Cotidiano
Jô abre o jogo sobre prisão e alcoolismo: 'Não tinha controle'
Do carro importado que comprou aos 16 anos à Copa do Mundo, ex-atacante passa carreira a limpo em meio a polêmicas com ex-mulheres e oito filhos: "Não ganho mais R$ 300 mil"
BATANEWS/GE
João Alves de Assis Silva tenta assimilar a mudança de vida depois de encerrar uma vitoriosa carreira de pouco mais de 20 anos como jogador de futebol. Com passagens por Corinthians, Atlético-MG, Internacional, Manchester City e seleção brasileira, o ex-atacante Jô admite que precisa reaprender a viver aos 39 anos.
O recomeço passa por administrar o que restou do patrimônio e buscar novas fontes de receita agora sem os vencimentos milionários. O padrão de vida mudou, e as incertezas sobre o futuro agora estão presentes no dia a dia.
Clique e vá direto ao assunto: + Jô dirigia carro importado aos 16 anos + As brigas no vestiário do Corinthians em 2005 + Ex-atacante revela bebedeira antes de viagem com Inter + Como é uma festa de Ronaldinho Gaúcho? + A dura que levou de Kalil no Atlético-MG + Jô está quebrado? A vida dele pós-carreira + A visão do banco de reservas no 7 a 1
– Não é quebrar, mas você diminui seu padrão de vida, não tem como. Um exemplo, eu ganhava R$ 300 mil, hoje sou um jogador aposentado, não ganho mais R$ 300 mil. Tenho meus investimentos, as minhas coisas. Eu sei da minha condição de vida, sei da minha capacidade, agora é administrar o pós-carreira, para ver qual o caminho que vou seguir e começar a ajustar as coisas – explicou.
Segundo Jô, a mudança no padrão financeiro depois de deixar os gramados é a justificativa para ter sido preso cinco vezes — a última delas em junho deste ano — por não pagar pensão alimentícia. Ele tem oito filhos, frutos de cinco relacionamentos.
– Fui um atleta bem-sucedido na minha carreira. Quando ela acaba, financeiramente você muda de patamar, não tem como manter o nível. Ouvi uma entrevista do Ronaldo Fenômeno dizendo que apenas 1% dos jogadores de futebol no mundo consegue manter um padrão financeiro alto após a carreira. Teve essa queda. Aí entra a questão do entendimento das outras pessoas, que são as mães. Elas dizem: "ah, mas você jogou no City, no CSKA...". Tudo bem, joguei, só que agora não jogo mais. Tenho outro padrão de vida, tenho que diminuir, estou com 39 anos.
– A rede social nada mais é do que um tribunal, com um monte de juízes te julgando o tempo inteiro sem te conhecer, sem saber a situação ou a história real. Estou contando aqui uma parte para que as pessoas comecem a entender, mas elas não sabem realmente qual é a realidade. Não é uma situação confortável, mas, graças a Deus, consigo lidar com isso melhor do que imaginava. Hoje vou administrando para que esse tipo de problema não aconteça mais.
Jô iniciou a vida profissional cedo, estreando no time principal do Corinthians aos 16 anos. Pouco tempo depois, com o dinheiro da primeira renovação de contrato, comprou um carro importado antes mesmo de adquirir a casa própria. Sem habilitação, desfilava com o veículo para mostrar que o jovem criado em Sapopemba, bairro da Zona Leste de São Paulo, havia vencido na vida.
E aquele jovem realmente venceu. Jô foi bicampeão brasileiro pelo Corinthians, da Copa do Brasil e da Libertadores pelo Atlético-MG e da Copa das Confederações com a Seleção Brasileira. Uma carreira vitoriosa que, no entanto, contrastou com os problemas fora de campo causados pelo álcool.
– Acho a palavra "alcoólatra" muito forte, o caso era mais de que não tinha controle. Não era todos os dias (que bebia), mas, quando acontecia, eu não tinha freio: "não, espera aí, já deu, vamos parar aqui". Talvez os profissionais de saúde digam: "mas isso aí é alcoolismo". No meu entendimento como ser humano, acho que não era. Hoje, graças a Deus, tenho esse controle, mas foi bem complicado.
O momento mais crítico da carreira em relação ao álcool, segundo Jô, ocorreu em sua passagem pelo Internacional, entre 2011 e 2012, quando entrou em campo 36 vezes e marcou apenas seis gols. Na época, ele chegou a perder uma viagem por ficar bebendo até três horas antes do horário marcado para a apresentação do elenco.
– Simplesmente por não jogar, eu descontava fora de campo, e isso me atrapalhava lá dentro. Costumo dizer que houve um desequilíbrio. Quem me conhece sabe que sou um cara tranquilo, muito boa-praça, mas, naquele momento, comecei a brigar com treinador, presidente, diretor... Até o Fernandão, que Deus o tenha, que era um cara que me abraçou quando cheguei. No decorrer das coisas comecei a culpá-lo também. Enfim, foi um período difícil – revelou.
