Exercício previne doenças e gera impacto positivo no sistema de saúde

Equipamentos públicos e campanhas educativas podem estimular a prática

BATANEWS/VEJA


Temos de aprender a olhar para a nossa saúde não apenas quando ela nos falta, mas todos os dias, quando escolhemos o que comer, o que beber, o que não beber, enfim, o que fazer por nós mesmos (Erik Isakson/Getty Images)

A sabedoria popular há muito nos ensina que prevenir é melhor que remediar, o que é especialmente verdadeiro quando pensamos em saúde. Nosso desafio é transformar essa velha lição em uma cultura de prevenção ativa de doenças, com impacto positivo tanto na qualidade de vida e na perspectiva de envelhecimento saudável como na sustentabilidade do sistema de saúde. Temos de aprender a olhar para a nossa saúde não apenas quando ela nos falta, mas todos os dias, quando escolhemos o que comer, o que beber, o que não beber, enfim, o que fazer por nós mesmos – afinal, nossa condição física é, em grande parte, um reflexo do modo como vivemos.

Entre os antigos gregos a prática de exercícios físicos era uma forma de cultivar certas qualidades, como disciplina e autocontrole, e também de buscar a beleza. Hoje, a ciência nos mostra que são inúmeros os benefícios que ela traz para a saúde, contribuindo para evitar o surgimento de uma série de doenças crônicas, entre as quais obesidade, diabetes, hipertensão, cardiopatias, dislipidemias, osteoporose e até alguns tipos de câncer. E mais: já existem evidências de que a atividade física protege o organismo da depressão, da ansiedade e do declínio cognitivo. Mesmo assim, mais da metade da população brasileira afirma não praticar nenhum tipo de exercício, segundo dados de recente pesquisa da parceria Genial/Quaest.

O número é muito expressivo para ser atribuído meramente a fatores subjetivos, como falta de motivação ou preguiça – sobretudo quando levamos em conta que há uma cultura fitness muito divulgada nas redes sociais, que poderia ser um estímulo à prática. Paradoxalmente, a atuação de influenciadores pode surtir efeito contrário, pois eles tendem a propagar objetivos inatingíveis para a maioria das pessoas. Geralmente buscam resultados estéticos que demandam muito treino, muita disciplina e alta performance, quando não a ajuda de suplementos ou de canetas emagrecedoras. Essa não é a realidade da maior parte da população, que, no entanto, ganharia muito com a inclusão de atividade física regular de nível moderado em sua rotina.

Os recortes da pesquisa revelam que a situação é mais grave na região Nordeste, onde 62% dos habitantes são sedentários, entre mulheres, que representam 59% dos inativos, e entre as pessoas de menor escolaridade (65% têm apenas o ensino fundamental completo) e de menor renda (64% recebem até dois salários mínimos). Esses dados atestam que as condições sociais influem diretamente na adesão à prática de atividade física, portanto as soluções precisam ser equacionadas como políticas públicas.

Para quem trabalha o dia todo, em longas jornadas estendidas pelas horas gastas em transporte público, faltam tempo e disposição para a atividade física regular. Esse é o cotidiano da parcela majoritária dos brasileiros, ao qual se soma a falta ou a precariedade de equipamentos públicos. No caso das mulheres, a dificuldade é ainda maior, tanto pela sobrecarga, já que que muitas combinam o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e de cuidado, quanto pelo receio de sofrer assédio ou violência em treinos de rua. Esse debate dialoga com o recente projeto de mudança da escala de trabalho, que amplia as horas de descanso e as possibilidades de autocuidado. É sempre bom lembrar que o investimento em prevenção de doenças retorna em produtividade e menos dias de trabalho perdidos.

O problema do sedentarismo, naturalmente, não é apenas local, mas segue determinados padrões. Nos países mais pobres, a adesão à prática de exercícios é muito mais baixa que nos mais ricos. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 31% da população adulta (cerca de 1,8 bilhão de pessoas) não alcança o mínimo de atividade recomendado – de 150 a 300 minutos semanais em ritmo moderado ou de 75 a 150 minutos em ritmo pesado. Segundo projeções da entidade, esse percentual pode chegar a 35% até 2030, caso a tendência não se modifique, o que representa para os sistemas de saúde um custo de cerca de US$ 300 bilhões. Na ponta do lápis, promover a atividade física pode gerar significativa economia de recursos, a serem canalizados para o tratamento das doenças que não podemos evitar.

Além de beneficiar a saúde e de aumentar a sensação de bem-estar, a atividade física gera interação entre as pessoas, o que, para os idosos, cumpre uma função especialmente importante. Conforme conclusões de recente estudo liderado por pesquisadores da USP em colaboração com o King’s College London, no qual foram cruzadas as informações do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA), no Reino Unido, com as do Estudo sobre Saúde e Aposentadoria (HRS), nos Estados Unidos, esse grupo obtém significativa redução do risco de sintomas depressivos com a prática de atividade física, mesmo que seja muito moderada, como caminhar ou realizar pequenas tarefas do dia a dia. Ainda segundo a pesquisa, adotar hábitos ativos apenas na meia-idade também traz benefícios para a saúde mental.

Do ponto de vista das políticas públicas, é possível promover, eventualmente em parceria com academias, atividades esportivas em parques e praças, aulas de ginástica e de dança ou grupos de caminhada com acompanhamento de profissional de saúde. Ao mesmo tempo, é fundamental criar campanhas educativas permanentes sobre a importância da atividade física e, é claro, garantir segurança para que as pessoas pratiquem exercícios ao ar livre e usem a bicicleta como meio de transporte alternativo. As soluções são simples, mas requerem organização racional das cidades e sensibilidade para questões que afetam os grupos mais vulneráveis.