Mesmo com caneta emagrecedora, cirurgia bariátrica pode ser melhor opção para alguns pacientes

BATANEWS/FOLHA


No ano passado, a biomédica Vitória Masiero, 23, usou caneta emagrecedora durante oito meses e perdeu cerca de 20 quilos, mas parou o tratamento por questões financeiras; neste ano, ela decidiu fazer uma cirurgia bariátrica, realizada em agosto

A biomédica Vitória Masiero, 23, começou usar uma caneta emagrecedora de semaglutida no ano passado. Em oito meses com o medicamento, perdeu cerca de 20 quilos. No entanto, ela precisou suspender o tratamento por questões financeiras. 'Em pouco tempo, recuperei parte do peso que eu havia perdido', diz Vitória, que chegou a pesar 140 quilos.

A jovem avalia que a caneta emagrecedora representava um custo mensal alto, de cerca de R$ 800, que não conseguiria manter a longo prazo. Ela então decidiu retomar uma vontade antiga: passar pela cirurgia bariátrica.

'Comecei a usar a caneta porque achei que poderia me livrar da cirurgia, mas no fim acabei percebendo que o meu caso era mesmo de bariátrica', diz. Em março deste ano, Vitória começou a se preparar para o procedimento, feito no mês passado. 'Foi a melhor decisão da minha vida', afirma à Folha.

'Agora dizem que vou ter que tomar vitamina por toda a vida, por causa da bariátrica, mas eu também teria que tomar a semaglutida para sempre', acrescenta.

O caso de Vitória mostra como as canetas emagrecedoras têm cruzado com o cenário das bariátricas, até então consideradas o método mais eficaz contra a obesidade.

Os médicos apontam que diversos pacientes abandonaram a cirurgia em busca do tratamento com os análogos de GLP-1, como a semaglutida, a tirzepatida e a liraglutida.

As cirurgias feitas por planos de saúde tiveram uma queda nos últimos anos, após crescimento constante, segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Em 2023, com o aumento dos procedimentos no pós-pandemia, foram 73,6 mil cirurgias. Nos anos seguintes, os números caíram: foram 71,3 mil em 2024 e 62,2 mil no ano passado.

Essa percepção sobre o impacto das canetas emagrecedoras nas cirurgias bariátricas começou por volta de 2024, segundo médicos ouvidos pela reportagem. Nessa época, esses remédios, que possuem efeitos colaterais manejáveis e melhoram indicadores de saúde prejudicados pelo excesso de peso, viraram uma alternativa importante.

O cirurgião Luiz Vicente Berti, da SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica), afirma que a redução nas cirurgias deve ser creditada, em parte, à chegada das canetas. No entanto, diz também que houve mudanças nos perfis dos clientes dos planos de saúde.

'A pessoa que tinha um plano de saúde bom, caiu para um mais baixo. Aquela que estava no mais baixo, caiu para uns ainda mais baratos, que oferecem muito pouco. Por isso, ficou mais difícil para essas pessoas terem acesso à bariátrica', justifica.

As cirurgias bariátricas tiveram crescimento no particular quando não envolve plano de saúde. Os dados da SBCBM mostram que os procedimentos feitos em 2025 nessa modalidade aumentaram quase 36%. No ano passado foram 3,8 mil em todo o país, enquanto em 2024 foram 2,8 mil cirurgias.

No SUS (Sistema Único de Saúde), os números da bariátrica bateram recorde no período recente. Em 2025 foram 14 mil cirurgias, o maior número dos últimos anos. Desde o fim da pandemia, os dados sobem anualmente. Somente até junho deste ano já foram 8,1 mil procedimentos na rede pública, segundo o Ministério da Saúde.

Na rede pública, a cirurgia bariátrica é indicada somente para casos graves de pessoas com IMC (índice de massa corporal) maior ou igual a 40 ou acima de 35 com comorbidades como diabetes e hipertensão, após tentativa de tratamento clínico por mais de dois anos.

Segundo o Ministério da Saúde, os números de bariátricas cresceram nos últimos anos na rede pública porque a procura pelo procedimento subiu no país. No SUS não há, ao menos por ora, incorporação de nenhum tipo de caneta emagrecedora. A bariátrica é o principal tratamento contra a obesidade.

Para o cirurgião Denis Pajecki, coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), a explicação do aumento das cirurgias no SUS é porque as canetas têm custo elevado.

É importante entender que as canetas são uma medicação para tratar a obesidade, e a cirurgia bariátrica é um procedimento para tratar, principalmente, o que a gente denomina de obesidade grave

coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Abeso

Pajecki afirma que o crescimento está relacionado a iniciativas para ampliar o acesso à cirurgia bariátrica, que historicamente era baixo no sistema público. Ele frisa, porém, que isso não significa que a fila de espera pelo procedimento no SUS tenha sido resolvida.

Para Berti, existe uma dificuldade de medir quantos pacientes aguardam efetivamente pela cirurgia. Segundo ele, muitos entram pela atenção básica, mas não chegam aos ambulatórios especializados.

No Brasil, cerca de 25,7% da população enfrenta um grau de obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. No entanto, somente uma parcela está em um nível grave, para passar pela bariátrica.

Os médicos ressaltam que em muitos desses casos, a caneta emagrecedora pode ser uma opção. Já nos pacientes com grau mais severo de obesidade, a bariátrica segue como a melhor escolha.

'É importante entender que as canetas são uma medicação para tratar a obesidade, e a cirurgia bariátrica é um procedimento para tratar, principalmente, o que a gente denomina de obesidade grave', afirma Pajecki.

Os pacientes com obesidade grave, dizem os médicos, continuam chegando à cirurgia. A diferença no cenário atual, afirmam, é que muitos deles tentaram usar as canetas e se frustraram por não perder peso como o esperado ou por recuperar os quilos perdidos após interromper o tratamento.

Para Berti, os pacientes precisam entender que nem todos terão a mesma indicação de tratamento. Enquanto alguns podem responder a mudanças de hábitos ou a medicamentos, outros precisarão passar pela cirurgia para perda expressiva de peso.

Pajecki avalia que o cenário atual não aponta para uma perda de relevância da bariátrica. Para ele, a tendência é de uma seleção maior dos pacientes que chegam ao procedimento. 'Muitos vão se dar muito bem com as canetas. Outros não vão conseguir sustentar ou não vão ter o resultado definitivo', afirma.