Ficha Técnica
Nome: João Alves de Assis Silva Apelido: Jô Idade: 39 anos (20/03/1987)Carreira: 800 jogos | 245 gols | 19 títulos Clubes: Corinthians, CSKA (Rússia), Manchester City, Everton, Galatasaray, Internacional, Atlético-MG, Shabab, Jiangsu Suning, Nagoya Grampus, Ceará, Al-Jabalain, Amazonas e Itabirito. Títulos: Copa das Confederações (2013); Recopa Sul-Americana (2011 e 2014); Libertadores (2013); Campeonato Brasileiro (2005 e 2017); Copa do Brasil (2014); Campeonato Mineiro (2013 e 2015); Campeonato Paulista (2003 e 2017); Campeonato Gaúcho (2011 e 2012); Copa da Inglaterra (2010/11); Liga da Rússia (2006); Supertaça da Rússia (2006, 2007) e Taça da Rússia (2005/06 e 2007/08).
No auge dos momentos de badalação, Jô foi o principal parceiro de Ronaldinho Gaúcho dentro e fora das quatro linhas, e se considera uma das vítimas da fama de "festeiro" que o astro brasileiro adquiriu ao longo da carreira.
– As pessoas fantasiam muito. O Ronaldinho é um cara super tranquilo. O negócio dele é ficar sentado, tocando o pagode dele com os amigos. É só isso. Tem gente que imaginava as festas dele como as piores festas do mundo, com bagunça total. Eu dizia: "gente, não é isso". Ele fica no canto dele, toma a bebida dele, a gente faz um pagode, conversa com os amigos, dá risada. Essa é a festa que ele faz. O resto é folclore. Já aconteceu de ficarmos dois ou três dias lá, mas ele não obriga ninguém a ficar. A gente ficava porque queria, porque o ambiente era bom.
Mas antes de se consolidar como um dos principais atacantes de sua geração, Jô vivenciou um dos vestiários mais explosivos do futebol brasileiro no início dos anos 2000. O Corinthians de Carlitos Tevez, Mascherano, Roger Flores, Carlos Alberto, Fábio Costa, Nilmar e companhia brilhou dentro de campo, mas fora dele era uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer momento.
– Hoje em dia dizem que o vestiário tem que ser unido, que para ganhar todo mundo precisa ser amigo. Eu joguei em um time em 2005 no qual ninguém era amigo, a não ser a garotada da base. Era briga todo dia. Teve briga do Tevez com o Marquinhos, do Carlos Alberto com o Roger, do Carlos Alberto com o Fábio Costa.
– Essa do Fábio Costa, que eu presenciei, achei que faria tudo desandar de vez. Eram discussões inflamadas, mas no sentido de querer melhorar, de fazer o jogo acontecer. Só que o Carlos Alberto era esquentado, e o Fábio Costa, mais ainda. Foi uma confusão geral: um pegou cabo de vassoura, o outro pegou o rodo... Eu pensei: "meu Deus, isso aqui vai virar um caos". Dentro de campo o rendimento era algo surreal, mas fora era bem complicado. O nosso vestiário era muito conturbado – conta Jô.
Em entrevista de pouco mais de uma hora na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Jô abriu o coração sobre a vida pessoal, os desafios ao longo da trajetória e a busca por uma nova profissão dentro do futebol após a aposentadoria como jogador.
Abre Aspas: Jô
ge: Aposentado mesmo: ficou alguma dúvida aos 39 anos? Jô: – Não, agora eu já não tenho mais dúvida. Faz um ano e pouquinho, quase dois, que o Itabirito-MG foi o meu último clube. Quando a gente começa a pensar em parar, começa a vir muita coisa na cabeça: fazer uma despedida, terminar no meu clube de coração. Só que o futebol é muito dinâmico, então acabou que não me programei para essa situação, para fazer uma despedida ou algo bacana. Foi só o post falando da minha despedida do futebol, mas tive algumas propostas para fazer um jogo.
Qual foi o estalo para você parar de jogar? – Fisicamente, você vê que hoje o futebol está muito corrido, exige um físico muito alto, um nível muito alto de entrega. Vi que, como atacante, não conseguia mais entregar aquilo que hoje se pede dos atacantes. Aquela mobilidade, velocidade, marcação alta o tempo inteiro. Tanto que, no último clube em que joguei, que foi o Itabirito, não estava conseguindo entregar. Então pensei: "não vou ficar passando vergonha, já não consigo entregar aquilo que sempre entreguei dentro do futebol. Antes que decidam por mim, é melhor parar".
É uma decisão difícil? – Não é fácil, porque a gente está acostumado com a rotina. Eu comecei no futsal com sete anos, praticamente minha vida inteira dentro do futebol, rotina diária de treinamento, de viagem, a resenha que todo mundo fala que é difícil largar. Então, tomar essa decisão não é fácil. Não decidi isso sozinho também. A gente tem que ir conversando com algumas pessoas, com familiares, para realmente colocar na cabeça que é o seu momento de parar.
Tem alguma coisa de que você não sinta saudade na rotina de atleta? – Eu sinto saudade de tudo, não tem como. Até das viagens. Dentro da viagem acontece tanta coisa. No hotel, no trajeto. Às vezes, o trajeto mais simples, de você sair do hotel até o estádio, é bacana, é legal demais. Sinto saudade de tudo, mas é claro que, com o tempo, você vai se acostumando ou desacostumando com aquela rotina. Você se acostuma com uma nova rotina, uma nova vida. Mas, no começo, logo no começo, é difícil. Tanto a decisão quanto deixar de fazer aquilo que sempre fez, pelo menos eu fiz a minha vida inteira.
