Saúde
Revolução além do peso: canetas são testadas contra vícios, dores e até mesmo o câncer
Depois de conquistarem o mundo como tratamento para diabetes e obesidade, elas passam a mirar múltiplos fins
BATANEWS/REDAçãO
No panteão da mitologia grega, que reflete as atemporais aspirações da humanidade, Asclépio, o deus da medicina, dividia espaço com sua filha, Panaceia, a deidade responsável por todas as curas. Seu nome perdeu a inicial maiúscula e virou verbete e esperança ao longo dos séculos como sinônimo de um remédio, encontrado na natureza ou criado pelo homem, capaz de erradicar qualquer doença. Até que foi perdendo o verniz de adoração e ganhando uma aura negativa pelas mãos de inúmeros curandeiros e charlatões que prometiam, com uma única erva ou unguento, sanar todos os males — uma prática que não caiu em desuso, só obteve outra roupagem e vocabulário no comércio digital.
Era natural, portanto, que as canetas emagrecedoras, a classe de medicamentos mais popular e lucrativa de nosso tempo, começassem a ser tratadas como panaceia na esteira de seus novos benefícios apontados por estudos, ainda que eles demandem uma boa dose de ponderação e escrutínio científico. O fato é que os resultados das cuidadosas investigações são animadores — à margem, claro, dos espertalhões que vendem falsificações no mercado informal. Muito além do peso, esses produtos têm potencial para ajudar a tratar um amplo espectro de condições — daquelas entranhadas no cérebro a outras que se manifestam à flor da pele e das articulações.
A bem da verdade, a revolução das canetas não começou com a mira na obesidade. Os primeiros análogos de GLP-1, produtos que imitam um hormônio que atua no controle da saciedade e dos níveis de glicose no sangue, foram formulados para domar o diabetes. O efeito sobre a perda de peso logo chamou atenção e pediu passagem. Hoje, a semaglutida, do Ozempic e do Wegovy, e a tirzepatida, do Mounjaro protagonizam um mercado formal que movimenta mais de 14 bilhões de reais só no Brasil — as vendas da categoria cresceram 110% entre os meses de abril de 2025 e 2026. Embora o apelo estético venha alimentando tais números, esses fármacos já contam com um currículo de evidências a favor de suas vantagens metabólicas, algo que a balança e os exames de glicemia costumam comprovar. Mas eles podem fazer mais pelo corpo.
Na verdade, já fazem. E, por vezes, a fama de eliminar as gordurinhas até ofusca esses efeitos demonstrados em estudos robustos. A semaglutida, por exemplo, é aprovada pela Anvisa para mitigar um problema que chega a afetar cerca de um terço da população e outro por trás da principal causa de mortes no país. “Além de tratar o sobrepeso e a obesidade, as canetas de Wegovy têm indicações para o tratamento da gordura no fígado com inflamação e fibrose e para a proteção cardiovascular em indivíduos acima do peso, reduzindo o risco de eventos graves como infarto e acidente vascular cerebral (AVC)”, diz Priscilla Mattar, vice-presidente médica da farmacêutica Novo Nordisk no Brasil. Enquanto isso, o Ozempic, a formulação voltada a quem tem diabetes, também recebeu aval para a prevenção da doença renal crônica, uma das complicações do desequilíbrio do açúcar no sangue. Já o Mounjaro, do laboratório Eli Lilly, ganhou a chancela para atacar a apneia do sono, distúrbio marcado por roncos e interrupções temporárias na respiração durante a noite e bastante ligado aos quilos extras. Essa expansão de aplicações tem a ver com uma noção cada vez mais realçada pelos praticantes da medicina séria. “Precisamos fugir da ideia de pesocentrismo, porque o mais decisivo não é atingir um peso ideal, mas controlar ou reverter comorbidades ligadas ao excesso de gordura”, afirma o endocrinologista Bruno Geloneze, professor da Unicamp.
Sob essa ótica, uma série de estudos está em curso para verificar outras indicações e “efeitos colaterais” positivos do uso das canetas. Efeitos, diga-se, que podem ter ou não a ver com o emagrecimento em si. Um exemplo: pessoas que tomam as injeções semanais relatam aos médicos menos vontade de fumar ou beber, mesmo que não estejam tentando parar. Qual a lógica? “Essas medicações atuam numa região do cérebro ligada à sensação de recompensa e parecem diminuir a liberação de dopamina provocada por álcool, nicotina e até drogas opioides”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto. Uma análise com dados reais de milhares de usuários de GLP-1 revela que as intoxicações alcoólicas caíram por volta de 50% depois do início do tratamento. Já uma pesquisa dinamarquesa, desenhada para testar de forma controlada a semaglutida nesse contexto, mostrou que a ingestão de álcool desabou 1,5 grama em um mês, diante de 1 grama de redução entre pessoas que utilizaram a caneta sem princípio ativo (o placebo) — na prática, a diferença representa 33 latas de cerveja a menos nesse período. Outra intervenção, feita nos Estados Unidos, apontou que, apesar de as pessoas não pararem totalmente de beber, o volume de consumo diminuiu, bem como a fissura. São achados que, se confirmados em larga escala, poderão ampliar o arsenal terapêutico da dependência química.
