Seis em cada dez jovens aceitariam salário menor por trabalho menos estressante

BATANEWS/FOLHA


Cursinho pré-vestibular - Jardiel Carvalho - 07.abr.26/Folhapress

Seis em cada dez jovens brasileiros aceitariam ganhar um pouco menos para trabalhar em um ambiente com menos pressão e estresse, segundo pesquisa da Fundação Itaú, que entrevistou 1.816 pessoas de 16 a 29 anos.

Apesar disso, o levantamento divulgado nesta sexta-feira (21) também mostra que o salário foi apontado por 64% dos entrevistados como o fator mais importante na escolha de um trabalho. Benefícios, plano de carreira e ambiente agradável apareceram empatados, com 31% cada.

Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú e responsável pela pesquisa, embora a remuneração seja a principal preocupação na hora de escolher uma vaga, ela não é suficiente para garantir a permanência no emprego. 'São duas coisas que se complementam, não são opostas', afirma em entrevista à Folha.

A diferença aparece também na experiência de quem já passou pelo mercado. Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% dizem que já saíram de algum emprego por vontade própria. O principal motivo, citado por 43%, foi falta de respeito ou tratamento inadequado de líderes ou chefes. Na sequência aparecem jornadas longas ou acúmulo de funções (36%), excesso de cobrança ou pressão por resultados (32%) e falta de oportunidade de crescimento ou plano de carreira (28%).

A relação mais flexível com o trabalho também aparece quando os jovens imaginam o futuro profissional. Hoje, 30% dizem que um emprego com carteira assinada representa o que procuram. Ao questionados sobre perspectivas daqui a cinco anos, porém, a proporção cai para 16%, enquanto a preferência por trabalho autônomo sobe de 28% para 42%.

A mudança, segundo Chiamareli, está relacionada à pouca experiência dos jovens e à forma como eles imaginam a própria trajetória. 'Tem um pouco de imaturidade, de desconhecimento do mundo. Eles precisam de mais tempo para conseguir ter essa clareza da diferença entre o ter o próprio negócio e ser contratado em um trabalho formal, bem remunerado, estável', diz.

A pesquisa mostra que os jovens reconhecem a experiência prática como um dos principais diferenciais para conseguir uma boa oportunidade. Ela foi citada por 55% dos entrevistados, à frente de boa comunicação (51%) e comprometimento (36%).

O problema é que a falta de experiência aparece como a principal dificuldade para conseguir emprego: 49% dos jovens apontaram esse obstáculo. A concorrência com outras pessoas foi citada por 39%, seguida por dificuldades de deslocamento (28%), falta de qualificação ou preparo (25%) e dificuldade para conciliar estudo e trabalho (24%).

'O que me chamou atenção é o quanto a escola, educação básica e nível superior, não estão preparando bem os jovens para a realidade do mundo do trabalho', diz Chiamareli. Segundo ela, as aulas sobre mercado profissional costumam ser muito 'poéticas', sem refletir, de fato, as demandas do 'mundo real'.

Durante o questionário, nove em cada dez jovens disseram que a prática ensina mais do que os estudos, e 60% afirmam que programas de apoio à inserção profissional deveriam oferecer cursos práticos, e não apenas teóricos.

A falta de experiência também ajuda a explicar o peso das redes pessoais na entrada no mercado. Segundo a pesquisa, 96% dos jovens consideram que conhecer alguém dentro de uma empresa ou ser indicado por familiares e amigos ajuda a conseguir emprego. Entre os que trabalham ou já trabalharam, 77% afirmam já ter conseguido uma vaga por indicação.

O fenômeno, porém, é desigual. Para 32% dos jovens das classes A e B, a indicação é decisiva para conseguir um trabalho, percentual que cai para 16% entre os das classes D e E, segundo Chiamareli.

Para a pesquisadora, as diferenças de renda também aparecem no acesso à formação. A pesquisa mostra que 41% dos jovens entrevistados estão no ensino superior, mas o percentual é de 49% entre aqueles das classes A/B e de 24% entre os das classes D/E.

Os jovens também demonstram confiança no futuro. Nove em cada dez acreditam que sua situação financeira estará melhor daqui a cinco anos, e 88% acham que terão condição financeira melhor que a dos pais. Ao mesmo tempo, 61% têm receio de não conseguir pagar as contas e ter uma vida tranquila no futuro.

Nove em cada dez jovens acreditam que a tecnologia poderá substituir muitos empregos nos próximos anos, e metade dos entrevistados têm receio de perder oportunidades de trabalho por causa dos avanços tecnológicos. Ao mesmo tempo, 97% dizem que a tecnologia pode ajudá-los a aprender e crescer profissionalmente.

'Acho que o jovem tem que experimentar diferentes formas de trabalho, diferentes formas de vínculo, até ele ter essa projeção de que amanhã estará melhor, terá seu próprio negócio', diz a especialista.

A pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho foi realizada entre 11 e 23 de maio, com 1.816 entrevistas presenciais com jovens de 16 a 29 anos. A amostra é representativa da população brasileira nessa faixa etária, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O estudo também teve uma etapa qualitativa, com 16 grupos focais virtuais.