O seu pós-carreira é dentro do futebol? – Eu tenho que estar dentro do futebol. A gente que passa muitos anos dentro do futebol... Não que outras coisas não possam surgir, mas ainda me imagino e penso muito dentro do futebol, minha vida inteira.
Fazendo um balanço desses mais de 20 anos de carreira, como você definiria o Jô? – No meu modo de ver, fui muito realizado. Como atleta profissional, disputei Olimpíadas, joguei Copa do Mundo, na Europa, na Ásia, aqui no Brasil, fui campeão de torneios importantíssimos na América, fui artilheiro. Eu me coloco como alguém de carreira bem-sucedida. É claro que, dentro desse período, acho que todo atleta passa por altos e baixos, por problemas. Em alguns aspectos, me arrependo de algumas coisas que aconteceram dentro dessa trajetória. Mas, como profissional, pela entrega como jogador, acho que consegui entregar aquilo que mais ou menos tinha planejado.
Foi mais do que aquele garoto que estreou no profissional do Corinthians aos 16 anos poderia imaginar? – Como meu pai foi atleta profissional, ele sempre me conduziu falando mais ou menos assim: "a nossa ideia é você fazer uma boa carreira aqui no Brasil, jogar na Europa, chegar à Seleção Brasileira". A gente talvez não imaginasse que aconteceria tão rápido. Com 16 anos, caraca, estreei no profissional de um time de massa e ter aquela responsabilidade de jogar como titular, ser campeão brasileiro, ir cedo para a Europa... Essas coisas vieram mais cedo do que a gente imaginava, mas, com muito trabalho, muito esforço, a gente conseguiu superar tudo isso e ter essa carreira brilhante.
Como foi para o Jô, com 16 anos, subir ao profissional do Corinthians e ser titular? – Foi muito complicado, porque era o primeiro ano de juvenil. Eu lembro que ia para casa e soltava pipa. Duas semanas depois, eu estava jogando no profissional. Para assimilar isso foi bem complicado, mas tive o auxílio da minha família. Meu pai e minha mãe, na época, falaram assim: "cara, agora é o que você estava trabalhando até aqui, agora é a sua chance". Entrei numa transição em que muitos jovens estavam subindo. Na época, Rosinei, Abuda, Bobô, Betão, Coelho, uma série de jogadores para começar uma reconstrução de uma equipe vitoriosa. A pressão é muito grande. Só de vestir a camisa do Corinthians já é pressão, imagina com 16 anos, com um tanto de garotada. Mas acho que a gente se saiu bem. Praticamente a maioria, cada um foi para o seu canto seguir a própria carreira, e a gente conseguiu superar essa parte de transição.
E a escola, você chegou a terminar? – Cheguei a terminar. Quando subi para o profissional, ainda estava terminando, então as viagens, as concentrações, atrapalhavam um pouco. Tive que fazer um supletivo para poder terminar. Isso era de extrema importância. Na época, estudava em uma escola particular e eu via que era importante, e é importante o estudo até hoje, obviamente. Até pelo sonho de jogar na Europa e aquelas outras coisas, você tem que manter essa cultura. Então eu consegui terminar, ainda com sacrifício, mas consegui.
Lembra o que fez com o primeiro dinheiro bom que recebeu? Muitos falam que compraram um carro importado antes de uma casa. O que você fez? – Eu fiz exatamente isso. Quando subi para o profissional, recebi um salário bem pequeno. No meu segundo ano de profissional, fiz uma renovação de contrato, lembro que era um valor até simbólico. Meu tio, na época, tinha uma concessionária de carro. Peguei esse valor e fui à concessionária sem avisar meu pai, sem avisar ninguém, sentei e conversei. Falei que queria pegar esse carro aqui. Na época era um Audi. Nem era coisa de adulto, era de um adolescente ainda, que sempre sonhou com coisas grandes. Peguei e comprei. Cheguei ao clube de carro. Na época, eles nem abriam a cancela.
– O Andrés (Sanchez, ex-presidente do Corinthians) me mandou devolver o carro, mas foi meu sonho de adolescente. Meu sonho era sempre ter um carro importado. Eu sempre via os jogadores tendo um carro assim. Foi meu primeiro dinheirinho nesse tempo de profissional. Depois fui para a Europa, aí comprei a casa para os meus pais, para as minhas irmãs, as coisas fluíram.
Você não tinha habilitação? – Não tinha. Quando eu ia jogar à noite, o Corinthians sempre fazia uma autorização, meu pai assinava me autorizando a jogar. Eu andava sem habilitação, errado, erradíssimo, mas era a minha vontade de andar de carro.
