Resgate armado de presos expõe falha grave na segurança, alerta sindicato

Sem armas, policiais penais acabam "reféns" de facções, conforme depoimentos coletados pela reportagem

BATANEWS/CGNEWS


Entrada do Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

O resgate de três detentos por um grupo armado no Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, em Campo Grande, expôs falhas nos protocolos de segurança e o risco enfrentado pelos policiais penais, segundo o Sinsap (Sindicato dos Servidores da Administração Penitenciária do Estado de Mato Grosso do Sul).

A entidade afirmou que cobrará providências urgentes da Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) após a invasão ocorrida na madrugada de segunda-feira (20).

Seis homens participaram do resgate. Eles cortaram o alambrado da unidade penal, arrombaram os cadeados da cela onde estava Ítalo de Moraes, sobrinho de José Cláudio Arantes, o Tio Arantes, apontado como liderança do PCC (Primeiro Comando da Capital) em Mato Grosso do Sul. Além do preso “famoso', outros 2 colegas de cela dele, Thiago Pereira Costa e Bruno Araújo da Silva, foram retirados do estabelecimento penal.

A fuga também remete ao histórico de José Cláudio Arantes. Em novembro de 2021, o próprio Tio Arantes escapou do Centro Penal Agroindustrial da Gameleira e permaneceu foragido até ser localizado e preso na Bolívia, em 2023.

Para o sindicato, a regulamentação da carreira da Polícia Penal permitiria estabelecer protocolos obrigatórios de segurança, procedimentos operacionais e equipes de pronto emprego para situações como a registrada na Gameleira. “Na ausência da lei, a gestão reiteradamente tem regulamentado o exercício das nossas atribuições via decreto', declarou a entidade.

Segundo o Sinsap, o modelo atual resulta em excesso de tarefas, falta de efetivo, sobrecarga de trabalho e insegurança para os servidores.

Policiais penais ouvidos reservadamente pelo Campo Grande News afirmaram que o plantão na unidade teria, no máximo, sete servidores para a guarda de aproximadamente 1,6 mil presos, média de 228 detentos para cada funcionário. Eles demonstraram revolta com a possibilidade de a responsabilidade pelo episódio ser atribuída aos trabalhadores que estavam de serviço.

Na avaliação desses servidores, o episódio não deve ser tratado como uma fuga convencional, já que um grupo externo armado entrou na unidade com o objetivo específico de retirar determinado preso. Eles também afirmam que o presídio não possui muralha e classificam como insuficientes os mecanismos de proteção existentes.

Os policiais da unidade não trabalham armados nas áreas internas e caso os plantonistas tivessem tentado impedir a ação, poderiam ter sido facilmente atacados e mortos.

O presidente do Sinsap, André Luiz Garcia Santiago, também afirmou que o episódio da Gameleira não deve ser considerado isolado e alertou para a possibilidade de ocorrências mais graves. Santiago também acusou a atual gestão de não tratar a vida e a integridade física dos policiais penais como prioridade.

A entidade critica ainda a abertura de novas unidades prisionais e a ampliação das atribuições da categoria sem o correspondente aumento no número de servidores. Para o sindicato, essa política agrava a deficiência de pessoal já existente no sistema penitenciário estadual.

Outro lado – A Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) confirmou a fuga de Ítalo de Moraes, Bruno Araújo da Silva e Thiago Pereira Costa, mas informou em nota que não houve confronto, invasão ou uso de armas. “A estrutura de contenção [grade] foi restabelecida, um procedimento administrativo foi aberto para apurar o caso e as forças de segurança realizam buscas pelos fugitivos, enquanto a Justiça foi comunicada para a expedição dos mandados de prisão', completa o texto.