Produção de soja traz menor crescimento em 30 anos

Brasil deve exportar menos milho em 2026, afirma Hedgepoint.

BATANEWS/BRASILAGRO


De 2016 a 2023, a expansão da área de soja foi de cerca de 1,5 milhão de hectares ao ano, e desacelerou desde então — Foto Globo Rural

A Hedgepoint estimou que a produção de soja no Brasil ficará praticamente estável na safra 2026/27, que será semeada nos próximos meses. A projeção é de um volume de 181,7 milhões de toneladas, sustentada pelo crescimento de área, enquanto a produtividade deve recuar um pouco. Na safra 2025/26, a produção realizada foi estimada em 181,5 milhões de toneladas.

'É o menor crescimento dos últimos 30 anos talvez', disse Luiz Roque, analista da Hedgepoint, em entrevista coletiva. A projeção é de que a área plantada com soja no país aumente 0,9%, para 49,2 milhões de hectares, enquanto a produtividade deve cair 0,8%, para 3,69 toneladas por hectare, estimou a consultoria, em sua primeira projeção para a temporada.

Ele observou que, de 2016 a 2023, a expansão da área de soja foi de cerca de 1,5 milhão de hectares ao ano, e que desacelerou desde então. Segundo o analista, é 'pouco provável' que o ritmo anterior se repita, dada a deterioração da situação financeira dos produtores, com aumento da inadimplência, restrição de crédito e custos elevados.

Já a produtividade deve cair por causa de uma base de comparação muito elevada na safra anterior. 'Entendemos que, com um clima apenas normal, devemos voltar para produtividade um pouco mais baixa', disse. Também deve haver menos investimento nas lavouras por causa da alta dos custos. A partir de 2022 e 2023, as margens dos produtores saíram de um patamar anterior próximo de dois dígitos e estão mais perto de 0, ou no máximo 'com dois dígitos baixos', disse.

A projeção não considerou os impactos de um El Niño. Segundo Roque, com uma intensidade forte a muito forte justamente nos momentos mais importantes para o desenvolvimento da safra brasileira, pode haver algum impacto.

'Não significa que quando tem El Niño, tem perda. Mas tende a mudar o padrão de chuvas', observou. Por ora, as previsões mostram precipitações dentro da média para setembro a outubro, o que não deve afetar o ritmo de plantio. 'Tudo vai depender do timing [momento de ocorrência] das chuvas', acrescentou.

A Hedgepoint ainda não estimou um volume para as exportações de soja do Brasil, mas Roque observou que os embarques ao exterior continuam fortes neste ano e podem atingir um novo recorde, de 114 milhões de toneladas.

Quanto aos preços, a Hedgepoint ressaltou que a relação entre estoque e consumo nos Estados Unidos continua apertada dado o aumento do esmagamento de soja no país, apesar do incremento da produção americana estimada para esta safra. 'Isso é um fator muito importante de suporte [para o preço] em Chicago', afirmou.

Ele observou que o esmagamento está em alta nos EUA por causa do aumento do mandato de mistura de biocombustíveis determinado pelo governo Trump no início do ano, e as empresas de processamento de grãos estão com margens elevadas, o que também favorece a demanda pelo grão.

Segundo Roque, o preço do óleo está mais alto e garante a margem mais elevada, mesmo com a recente recuperação dos preços do grão. 'O óleo está puxando a margem', disse. Outro fator de sustentação das margens nos EUA é o elevado patamar dos RINs, créditos que as refinarias americanas precisam comprar para ajudar a cumprir seus mandatos.

A demanda da China pela soja dos EUA também tem confirmado as expectativas de cumprimento do acordo feito no ano passado, de 25 milhões de toneladas ao ano, o que ajuda a dar suporte aos preços, disse. Segundo ele, 'é factível' que esse ritmo de exportação dos EUA à China se mantenha.

O aumento dos mandatos de biocombustíveis deve gerar, como reflexo, um aumento de oferta de farelo de soja, o que tende a pressionar os preços do produto. Na visão da Hedgepoint, a tendência de longo prazo é que a demanda dos derivados de soja pela indústria de energia puxe as margens de esmagamento, ao contrário do que ocorreu nos últimos anos, em que a demanda do setor de proteína por farelo para ração deu impulso a esse setor.

Milho

A Hedgepoint estimou que o Brasil vai exportar 1 milhão de toneladas a menos de milho em 2026 em relação a 2025, em decorrência dos problemas para enviar cargas ao Irã e do aumento da competição com a Argentina. A projeção é de que as exportações do ano-calendário atual, que vai de fevereiro de 2026 a janeiro de 2027, serão de 41 milhões de toneladas.

O dado destoa da projeção da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), que previuexportações de 46,5 milhões de toneladas neste ano. Segundo Luiz Roque, analista da Hedgepoint, o milho da Argentina está mais barato e pode ter vantagem no mercado internacional.

Há um risco, porém, de forte redução dos embarques para o Irã, que costuma importar cerca de 9 milhões de toneladas de milho do Brasil ao ano, observou.

Ao mesmo tempo, a destinação de milho para a produção de etanol no país deve crescer de 23 milhões de toneladas no ano passado para 28,5 milhões de toneladas, dado o aumento da capacidade instalada de processamento do grão para a fabricação do biocombustível.

Quanto aos preços internacionais, o analista avaliou que o mercado 'deve encontrar suporte em números fortes de exportação nos EUA'. 'O ritmo está muito acima do recorde anterior. O milho americano está muito competitivo e está sendo muito demandado no mercado internacional, o que é um fator de suporte', afirmou (Globo Rural, 20/8/26)