Como foi jogar em 2005 naquele Corinthians, que era um furacão, com Tevez, Roger, Carlos Alberto e tantas estrelas? – Realmente, você falou uma palavra fundamental: furacão. Foi praticamente uma das primeiras empresas a dirigir um clube, a MSI, do Kia (Joorabchian). Dentro de um clube do tamanho do Corinthians, toda vírgula se torna um furacão. Para algumas pessoas do clube, ceder espaço a um cara que veio de fora, tendo que movimentar as peças, tendo que fazer as coisas, foi muito difícil. A maioria era garotada. Depois que ele veio, trouxe Roger, Carlos Alberto, Carlitos, Mascherano, montou um time muito forte. Mas essa transição foi bem conturbada, foi bem difícil para conselheiros da antiga, porque ele, em partes, comandavam o clube. Um cara sensacional, o Kia, tenho amizade com ele até hoje, mas foi bem complicado.
– Depois que chegaram os famosos, os "cobrões", a gente conseguiu conduzir as coisas, e elas fluíram. Até na época o Tite também teve uma pequena confusão, porque ele (Kia) queria trazer um treinador de fora, e o Tite tinha feito um bom trabalho em 2004 com a garotada, então aí vêm os caras de fora. O começo foi bem conturbado, mas depois as coisas fluíram bem, tanto é que no fim de 2005 a gente foi campeão brasileiro.
Aquele vestiário tinha muita briga mesmo? – Hoje em dia falam que o vestiário tem que ser unido, para ganhar tem que ser todo mundo amigo. E eu falo que joguei em um clube em que ninguém era. Com exceção da gente, a garotada, era briga todo dia. Teve briga do Carlitos com o Marquinhos, teve Carlos Alberto com Roger, teve Carlos Alberto com Fábio Costa. Essa do Fábio Costa eu presenciei, achei que as coisas iam desandar mesmo.
– A discussão era no sentido de querer melhorar, de querer fazer o jogo acontecer. E o Carlos Alberto era esquentado, o Fábio Costa era mais ainda, então foi uma confusão. Um pegou um cabo de vassoura, o outro pegou o rodo. Eu falei: "meu Deus do céu, isso aqui vai virar um caos". Mas, quando entrava em campo, todo mundo corria um pelo outro. Você vê o Carlitos correndo igual a um maluco, e fala: "não posso correr menos do que ele". Então, dentro de campo, isso era algo surreal. Mas fora era bem complicado, era bem conturbado o nosso vestiário.
E aquela briga do Marquinhos com o Tevez? – Nesse episódio, não tinha quem estava certo ou errado. Os dois estavam errados, porque dois atletas profissionais não brigam. Ali a questão era de treinamento. O Carlitos era um cara muito tranquilo, quase não falava, ficava na dele. Tanto é que depois eu joguei com ele no City também, ele é a mesma coisa. Mas ali ele perdeu a cabeça e acabou brigando com o Marquinhos. Mas, com todo dia tendo uma confusão, a gente estava meio que se acostumando. "Hoje vai ser a confusão de quem?'. Então meio que ninguém escolheu o lado de ninguém. Os dois estavam errados, depois se desculparam, se falaram, e aí seguimos.
O Internacional quer dividir o título brasileiro de 2005 com o Corinthians. Acha justo? – Eu não sei se isso influenciou (Máfia do Apito), talvez sim, mas foi mérito nosso também. É que realmente foi um escândalo muito grande no Brasil, mas acho que essa divisão não seria justa. Até porque vai ter que tirar a casa da minha mãe e dividir também (risos). Com aquele dinheirinho, comprei um apartamento para minha mãe. Mas acho que não seria justo, porque a gente também fez um baita campeonato. Falam também do pênalti (em Corinthians x Inter), que realmente foi, não tem dúvida, mas a gente fez um baita campeonato. Isso faz parte do futebol.
Como foi jogar na Rússia? – Eu devo a minha passagem pelo CSKA, acho que 70%, ao Vagner Love, meu amigo particular. Fiquei na casa dele por dois meses e meio para ele me ensinar o caminho do restaurante. Não só ele, claro, tinha o Dudu Cearense, Daniel Carvalho. Mas ele foi um cara que me facilitou. Joguei o primeiro jogo com menos 20 graus, coloquei tanto acessório, toquinha, luva, calça, camiseta térmica. Ele me abraçou, e minha passagem foi sensacional. Dali eu comecei a minha caminhada para ser bem-sucedido no futebol e na Europa.
Depois veio o Manchester City... – Deu um baque, um susto, de falar assim: "caraca, agora eu estou no futebol de verdade". Com 21 anos, era muito novo ainda, e para sair do CSKA já foi muito difícil. Foram uns sete meses de negociação com o presidente, que não abria mão. Ele falava: "não quero, não vou abrir mão, é meu jogador". E a gente tinha jogado duas Champions League, tinha ido bem no CSKA. Mas aí era a Premier League, um Manchester City que estava começando a se reformular. Foram sete meses em que meu empresário ia à Rússia, voltava, insistia, voltava, voltava, mas acabei chegando ao City. Estrutura, país, futebol... Ali eu falei: "agora realmente sou um jogador profissional e estou realizando os meus sonhos".
Como você vê quando os jornais ingleses apontam que sua contratação foi uma das piores da história do Manchester City? – No City, levaram eu, Zabaleta, Kompany, Robinho, Wright-Phillips. A ideia deles era também que desse certo, porque o investimento foi muito alto na Inglaterra. Não se começava a investir daquela maneira, e aí não deu certo, e eu fiquei só seis meses e fui emprestado para o Everton. Teoricamente, você traz o cara, paga não sei quantos milhões, uma das maiores contratações, e as coisas não andam. Vejo que é natural, faz parte.
