IA se consolida na medicina ampliando a velocidade e a precisão dos exames

A tecnologia já nem está mais restrita ao ambiente médico. Pode estar nas mãos do usuário

BATANEWS/VEJA


TOTENS MÉDICOS - Em Xangai, na China: postos de triagem com IA permitem consultas de quatro minutos (Guo Cheng/Xinhua/AFP)

Já não é cena de filme de ficção científica — nem mesmo montagem de IA. Em algumas cidades da China, incorporados à paisagem, quiosques equipados com totens de última geração permitem ao cidadão realizar uma consulta médica na hora. Com um detalhe central: não há profissional de carne e osso no pedaço. Nas cabines de autoatendimento, dotadas de uma grande tela e múltiplos recursos, o usuário se cadastra, relata seus sintomas por voz ou texto e realiza medições automáticas de sinais vitais, como pressão arterial, frequência cardíaca e saturação do oxigênio.

O laudo é dado em minutos por uma ferramenta de inteligência artificial. Só a palavra final não vem do Dr. IA. O sistema é conectado em tempo real com um médico que revisa o caso, atesta o diagnóstico e valida uma prescrição ou encaminha a pessoa a um hospital. É a pura expressão do conceito de assistência híbrida, uma realidade que também se expande no Brasil com programas e equipamentos que aperfeiçoam a detecção e o controle de doenças, do laboratório de análises ao conforto de casa.

De fato, a inteligência artificial já é indissociável da medicina moderna. Sua capacidade de avaliar um número astronômico de dados em tempo recorde confere agilidade e precisão inimagináveis para as decisões entre profissional e paciente. É essa capacidade turbinada que conecta a eficiência dos totens chineses à maior acurácia das respostas fornecidas por exames realizados no Brasil. Em resumo: o sistema cruza cada resultado ou consulta com um banco gigantesco de registros e, por meio do reconhecimento de padrões, sugere um diagnóstico ou solução. “É uma área perfeita para ser profundamente transformada pela inteligência artificial, porque coleta muitos dados”, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor titular de inteligência artificial na Faculdade de Saúde Pública da USP. “Cerca de 30% de todos os dados coletados no mundo são de saúde.”

Na China, esse movimento é visível. São mais de 2 000 cabines instaladas em espaços de grande circulação, como as estações de metrô de Xangai, onde 250 totens atendem milhares de pessoas diariamente. Cada consulta dura, em média, quatro minutos, tempo suficiente para desafogar um sistema de saúde cada vez mais pressionado. É um bom exemplo para o Brasil, onde a IA por ora está predominantemente embutida no ambiente de clínicas e hospitais. Embora não tenhamos um equivalente ao modelo chinês de totens abertos ao público em larga escala, iniciativas menores indicam que esse futuro já está batendo à nossa porta.

Neste ano, sete cabines de triagem com IA foram instaladas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) na remota cidade de Jordão, no Acre, enquanto outras quatro estão instaladas em localidades rurais, ribeirinhas e indígenas do município. Desenvolvidas pela empresa Foxconn e financiadas por subsídios governamentais, elas medem sinais vitais e classificam o risco de pacientes, tendo o objetivo de ampliar o acesso aos serviços de saúde no estado, que tem apenas 1,8 médico por 1 000 habitantes — a média nacional é de 2,8. Algumas delas oferecem consultas virtuais à população, que frequentemente precisa fazer viagens longas e caras só para ver um especialista. Uma forma de encurtar distâncias, suprir carências e dar diagnósticos mais rápidos, lacuna que ainda onera a qualidade de vida do cidadão e o próprio Estado.

Acelerar a detecção de doenças é um ativo poderoso da IA, tanto que um dos campos em que seu papel já está mais consolidado é justamente o da medicina diagnóstica. Ela otimiza o trabalho sem, evidentemente, substituir o profissional. “O algoritmo não possui personalidade jurídica nem autonomia para emitir parecer conclusivo isolado e, por esse motivo, é desenhado para servir ao médico”, diz Leonardo Vedolin, vice-presidente médico e de operações da Dasa, grupo dono de laboratórios como Delboni e Lavoisier. Na rede, por exemplo, os sistemas analisam todos os dias dados de milhares de laudos para identificar indícios que exigem conduta ágil diante de ao menos quarenta doenças. No caso do câncer de mama, a tecnologia mapeia lesões suspeitas que exigem biópsia o quanto antes. O alerta automatizado reduziu o tempo médio entre o sinal de alarme e o início do tratamento de dezessete para sete dias.

