O que acontece com quem toma estatinas depois dos 70 anos

Estudo com 10 000 idosos aponta impacto expressivo nas taxas de infarto e AVC

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Estatina: principal classe de drogas prescrita para controle do colesterol (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Nunca é tarde para tratar o colesterol alto. Um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Munique, na Alemanha, e publicado simultaneamente no periódico New England Journal of Medicine , chega para responder a uma pergunta que intrigava até os especialistas: vale a pena começar a tomar estatina depois dos 70 anos, mesmo sem histórico de problema no coração? A resposta, pela primeira vez baseada em um grande ensaio clínico controlado, é sim — mas com ressalvas importantes.

Cerca de 21 mil australianos mais velhos sofrem um evento cardiovascular grave, como infarto ou AVC, todos os anos — número que dá a dimensão do problema em um único país e ajuda a explicar por que a pergunta por trás da pesquisa virou prioridade.

Com a população mundial envelhecendo em ritmo acelerado, entender o que realmente funciona para manter o coração saudável na velhice deixou de ser um detalhe acadêmico para se tornar uma questão de saúde pública.

Estatinas já são armas consagradas contra infarto e AVC em quem já teve algum evento cardiovascular ou está em alto risco. O problema é que, para pessoas mais velhas sem diagnóstico prévio de doença cardíaca, faltavam dados robustos sobre iniciar o tratamento pela primeira vez — sobretudo acima dos 75 anos.

Por isso, diretrizes médicas nunca conseguiram recomendar com segurança o início da estatina nessa faixa etária, em parte por receio de que efeitos colaterais pesassem mais do que os benefícios em quem tem menos tempo de vida pela frente.

O que se descobriu

O trabalho, batizado de STAREE — sigla em inglês que remete a algo como “estatinas na redução de eventos em idosos” —, foi conduzido por pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália, com financiamento público, do Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica e da Fundação do Coração do país. Foram recrutados 9.971 voluntários com 70 anos ou mais, todos vivendo de forma independente e sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular, diabetes, demência ou colesterol alto já tratado com estatina.

Metade recebeu 40 mg diários de atorvastatina; a outra metade, um placebo (comprimido idêntico mas sem o pricípio ativo). Nem médicos nem pacientes sabiam quem tomava o quê. A idade média era 74,7 anos, e 52% dos participantes eram mulheres. O acompanhamento durou, em média, 5,9 anos.  

O desfecho principal somava morte por causa cardiovascular, infarto, AVC ou necessidade de desentupir artérias do coração. Esse conjunto de eventos ocorreu em 6% de quem tomou atorvastatina, contra 8,3% de quem tomou placebo — uma redução relativa de 30% (intervalo de confiança de 95%: 18% a 39

Já o segundo desfecho do estudo, chamado de “sobrevida livre de incapacidade” — que juntava morte, demência e perda de autonomia física —, não mostrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos: 12,8% com atorvastatina contra 13,6% com placebo. Ou seja, o remédio protegeu o coração, mas não se traduziu, nesta análise, em mais anos de vida independente e sem demência.

Quanto aos efeitos adversos, dores musculares, problemas hepáticos e ligados ao controle de açúcar no sangue foram mais frequentes entre quem tomou atorvastatina do que entre quem tomou placebo — um padrão já conhecido dessa classe de remédios.

Ainda assim, a proporção de efeitos colaterais graves foi idêntica nos dois grupos: 2,7%. Para os pesquisadores, isso reforça que a estatina continua sendo segura para uso em pessoas mais velhas, mesmo sem histórico cardiovascular prévio — um receio que, até aqui, ajudava a frear a prescrição do remédio nessa faixa etária.

O que muda nos consultórios médicos

Os resultados devem ajudar a atualizar diretrizes médicas sobre quando iniciar estatina em pacientes mais velhos — uma decisão que hoje fica largamente a critério do médico, sem evidência forte para orientá-la.

Vale destacar que o estudo excluiu propositalmente quem já tinha diabetes, demência ou doença cardíaca conhecida: os resultados valem para idosos relativamente saudáveis, não podendo ser generalizados automaticamente para quem já enfrenta essas condições.

A decisão de iniciar o tratamento continua sendo individual e deve ser discutida com um médico, levando em conta expectativa de vida, outras doenças e os demais remédios já em uso.

Os próprios autores classificam a ausência de ganho em sobrevida livre de incapacidade como uma pergunta em aberto — e não como um resultado negativo definitivo —, a ser explorada em pesquisas futuras. E tudo isso deve ser pesado e ponderado caso a caso.