– Não é bom você estar entre as piores contratações, mas é uma coisa em que a tentativa foi dar certo e acabou que, naquele momento, não deu. Quando eu volto em 2010, 2011, sou campeão da FA Cup, aí eu poderia falar: "então, deu certo". Fui campeão jogando, o Roberto Mancini me aproveitou bastante, tanto é que ele pede para eu voltar do empréstimo, porque queria me utilizar. Isso faz parte do futebol. Deu certo, não deu certo, isso acontece.
Como você resumiria o Tevez? – Um cara sensacional. Ele é um argentino atípico, porque joguei com um monte de argentinos, e ele é bem atípico mesmo, bem tranquilinho, fala pouco, mas, se tiver que defender a equipe, sempre defendia. Em questão de premiação, essas coisas, ele tomava a frente, mas era muito reservado. Um cara sensacional, um ser humano incrível.
E aí você volta para o Inter... – Quando falei da questão da carreira do atleta profissional ter altos e baixos, ali foi um momento difícil. Porque vim da Europa, City de uma passagem até mais ou menos pelo City, mas já com seis, sete anos de Europa. Venho para o Inter para o lugar do Damião. Só que ele acaba não sendo vendido. E ainda dou um azar, que foi o melhor ano da carreira dele. Ele fazia gol de tudo quanto é jeito, de bicicleta, dava lambreta. Chego para me readaptar ao futebol brasileiro, mas, com uma passagem na Europa, fica tudo mais difícil. Não consigo me readaptar com a velocidade que achava, tive problemas de extracampo, então foi uma passagem bem complicada.
– O que eu tiro dali de lição é que, independentemente da dificuldade, você tem que manter a sua postura. Em algum momento, por ter vindo e ficado no banco, acabei ficando irritado e fazia coisas de extracampo que começaram a se complicar. Por isso considero uma passagem bem difícil da minha carreira.
O que você perdeu de controle? – Tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento no futebol era ter sempre equilíbrio, e, naquele momento, eu perdi. Questão do equilíbrio emocional. Tudo o que meu pai e minha mãe me ensinaram como princípios de ser humano, simplesmente por não jogar eu descontava fora de campo, e isso me atrapalhava dentro de campo. Costumo falar que houve um desequilíbrio. Quem me conhece sabe que sou um cara sempre muito equilibrado, muito tranquilo, muito boa-praça, e, naquele momento, comecei a brigar com o treinador, com o presidente, com o diretor. O Fernandão era um cara que, quando cheguei, me abraçou, só que depois, no decorrer das coisas, eu comecei a culpá-lo também. Enfim, foi um momento difícil.
Pode falar mais especificamente sobre o problema no Inter? Foi bebida? Você perdeu o controle da sua própria vida? – Você começa a sair um pouco daquilo que não era de costume. Sempre fui um cara que chegou para treinar. Ali começo a me desequilibrar nesse sentido. A gente tem como testemunho da nossa vida passar para os mais novos que o equilíbrio e o profissionalismo têm que ser impecáveis. Se você quer ser um atleta de alto nível, tem que ser impecável. Ah, pô, eu não posso falar aqui que nem todo mundo gosta de beber, mas tudo vai ter o seu momento.
– Estava fora dos meus momentos. Em momentos em que não podia, eu estava fazendo isso. Isso me atrapalhou demais. E hoje em dia, claro, vejo muitos atletas de alto nível, muito grandes, cuja disciplina é muito maior, e é assim que tem que ser. Talvez antigamente a gente não tivesse tanta rede social, não tivesse tantas informações. Nesse aspecto, às vezes atrapalhava um pouquinho por não ter. Hoje em dia, se você ficar sentado na esquina, vai ser filmado. Se você está tomando uma latinha de refrigerante, vai ser o suspeito. Mas foi aprendizado. Tudo na vida é aprendizado, tanto para o certo quanto para as coisas erradas. Você tem que trazer isso como aprendizado para a sua vida.
Você bebia todo dia? – Não era nem que eu bebia todo dia. A questão era mais, por exemplo, dia que antecedia viagem. Igual essa questão de eu não ter viajado contra o The Strongest. A gente tinha que se apresentar no outro dia às 7h da manhã, porque era uma viagem Porto Alegre-São Paulo-Bolívia. Às 4h eu estava bebendo ainda. Como é que deita e dorme? Não acorda, não tem como. Essa irresponsabilidade, às vezes, era minha. Se acaba um jogo, você fez a sua missão, ganhou, está na sua casa com os amigos, a família, com quem quer que esteja, acho que é válido o seu momento. Pronto, no outro dia é folga, não vejo problema. Como qualquer trabalhador trabalha de segunda a sexta, aí sábado é sua folga, você vai tirar o seu lazer.
– Isso é natural no ser humano, mas nós, atletas, às vezes não entendíamos que trabalhávamos com o corpo. O corpo tem que ser cuidado. Um trabalhador normal, por exemplo, que mexe no computador a semana inteira, trabalha mais com a mente. A gente, não. É o corpo, todo dia é o corpo. Acho que isso me atrapalhou, naquela época me atrapalhou bastante. Não era nem todo dia, mas era em momentos inadequados. Foi uma passagem terrível no Inter.
