Acordo abre caminho para reestruturação de R$ 100 bilhões em débitos do agronegócio

Entendimento entre governo, Câmara e bancada ruralista prevê condições especiais para produtores afetados por problemas climáticos e oscilações nos preços agrícolas

BATANEWS/REDAçãO


Foto: Divulgação

O governo federal e a Câmara dos Deputados chegaram a um entendimento para viabilizar a renegociação de aproximadamente R$ 100 bilhões em débitos do agronegócio. A proposta será apresentada por meio de uma medida provisória e deverá beneficiar produtores rurais que enfrentaram dificuldades financeiras provocadas por perdas de safra, eventos climáticos ou queda nos preços dos produtos agrícolas.

O acordo foi anunciado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, e pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, após meses de discussões entre o Executivo, parlamentares e representantes do setor produtivo. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp Conheça o Capataz, funcionário que decide se sua fazenda dá lucro ou prejuízo Negociação busca solução equilibrada para o campo

A construção do texto ocorreu depois que a proposta analisada no Senado gerou divergências com o governo. Diante do impasse, Hugo Motta reuniu representantes das diferentes partes envolvidas para tentar estabelecer uma solução considerada viável tanto para os produtores quanto para as contas públicas.

Participaram das negociações a senadora Tereza Cristina, o líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta, integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária e outros parlamentares ligados ao tema.

Segundo Motta, o objetivo foi construir uma alternativa equilibrada e racional, capaz de atender produtores endividados sem abandonar os critérios de responsabilidade fiscal defendidos pela equipe econômica. Medida prevê prazo ampliado e dispensa de entrada

Pelo formato anunciado, produtores enquadrados nas regras poderão reorganizar suas dívidas em até oito anos, sem necessidade de pagamento inicial.

A medida deverá contemplar agricultores que registraram perdas de safra relacionadas a fenômenos climáticos ou à desvalorização dos produtos comercializados. O critério apresentado considera prejuízos de até 30% na atividade rural.

A expectativa do governo é permitir que produtores recuperem sua capacidade de pagamento e voltem a acessar linhas de crédito essenciais para o custeio das próximas safras. Juros variam conforme o perfil do produtor

As condições financeiras serão definidas de acordo com o enquadramento de cada beneficiário.

Para dívidas relacionadas diretamente a eventos climáticos, as taxas previstas são: 5% ao ano para agricultores vinculados ao Pronaf; 8% ao ano para produtores do Pronamp; 11% ao ano para produtores de maior porte.

Nos casos em que os prejuízos estejam ligados principalmente à variação dos preços agrícolas, os juros serão de: 6% ao ano para beneficiários do Pronaf; 9% ao ano para participantes do Pronamp; 12% ao ano para grandes produtores.

A diferenciação busca oferecer condições mais favoráveis aos pequenos e médios agricultores, que normalmente possuem menor capacidade de absorver perdas sucessivas. R$ 100 bilhões em débitos do agronegócio podem ser renegociados

A estimativa apresentada pelo governo indica que o volume de operações potencialmente alcançado pela medida poderá chegar a R$ 100 bilhões.

A renegociação será conduzida pelas instituições financeiras responsáveis pelos contratos. O Banco do Brasil, segundo Durigan, já estaria preparado para receber os produtores, analisar as situações individuais e iniciar a reorganização dos pagamentos.

A regularização dessas pendências também é considerada importante para a execução do novo Plano Safra, pois produtores inadimplentes encontram dificuldades para contratar financiamentos destinados à compra de sementes, fertilizantes, máquinas e demais insumos. Ampliação do acordo atendeu demanda da bancada ruralista

O governo defendia inicialmente que a renegociação fosse direcionada principalmente aos produtores afetados por eventos climáticos extremos, como as enchentes registradas no Rio Grande do Sul.

Durante as negociações com a Frente Parlamentar da Agropecuária, o alcance da proposta foi ampliado para incluir também agricultores prejudicados pela queda nos preços das commodities e pela redução da rentabilidade da atividade rural.

A mudança foi considerada essencial pelos representantes do setor, que alertavam para o aumento do endividamento em diferentes regiões do país, mesmo onde não ocorreram desastres climáticos de grande proporção. Próxima etapa será a publicação da medida provisória

Com o consenso político, o governo deverá formalizar as regras por meio de medida provisória. O instrumento passa a valer após sua publicação, mas ainda precisa ser analisado pelo Congresso Nacional para continuar em vigor.

Os detalhes operacionais, os documentos exigidos e os critérios de comprovação das perdas deverão ser definidos no texto oficial e em regulamentações posteriores.

Para os produtores, o acordo representa uma oportunidade de reorganizar os compromissos financeiros e manter a produção. Para o governo, o desafio será garantir que a medida atenda quem realmente sofreu perdas sem provocar desequilíbrios nas contas públicas.

*Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira