovina, doença viral que compromete rebanhos leiteiros e de corte.

Busca por vacina inédita contra esporotricose felina

Entre os projetos em desenvolvimento está também a criação de uma vacina contra a esporotricose felina, uma micose que afeta principalmente gatos e pode ser transmitida para seres humanos.

A doença tem registrado crescimento em diferentes regiões brasileiras e exige tratamentos longos, tanto para os animais quanto para as pessoas infectadas.

Atualmente não existe vacina disponível para prevenir a esporotricose em animais ou humanos, o que torna a pesquisa uma das iniciativas mais relevantes na área de zoonoses.

Saúde ambiental entra na equação

A abordagem de Saúde Única também considera que fatores ambientais influenciam diretamente o surgimento e a disseminação de doenças.

Práticas inadequadas de manejo, degradação ambiental, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade são apontadas por especialistas como elementos capazes de aumentar riscos sanitários.

Por isso, projetos voltados à qualidade do solo e da água passaram a integrar a agenda de pesquisa.

Entre eles está um levantamento microbiológico realizado em áreas agrícolas paranaenses para mapear a diversidade de microrganismos presentes no solo e compreender como esses organismos influenciam a produtividade, a sustentabilidade e a saúde dos ecossistemas.

Outra iniciativa avalia tecnologias de purificação e dessalinização de água para aplicação em situações de emergência e vulnerabilidade hídrica.

Ciência para antecipar ameaças

A pandemia de Covid-19 ampliou o debate mundial sobre a necessidade de monitorar riscos sanitários de forma integrada. Desde então, a Saúde Única passou a ser tratada por organismos internacionais como uma das principais estratégias para prevenir futuras crises.

A lógica é simples: quanto mais cedo uma ameaça for identificada em animais ou no ambiente, maiores são as chances de evitar sua disseminação para a população humana.

Por isso, pesquisas em vacinas, diagnósticos, vigilância epidemiológica e monitoramento ambiental vêm sendo consideradas ferramentas complementares dentro de uma mesma estratégia de prevenção.

Mais do que combater doenças já instaladas, o conceito de Saúde Única busca antecipar riscos e reduzir a probabilidade de que novos surtos se transformem em problemas de saúde pública de grandes proporções.