Você vai para o Atlético-MG e ganha quase tudo. Os excessos continuaram? – Não, foi bem menos. Primeiro que o Kalil (Alexandre, ex-presidente do Atlético-MG), na minha chegada, já falou: "você veio de um clube em que sua história não foi boa. Aqui, se você aprontar uma comigo, está fora, não vai ter conversa, faço da sua carreira um inferno". Eu também não escondo que sempre gostei, mas comecei no Atlético-MG vendo que era minha chance de me reerguer. O Ronaldo Gaúcho era um cara que, acabavam os jogos, pô, "se quiser ir, vamos lá", "tu quer tomar uma lá?". Pô, a gente ia, isso aí era tranquilo. Às vezes, acabavam os jogos no hotel, isso aí sempre teve. Só que também, quando você dá resultado, isso acaba sendo maquiado. No Atlético-MG, já começo a retomar a minha carreira nesse sentido de foco novamente.
Como é uma festa do Ronaldinho Gaúcho? – Então, essa é a imagem, ou a coisa de algumas pessoas. "Ah, caraca, uma festa do Ronaldinho é..." Não é, cara. Ronaldinho é um cara muito tranquilo. O negócio dele é ficar sentado, fazer o pagode dele e estar com os amigos dele. Cara, é só isso. Tem gente que já fantasiou a festa como uma das piores festas do mundo, em questão de bagunça total. Eu falava: "cara, não é isso". Ele fica no cantinho dele, toma o negócio dele, a gente faz o pagode, conversa com os amigos, dá risada. Essa é a festa que ele faz. É que tem gente que fantasia muita coisa. Isso aí é folclore. Já teve vezes em que ficamos dois, três dias lá (na casa de Ronaldinho), mas ele não obriga ninguém a ficar. Fica porque quer, porque está bom.
Ronaldinho foi o melhor parceiro que você teve no futebol? – Ele e o Vagner (Love). São os dois que eu tiro como exemplo para a minha vida. A gente concentrava no mesmo quarto, viajava sempre na mesma poltrona. Uma parceria muito grande dentro e fora de campo, então era mais fácil. Jogar com um cara que pensava lá na frente, ele só mandava você se movimentar. Que cara fala assim: "só se movimenta, não precisa fazer mais nada no jogo, que a bola vai chegar"? Foi um dos melhores jogadores com quem joguei, sem dúvida.
Vocês esperavam ter tanto sucesso no Atlético-MG? – Em 2012, o Atlético-MG estava remontando o time de novo, saindo de 2011, de uma goleada no fim do ano para o Cruzeiro, que era a chance de rebaixar o Cruzeiro, e estava aquela confusão em Belo Horizonte. E começa a montar o time: chego eu, o Ronaldo, o Luan, o Júnior César, o Vítor no gol. A gente começou a ver que as coisas poderiam acontecer. O Ronaldo ainda querendo muito, jogando muita bola. Eu estava voltando a jogar um futebol brilhante. Em 2012, a gente estava muito bem no Brasileiro, mas não ganhou. Mas a gente entra em 2013 com uma confiança absurda. Depois chegaram Tardelli, Gilberto Silva, Josué, o time foi ficando melhor. O Cuca também passava muita confiança para a gente. Foi um dos melhores times em que joguei.
Aquele lance do Ronaldinho que acabou em gol a partir de uma cobrança de lateral contra o São Paulo, com ele praticamente na linha do escanteio, foi uma jogada ensaiada? – Não. Uma coisa que a gente já sabia é que o Marcos Rocha sempre teve força para cobrar lateral longo. Mas aquilo é coisa de gênio. O cara para o jogo, ele começa a mapear. Se você olhar bem de novo o vídeo, ele para o jogo, dá uma mapeada, sai, tem a ideia de ir pegar água, ficar esperando um pouquinho, porque viu que, de onde o Marcos Rocha estava, conseguiria jogar a bola dentro da área. A cabeça do cara, quando é gênio, fica girando. E aí ele teve aquela ideia, tanto é que a bola chega, eu giro e já corro para fazer o gol. Você tinha que ter pelo menos 20% do timing dele, senão não conseguia raciocinar. É um cara que raciocinava muito na frente.
Tem como escolher em qual time você foi mais feliz: Corinthians ou Atlético-MG? – Não tem como, é difícil. Se for colocar por passagens, no Galo foi a mais vitoriosa no sentido dos títulos importantes. Ganhei a Copa do Brasil, a Recopa, a Libertadores, dois Mineiros. No Corinthians tive três passagens, divididas, obviamente, mas no Atlético-MG, tanto pela torcida quanto pelo clube, pela necessidade que tinha de título, ficou mais marcante. O Corinthians já vinha de outros títulos, outros times maravilhosos, mas no Galo ficou mais marcante por causa disso tudo. Envolvia o extracampo, a torcida, o tempo sem ganhar um título importante, a chegada do Ronaldinho Gaúcho para dar aquela abrilhantada. Ficou marcante nesse aspecto.