Outra área de atuação inusitada é a das dores crônicas. Trabalhos recentes mostram que pessoas acima do peso com osteoartrite nos joelhos — a famigerada artrose provocada pelo desgaste das juntas — reportam menos incômodos e dificuldades para se movimentar depois de começar a injetar as canetas. Faz sentido: com menos quilos, diminui a sobrecarga mecânica sobre a articulação. Mas o mecanismo de ação parece não se limitar a isso: já se especula que as propriedades anti-inflamatórias dos análogos de GLP-1 entram em cena, jogando água sobre o incêndio nos joelhos e minimizando a degradação da cartilagem local. Experimentos mais embrionários, por sua vez, vislumbram atingir outros tipos de dor. Esses medicamentos estão sendo avaliados diante da neuropatia diabética, uma sequela do descontrole dos níveis de glicose que danifica nervos dos membros, gerando insensibilidade ou fortes desconfortos, e até mesmo contra crises de enxaqueca. É esperar para ver os desfechos.
No campo das promessas, outra aplicação fora da caixa se dá na pele. Isso mesmo. A Lilly tem financiado ensaios clínicos para analisar o impacto da tirzepatida em indivíduos com psoríase, uma doença por trás de placas e lesões avermelhadas no tecido cutâneo. No caso, ela se somaria ao tratamento tradicional, sobretudo entre pessoas com sobrepeso, para abrandar o desequilíbrio imunológico que repercute na pele e, em alguns casos, até nas articulações. De novo, o segredo parece estar no poder anti-inflamatório dessa classe de drogas. Essa, na verdade, é uma das principais hipóteses a guiar a miríade de indicações, que vão da pele ao coração, passando pelo fígado e os rins. Mais do que um petardo contra a obesidade, a ciência está assinando embaixo do papel das canetas (e comprimidos) que emulam GLP-1 e outros hormônios em uma complexa rede de interações fisiológicas reunidas sob o pomposo nome de cardiometabolismo. “Temos estudos demonstrando resultados positivos em pacientes com diabetes e doença cardiovascular estabelecida, assim como em pessoas acima do peso com insuficiência cardíaca”, diz Luiz André Magno, diretor médico da Lilly no Brasil. “E, olhando para o futuro, uma das áreas mais promissoras de pesquisa envolve a saúde renal e hepática.”
Partindo dessa premissa de que tudo está conectado e a desregulação metabólica e a inflamação semeiam estragos pelo corpo, uma das ideias mais ousadas envolvendo essa nova geração de medicamentos é tentar atingir a doença de Alzheimer. E, aí, o estado atual das evidências científicas talvez venha à tona para nos alertar de que não, não existem realmente panaceias. Embora análises observacionais tenham levantado a perspectiva de que os análogos de GLP-1 pudessem cortar as asas do declínio cognitivo, um estudo montado com essa finalidade, protagonizado pela semaglutida, frustrou as expectativas e não demonstrou impactos dignos de nota. Não significa que a confiança na classe ruiu. Outras investigações, inclusive com moléculas diferentes (algumas nem lançadas ainda), seguem em frente para checar se interferir nessa via do organismo poderia proteger o cérebro. Há plausibilidade biológica: obesidade, diabetes e outras doenças crônicas são consideradas hoje fatores de risco para demências, e cada vez mais se defende o argumento de que a inflamação estaria na raiz do problema cerebral anos ou até décadas antes de os sintomas aparecerem.
Rompendo fronteiras, mais recentemente os pesquisadores começaram a olhar para o possível efeito dos remédios baseados em GLP-1 contra um dos maiores inimigos da saúde pública, o câncer. A história ganhou força após um estudo apresentado na maior conferência de oncologia do planeta revelar que esses fármacos estavam associados a uma redução expressiva na disseminação de tumores — esse risco caiu pela metade entre pessoas com câncer de pulmão que haviam utilizado as canetas. Como os dados são retrospectivos, é preciso uma camada extra de cautela antes de confirmar o benefício. Outro trabalho, focado em tumores de mama, apontou menores taxas de mortalidade e maior tempo de vida livre da doença entre usuárias das medicações com obesidade ou diabetes. Numa área em ebulição, mais um estudo, amparado em prontuários de 43 000 pacientes que empregaram ou não as canetas, encontrou uma incidência de câncer 17% menor entre os adeptos do GLP-1. Porém, contrariando a tendência geral, o risco de câncer colorretal foi 38% maior. Em poucas palavras, os dados ainda são nebulosos. “Sabemos que o excesso de peso aumenta a propensão a pelo menos treze tipos de tumor, mas precisamos ter rigor ao examinar as informações atuais pois faltam muitas peças no quebra-cabeça”, diz Couri. A ciência, ainda bem, desconfia de mágicas. Mas, picada após picada, também continua renovando nossas esperanças.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006



