Vacina contra o câncer: intervenção já existe e não pode ser esquecida

Pesquisa feita na Inglaterra mostrou que vacinação de crianças em idade escolar contra o HPV zerou mortes de mulheres jovens

BATANEWS/VEJA


PREVENÇÃO - De graça: imunizante é ofertado a meninas e meninos de 9 a 14 anos (Rodrigo Nunes/MS//)

A infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) é a causa necessária para o desenvolvimento de praticamente todos os casos de câncer de colo do útero, além de estar associada a uma parcela importante dos cânceres de vulva, vagina, ânus, pênis e orofaringe. Nesse contexto, a vacinação contra o HPV representa um dos maiores avanços da saúde pública nas últimas décadas, reunindo elevado perfil de segurança, eficácia comprovada em ensaios clínicos e extraordinária efetividade em dados de vida real demonstrada em programas nacionais de imunização.

Após mais de 15 anos de utilização em programas nacionais e centenas de milhões de doses aplicadas em todo o mundo, as vacinas contra o HPV apresentam excelente perfil de segurança. Diversos sistemas independentes de farmacovigilância, incluindo aqueles da Organização Mundial da Saúde (OMS), demonstram que eventos adversos graves são extremamente raros e não há evidências de associação causal com doenças autoimunes, infertilidade, doenças neurológicas ou outras condições frequentemente alvo de desinformação.

Os eventos adversos mais comuns são dor local, edema e vermelhidão no local da aplicação, além de episódios vasovagais (desmaios) relacionados ao ato vacinal e não à vacina propriamente dita.

Os estudos clínicos que subsidiaram o licenciamento das vacinas mostraram eficácia superior a 90–95% na prevenção das infecções persistentes pelos tipos de HPV contemplados pelas vacinas e das lesões precursoras do câncer quando administradas antes da exposição ao vírus.

Atualmente, sabe-se que a proteção é duradoura, com manutenção da resposta imunológica por mais de 15 anos de acompanhamento, sem evidências de perda significativa da proteção.

Se inicialmente os estudos demonstravam proteção contra infecção e lesões precursoras, hoje as evidências de mundo real confirmam redução consistente do próprio câncer invasivo.

Diversos países com altas coberturas vacinais, como Austrália, Escócia, Inglaterra, Suécia e Dinamarca, documentaram reduções expressivas nas infecções por HPV, nas verrugas genitais, nas lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (CIN2 e CIN3) e, posteriormente, na incidência de câncer do colo do útero.

Na Inglaterra, estudo populacional demonstrou redução de aproximadamente 87% na incidência de câncer do colo do útero entre mulheres vacinadas aos 12 e 13 anos, além de importante redução das lesões pré-cancerosas de alto grau. Os benefícios foram observados em todos os estratos socioeconômicos, contribuindo inclusive para redução das desigualdades em saúde.

Na Escócia, acompanhamento nacional mostrou um resultado histórico: nenhum caso de câncer do colo do útero foi identificado entre mulheres vacinadas completamente aos 12 e 13 anos, reforçando a extraordinária efetividade da vacinação quando realizada antes do início da vida sexual.

Neste ano, foi publicado o primeiro estudo nacional avaliando o impacto da vacinação contra HPV sobre a mortalidade por câncer do colo do útero na Inglaterra. Os resultados representam um marco na história da prevenção do câncer.

Entre mulheres de 20 a 24 anos vacinadas aos 12 a 13 anos, não foi registrado nenhum óbito por câncer de colo do útero entre 2020 e 2024, quando seriam esperados cerca de 23 óbitos com base nas taxas históricas, correspondendo a uma redução estimada de 100% na  mortalidade nessa faixa etária.

O estudo estimou que a vacinação já evitou aproximadamente 200 mortes por esse tipo de tumor na Inglaterra desde sua implementação. Embora observacional, este constitui o primeiro estudo nacional a demonstrar impacto direto da vacinação contra HPV na mortalidade por câncer, consolidando definitivamente a vacina como uma estratégia capaz de salvar vidas.

Em 2020, a OMS lançou a Estratégia Global para Eliminação do Câncer de Colo do Útero como problema de saúde pública. A meta conhecida como 90-70-90 estabelece que, até 2030:

A combinação dessas três estratégias poderá reduzir drasticamente a incidência da doença nas próximas décadas, levando diversos países à eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública.

Os resultados observados em países como Austrália e Reino Unido demonstram que essa meta é factível quando há elevadas coberturas vacinais e programas organizados de rastreamento.

Vacina contra o HPV no Brasil

O Brasil incorporou a vacina contra HPV ao Programa Nacional de Imunizações em 2014 e, posteriormente, ampliou a vacinação para meninos, além de grupos especiais imunossuprimidos.

Hoje, o país disponibiliza a vacina, em esquema de dose única, para adolescentes de ambos os sexos de 9 a 14 anos. Temporariamente estão sendo convocados os adolescentes de 15 a 19 anos para se vacinarem, uma oportunidade para resgatar os faltosos e aumentar a cobertura vacinal.

Embora a cobertura vacinal venha se elevando, estamos ainda abaixo da meta preconizada de 90%. Após bons resultados iniciais, houve queda importante durante e após a pandemia de covid-19, com diferenças expressivas entre regiões brasileiras. Esse cenário preocupa, pois compromete o potencial de eliminação futura do câncer de colo do útero.

Apesar disso, publicações nacionais já demonstram resultados encorajadores. Estudos brasileiros utilizando dados de vigilância têm mostrado redução da circulação dos tipos vacinais de HPV, diminuição das verrugas anogenitais e redução das lesões cervicais de alto grau nas coortes mais jovens vacinadas, confirmando que o impacto observado internacionalmente também começa a ser reproduzido no país.

Esses achados reforçam que, à medida que as coortes vacinadas envelheçam, espera-se observar redução progressiva também na incidência e mortalidade por câncer de colo do útero, como já ocorre em outros países.

Poucas intervenções em saúde pública apresentam nível de evidência tão robusto quanto a vacinação contra o HPV. Sua segurança encontra-se amplamente estabelecida, sua eficácia foi demonstrada em ensaios clínicos e sua efetividade vem sendo confirmada por estudos de mundo real em diversos continentes.

Hoje, os resultados já ultrapassam a prevenção da infecção e das lesões precursoras: países com altas coberturas vacinais registram reduções expressivas da incidência de câncer e, mais recentemente, da própria mortalidade por tumores de colo do útero.

Esses dados reforçam que ampliar as coberturas vacinais, associadas ao rastreamento adequado, representa a principal estratégia para que o câncer de colo do útero deixe de ser uma importante causa de adoecimento e morte nas próximas décadas, inclusive no Brasil.

*Renato Kfouri é pediatra infectologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)