O seu retorno ao Corinthians, em 2017, convertido e havia dois anos sem beber, foi um recomeço? – Já tinha sido uma caminhada boa, estava há quase dois anos sem beber, realmente sem beber nada, zero. Tinha me convertido, então eu estava em um caminho realmente focado fora de campo. Começo o ano ainda totalmente desacreditado. "Ah, pô, é uma equipe apontada como a quarta força, tem o São Paulo, tem não sei quem". Quando cheguei, estava acima do peso, o Kazim começou a jogar, foi difícil. Depois do jogo contra o Palmeiras é que as coisas começaram a andar. Fora de campo estava tudo muito tranquilo, vivendo uma vida bem regradinha, bem tranquila, e as coisas fluíram.
– E 2017, para mim, foi um ano atípico, que eu falo que foi um dos melhores da minha carreira porque cheguei a um nível de maturidade... Era um dos líderes do clube, um dos capitães. Fisicamente, tinha atingido um auge muito bom, com 29 anos, muito bem. Comecei a desenvolver um futebol que já tinha desenvolvido, mas voltei a fazer algo surreal. No Corinthians, talvez a gente não tivesse um time de galáticos, mas tinha os guerreirinhos. Cada um sabia fazer a sua função bem feita, e a gente foi campeão brasileiro com muita tranquilidade. Por isso considero um dos melhores anos da minha carreira: fui artilheiro e eleito o melhor jogador. No Brasil, é difícil fazer essa dupla.
Você realmente jogou com chuteira verde no Corinthians? – A chuteira era azul-turquesa, pronto. A Nike se pronunciou e soltou uma nota: a chuteira que o João Alves, jogador do Sport Club Corinthians Paulista, estava usando era azul-turquesa. Só que a imagem, nesse jogo que joguei contra o Bahia, refletia e parecia que era verde. Cara, aí a torcida encheu o saco. Mas, como eles já me conheciam, como é que eu vou usar roupa verde, chuteira verde, se fui cria da base? Eu não queria ter saído do Corinthians naquela época daquele jeito, porque foi o clube que me projetou para o futebol. Saí muito triste, decepcionado com algumas pessoas do clube, mas tudo isso faz parte do futebol.
Como foi a história de ir ao pagode lesionado enquanto o Corinthians jogava? – Fiz a fisioterapia no clube, estava machucado, com uma fissura na canela. Na época, era casado. Ainda falei para a minha ex-mulher: "vou ao aniversário de um amigo nosso, mais tarde estou em casa". E o Corinthians ia jogar contra o Cuiabá. Estou no pagode, o cara vai e tira foto, filma bem na hora e ainda fala: "ó, ele está muito preocupado com o Corinthians". São detalhes. Eram 8h da noite, se não me engano, eu estava no aniversário de um amigo. Na época, era casado, quem devia satisfação sabia. Onde está o erro?
– Mas aí veio uma série de coisinhas. Quando cheguei em casa, já estava na Globo.com, aquela coisa toda, aquele salseiro. A primeira coisa que fiz foi ligar para o Duilio, na época. "Quero ter uma reunião amanhã com vocês, porque desse jeito fica difícil, parece que estou atrapalhando o Corinthians, tudo sou eu". Vou abrir mão do meu contrato para poder sair, tanto que abri mão. Falei: "falta quanto tempo? Um ano, um ano e pouquinho? Não tem problema, não precisa me pagar nada, não. Saio e deixo o Corinthians seguir, não quero atrapalhar um clube que me deu tanta coisa boa no futebol". Não queria sair daquela maneira, mas acabei saindo.
Uma das poucas mágoas que você tem na sua carreira foi esse episódio no Corinthians? – Eu sou corintiano e nunca neguei, o Corinthians me projetou, hoje sou conhecido como Jô graças ao Corinthians. Eu sempre falava: "vou terminar minha carreira no Corinthians". Era um sonho de pequeno. Fiquei magoado com alguns torcedores, não são todos, óbvio. Parte da diretoria, na época, poderia ter conduzido melhor, deixado as coisas acontecerem. Fiquei com um pouquinho de mágoa, mas já passou. Sou corintiano, sempre torço, esse carinho com o clube nunca vai acabar.
Uma mágoa também foi ter estado presente no 7 a 1? – Queria ir para uma Copa do Mundo, sempre foi meu sonho. Mas ser marcado por uma Copa do Mundo, não por ganhar, e sim pelo 7 a 1, dói. Até hoje dói. Foi difícil, a tristeza é grande, mas um pouco mais no Corinthians porque é um clube do meu coração.
Como é estar no banco e ver um gol atrás do outro saindo? – Lembro que estava sentado bem no cantinho, eu, Daniel Alves, Hernanes, acho que o Paulinho. Saía um gol e a gente tentava... O Daniel Alves sempre foi um cara que gostou de falar, de ser líder. Ele olhava e tentava falar alguma coisa para o Felipão, para alguém, ou chamar alguém no campo, e nada. Dois, três, quatro... Eu falava: “meu Deus do céu, vai acabar isso aqui". Ninguém conseguiu fazer nada.
– Depois, vendo bem, e vendo outros jogos, tomou 2 a 0, por exemplo, está tomando sufoco, o goleiro cai, o outro pega, o outro faz... Tudo tem um jeito. Cara, ninguém conseguiu fazer nada, simplesmente ficou todo mundo estático. O Felipão sem saber o que orientar, no campo eles tentando fazer alguma coisa e não conseguiam, e a gente no banco também não sabia como ajudar. Foi um filme de terror.
