Saúde
Em estudo, semaglutida avança como possível tratamento para dependência de álcool
Pesquisadores nos EUA testaram uma versão oral da semaglutida em pessoas com transtorno por uso de álcool; autores definem resultados como "promissores"
BATANEWS/VEJA
A semaglutida, substância presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, pode ajudar a reduzir o consumo excessivo e prejudicial de álcool. É o que aponta um novo estudo conduzido nos Estados Unidos com uma versão oral do remédio.
A pesquisa, publicada na quarta-feira, 29, na revista científica The American Journal of Psychiatry, se soma à uma série de estudos que estão investigando como os agonistas de GLP-1, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, também poderiam ser úteis para diferentes tipos de dependência.
Pacientes que usam esses medicamentos têm relatado que perdem a vontade de beber ou fumar, mesmo sem terem esse objetivo. E a explicação pode estar na ação dessa classe de medicamentos sobre o sistema de recompensa do cérebro.
Ao atuar em regiões como o núcleo accumbens, uma pequena região localizada no centro do cérebro, as canetas antiobesidade parecem reduzir a liberação de dopamina provocada pelo álcool, pela nicotina e por outras drogas, reduzindo a sensação de prazer associada ao consumo.
Como o estudo foi feito
A pesquisa foi realizada no Campus Médico Anschutz da Universidade do Colorado, entre novembro de 2023 e outubro de 2025.
A análise incluiu 50 pessoas diagnosticadas com transtorno por uso de álcool (TUA) de nível moderado a grave. Essa doença crônica é caracterizada pela perda de controle sobre o consumo de álcool e sintomas de abstinência.
O estudo foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, método considerado o padrão-ouro da pesquisa científica, e teve duração de oito semanas.
Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Um deles recebeu semaglutida oral: 3 mg por dia ao longo de quatro semanas, seguidos de 7 mg por dia por mais quatro semanas.
Segundo o estudo, as dosagens são menores do que as utilizadas em casos de diabetes tipo 2 ou obesidade. Além disso, a versão oral tende a ser mais aceitável para pessoas com o transtorno do que as formulações injetáveis testadas anteriormente para a doença.
Já o segundo grupo recebeu placebo. Todos os participantes tinham mais de 21 anos de idade. Entre os homens, eles relataram consumir, em média, 28 doses de álcool ou mais por semana. Número que era de 21 ou mais entre as mulheres.
Os voluntários também relataram pelo menos um dia de consumo excessivo de álcool na semana anterior ao estudo. A pesquisa considerou como excessivo o consumo de cinco ou mais doses de álcool em um dia para homens, e quatro ou mais no caso das mulheres.
O que eles descobriram
Segundo os pesquisadores, a semaglutida não reduziu significativamente o desejo por álcool quando esse impulso foi medido em testes de laboratório.
Por outro lado, o medicamento diminuiu significativamente o número de dias em que os participantes tiveram consumo excessivo de álcool.
Além disso, a semaglutida também reduziu:
A cannabis foi incluída no estudo em razão da alta prevalência do uso da erva no estado do Colorado. Segundo os pesquisadores, análises feitas em laboratório já indicavam que os agonistas do receptor de GLP-1 poderiam reduzir a incidência e a recaída do transtorno por uso de cannabis, uma condição crônica em que a pessoa não consegue parar de usar maconha.
Mas nenhum estudo anterior com esses medicamentos havia examinado os desfechos relacionados ao uso da erva. “Portanto, a redução nos dias de uso de cannabis observada com a semaglutida no presente estudo, embora exploratória, é inédita e merece acompanhamento em estudos maiores”, diz o estudo.
A análise aponta ainda que um número significativamente maior de participantes no grupo da semaglutida, em comparação com o grupo do placebo, reduziu seu nível de consumo de risco em um ou mais níveis. Por exemplo, passando de um consumo considerado alto para moderado.
Quem recebeu o medicamento também registrou menos problemas relacionados ao uso de álcool. Além disso, a semaglutida foi bem tolerada, com taxas de eventos adversos gastrointestinais e outros semelhantes às de outras populações e baixa taxa de abandono relacionada a eventos adversos.
Potencial da semaglutida no tratamento da dependência alcoólica
De acordo com os autores do estudo, a análise fornece “evidências promissoras” da potencial eficácia da semaglutida no tratamento de pessoas com dependência alcoólica.
Segundo os pesquisadores, o remédio pode se tornar uma nova opção de terapia, particularmente para pessoas que não tiveram bons resultados com outros medicamentos já utilizados no tratamento do transtorno por uso de álcool.
Por outro lado, ainda não está claro se os efeitos da semaglutida sobre o consumo de álcool persistem quando a medicação é interrompida. Os pesquisadores sugerem que estudos futuros devem acompanhar esses pacientes após a suspensão do remédio para esclarecer essa questão.
“Se ensaios randomizados maiores também indicarem eficácia para TUA, a semaglutida e outros agonistas do receptor de GLP-1 têm potencial para ampla adoção clínica. Os esforços para reaproveitar a semaglutida para TUA devem continuar em ritmo acelerado”, escreveram os autores no estudo.



