Quando a testosterona leva à UTI e pode ser letal: as descobertas de um estudo com quase 360 mil homens

Mesmo com suposto acompanhamento médico, uso fora das indicações embasadas pela ciência aumenta o risco de morte

BATANEWS/VEJA


Testosterona: reposição indicada apenas para casos de deficiência comprovada, o que não ocorre na prática (Javier Zayas Photography/MOMENT/Getty Images)

Um novo estudo publicado na revista médica eBioMedicine, do prestigiado grupo The Lancet, coloca sob lupa uma atitude cada vez mais comum: usar testosterona sem indicação médica clara, baseada em exames e sintomas duvidosos.

O achado chega em boa hora para o Brasil, país com um dos maiores contingentes de usuários do hormônio, muitos deles adultos jovens que recorrem à substância por conta própria ou com suposto acompanhamento em busca de disposição, libido ou massa muscular.

Liderada pelo cardiologista Hatim Kerniss, do Centro Cardíaco Universitário de Frankfurt, na Alemanha, e por Ralf J. Ludwig, da Universidade de Lübeck, a pesquisa contou com colaboradores da Universidade de Liverpool e do Instituto Karolinska, na Suécia.

Quase 360 mil homens entre 30 e 75 anos que iniciaram terapia com testosterona foram analisados em prontuários eletrônicos de 123 instituições de saúde, via rede TriNetX — uma rede global e federada de pesquisa em saúde que conecta organizações médicas e pesquisadores por meio de dados de prontuário médico do mundo real.

Diferentemente de estudos anteriores, que comparavam usuários de testosterona com quem não usa o hormônio, esta pesquisa comparou homens que começaram o tratamento com evidência de hipogonadismo com diagnóstico documentado e homens que iniciaram a terapia sem nenhuma dessas evidências de hipogonadismo.

Explico: hipogonadismo é o nome médico para determinar um quadro de sinais, sintomas e exames compatíveis com baixos níveis de testosterona no sangue. Cenário comparável a um início de tratamento sem embasamento clínico consistente.

Pasmem: cerca de 35% de todos os participantes da pesquisa não tinham diagnóstico firmado de hipogonadismo, ou seja, 1 em cada 3 homens.

Após equilibrar estatisticamente os grupos por idade, raça e doenças prévias, os pesquisadores acompanharam 113. 554 pares de homens por até dez anos.

Os números do alerta

Homens que iniciaram testosterona sem evidência de hipogonadismo tiveram 51% mais chance de sofrer um evento cardiovascular grave — infarto, derrame, parada cardíaca ou morte por qualquer causa — do que os com diagnóstico confirmado. Em números absolutos, 16,5% desses homens tiveram algum desses eventos em dez anos, contra 11,8% no grupo com indicação correta.

O risco de morte por qualquer causa quase dobrou (alta de 90%) no grupo sem indicação de testosterona. Houve também aumento de 23% no risco de derrame, 41% no risco de parada cardíaca e 32% no risco de insuficiência cardíaca. Já o infarto teve alta discreta, de cerca de 10%.

O estudo, vale pontuar, não condena a testosterona como tratamento. O ensaio clínico randomizado TRAVERSE, publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, já havia mostrado que a reposição hormonal com um gel industrializado, o Androgel 1,62%, é segura para o coração quando usada em homens com hipogonadismo comprovado e sob acompanhamento médico rigoroso.

O risco parece emergir no contexto de uso sem diagnóstico consistente, possivelmente envolvendo doses mais altas, uso intermitente, automedicação ou finalidades estéticas — padrões diferentes da reposição supervisionada.

Os pesquisadores notaram variações entre grupos raciais, com maiores riscos relativos entre homens asiáticos, seguidos por brancos, latinos e negros, embora alertem que a amostra asiática era menor e merece confirmação futura.

A publicação do estudo ocorre poucas semanas depois de a Endocrine Society, maior sociedade de endocrinologia do mundo, divulgar um posicionamento que reforça os critérios para diagnosticar hipogonadismo — motivado por uma revisão da agência americana FDA sobre os critérios de elegibilidade para reposição de testosterona.

Segundo a sociedade, o diagnóstico exige sintomas compatíveis com deficiência de testosterona somados a, no mínimo, duas dosagens de testosterona total pela manhã, em jejum, confirmando níveis consistentemente baixos — com o corte clínico mais usado na casa de 300 ng/dL, o mesmo patamar adotado pelo estudo alemão para classificar homens sem evidência de hipogonadismo.

Repito: o ponto de corte é 300 ng/dL. Digo isso porque muitos erroneamente divulgam números incorretos aos quatro cantos. Muitos homens supostamente com hipogonadismo na verdade estão com os hormônios normais!

Conclusão na prática

Para quem usa ou pensa em usar testosterona no Brasil, onde a cultura do ganho de massa muscular a qualquer custo e a busca por performance alimentam um mercado expressivo do hormônio fora ou dentro do consultório médico, o recado central é o seguinte: testosterona não é suplemento, é hormônio, e deve ser usada apenas com diagnóstico laboratorial adequado, acompanhamento médico contínuo e reavaliação periódica dos riscos cardiovasculares.

Reforço o alerta contra a prática de procurar profissionais que prescrevem o hormônio sem investigação clínica criteriosa, apenas atendendo à demanda estética. O uso irracional é o que alimenta o estigma que prejudica quem realmente precisa do tratamento — homens com hipogonadismo real, que se beneficiam legitimamente da reposição sob supervisão médica.

Usada com responsabilidade, a testosterona pode preservar qualidade de vida; usada sem critério, pode custar caro ao coração — e, em casos extremos, à própria vida.