Você lembra como foi o vestiário depois disso? Todo mundo quieto, cada um pega suas coisas e vai embora? – Eu e o Maicon, o lateral-direito, fomos para o doping. O vestiário pós-jogo eu não presenciei, porque dali do doping a gente foi direto para o ônibus. Do ônibus, voltamos para a Granja. Mas eu lembro que, quando a gente desembarcou no aeroporto, no Rio, e foi até a Granja de ônibus, o barulho mais forte que tinha dentro do ônibus era o motor, porque o resto ninguém falava nada. Havia um silêncio total.
– Você olhava todo mundo abatido, alguns até com lágrimas nos olhos, porque acho que, naquele momento, estavam tentando refletir e pensar naquilo que tinha acontecido. Era dentro do nosso país, uma semifinal de Copa, e a gente tinha confiança, por mais que tivesse perdido a nossa maior esperança, que era o Neymar. Mas a tristeza, a frustração, eram gigantescas. Ninguém acreditava na maneira como foi. Poderia até ter perdido por 1 a 0, 2 a 0, mas 7 a 1 ficou bem complicado.
O título da Copa das Confederações colocou o Brasil em um patamar que talvez tenha atrapalhado em 2014? – Pela maneira como a gente ganhou a Copa das Confederações, entramos na Copa do Mundo de 2014 como um dos favoritos. O Brasil tem sempre que entrar como favorito, mas a gente vinha de um título contra a Espanha, por 3 a 0, em casa, no Rio, fantástico. E a seleção da Espanha era uma das favoritas. A gente chega em 2014 com muita confiança, talvez até com um pouquinho de excesso. Era aquele pensamento: “ganhamos da Espanha, ganhamos a Copa das Confederações, viemos de uma fase boa, passamos da Colômbia, passamos de não sei quem, de não sei quem".
– E a gente chega contra a Alemanha achando que ia passar com certa tranquilidade. Era uma seleção que vinha jogando junta havia oito, talvez dez anos. Sem contar que os caras ainda jogavam juntos nos clubes. Então talvez a gente não tenha olhado por esse lado. Lógico que era uma seleção qualificada para uma Copa do Mundo, mas a nossa confiança estava muito elevada. É daí que você cai do cavalo.
É um choque de realidade quando você para de jogar e para de pingar aquela grana na conta? – É, exatamente. Por exemplo, se você for a um restaurante e pegar três Cocas, já não pode mais pegar três Cocas, tem que pegar uma. Essa situação você tem que começar a administrar, é difícil. A gente vê na história do futebol, ou até do mundo, pessoas que realmente têm dificuldade de entender isso e entram em depressão, há uma série de coisas que acontecem. Agora sou outra pessoa, sou um outro Jô, tenho uma outra vida, outro rendimento, tenho que trabalhar de uma outra maneira. O Jô, o jogador de futebol, ficou para trás. Agora é o João Alves, linkado com o Jô, para poder seguir a vida.
Seu pai disse em uma entrevista que temia que você se tornasse um "novo Adriano". Por que ele disse isso? – Primeiro que eu até dei uma pequena bronca nele. O "novo Adriano" tem muito a ver com a imagem que as pessoas criaram, mas quem conhece o Adriano sabe que ele é muito bem administrado, ainda é muito bem-sucedido. Existe essa imagem de ele gostar do lugar onde foi criado, na favela, de ficar em um bar com os amigos. Então talvez meu pai tenha me comparado nesse sentido, de ter medo de eu ficar assim, de ficar pela rua, pelos lugares, de não cuidar da imagem, essa série de coisas. Talvez ele tenha pensado nisso pelos fatos que já aconteceram. Mas ele sabe muito bem que tudo na vida tem seu tempo. Aquele tempo difícil já passou.
Quais lições você quer dar aos seus filhos? – O que quero passar, e sempre procuro passar, é o que meu pai me ensinou: entender a vida, ter princípios, independentemente de como tudo aconteceu. Eu, como pai, vou procurar passar toda a educação possível, todos os ensinamentos possíveis. Tem aquele ditado: "faça o que eu falo, não faça o que eu faço". É isso que vou passar para eles. Passei por várias dificuldades, e o meu testemunho já é um ensinamento para eles. O que o pai fez de certo e deu resultado está aqui. O que o pai fez de errado e não quer que vocês repitam também está aqui.
Você falou que quer pelo menos viver mais 40 anos. Como seriam esses seus 40 anos perfeitos, falando em profissão e como pessoa? – Estou planejando o pós-carreira, um processo que já começou e no qual já há algumas coisas acontecendo. Quero voltar a trabalhar dentro do futebol, passar tudo aquilo que aprendi para as pessoas e ter uma vida tranquila. Muita gente conhece o Jô. Do João, poucas pessoas têm esse acesso. O João é um cara centrado, sempre foi esforçado e procurou alcançar os próprios objetivos. Daqui para a frente, não vai ser diferente, só que agora em outra posição. Espero reencontrar um caminho dentro do futebol, mas fora dos gramados.