Lógica semelhante é adotada pelo Fleury, que utiliza ferramentas de IA para decupar resultados de tomografias de crânio e de tórax com contraste. O sistema faz uma triagem de achados críticos, como hemorragias, e dispara um alerta, organizando uma “fila” de priorização de laudos. “Com isso, o radiologista consegue ler primeiro os exames possivelmente positivos, não só seguindo uma ordem cronológica que atrasaria a atenção a casos graves”, explica Bruno Aragão, head médico de hospitais e inovação do grupo.

De volta à China, no hospital de Ningbo um algoritmo batizado de Panda, desenvolvido por pesquisadores ligados à empresa de tecnologia Alibaba, já encontrou possíveis indícios de câncer de pâncreas — um dos mais desafiadores hoje em termos de diagnóstico e tratamento — em mais de 1 400 exames desde o início de sua operação, mas apenas 300 deles precisaram seguir para intervenções médicas, segundo estudo publicado na revista científica Nature Medicine. A distância entre esses dois números revela tanto o potencial dos programas de IA quanto seus limites. Embora capture nuances que o cérebro pode deixar passar, o sistema não dispensa o conhecimento e a sensibilidade clínica.

É por isso que, nesse ramo sensível por natureza, sempre se fala em cooperação, não em substituição — o Dr. Algoritmo nunca trabalha sozinho. Tais sutilezas estão presentes nas novas regras para uso da IA elaboradas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que entraram em vigor no fim de agosto. A entidade determina que, no país, a decisão sobre diagnóstico, prognóstico, prescrição ou qualquer outro ato médico cabe sempre ao profissional, embora os recursos possam apoiá-lo na jornada com o paciente. Além disso, quem é atendido deve ser informado quando a IA estiver em cena. “A inteligência artificial é um auxílio à tomada de decisão, principalmente porque, na área da saúde, as decisões são literalmente de vida ou morte. Precisamos ter um ser humano sempre por perto para tomar decisões éticas e assumir as responsabilidades por elas”, afirma Chiavegatto Filho.

Mas a realidade é que a tecnologia já nem está mais restrita ao ambiente médico. Pode estar nas mãos do usuário. Hoje, equipamentos testados e aprovados para uso doméstico podem ajudar na caça a problemas silenciosos e graves. É o caso do AFib, medidor de pressão arterial com um algoritmo que, ao monitorar os batimentos do coração, também reconhece padrões que sugerem um tipo comum de arritmia. “Ele pode analisar alterações sutis no ritmo cardíaco, inclusive em pessoas sem sintomas ou que apresentam episódios esporádicos”, conta a cardiologista Cecília Barroso, porta-voz médica da Omron Healthcare Brasil, empresa que lançou o dispositivo no Brasil. “Isso amplia a oportunidade de flagrar o quadro antes de uma possível complicação.”

Se a lógica por trás desses sistemas parece simples — treinar a IA para identificar padrões sugestivos de doenças —, o desafio está justamente na qualidade, na diversidade e no viés dos dados usados no aprendizado. Em um estudo internacional recém-publicado, especialistas descrevem como a capacidade dessas ferramentas de detectar alterações na pele diminui significativamente em pacientes negros. Isso porque os algoritmos são munidos sobretudo com imagens de pessoas de pele clara, o que dificulta o reconhecimento de características de quem foge do escopo majoritário da máquina. Felizmente, essa falha — de origem humana, vale registrar — pode ser revertida. “Conseguimos identificar e corrigir os preconceitos da IA”, diz Chiavegatto Filho.

Corrigir a desigualdade no acesso à saúde, aliás, é o que motiva inúmeros projetos que levam a inteligência artificial ao SUS. O Ministério da Saúde apresentou, neste mês, a inédita Central de Comando das UTIs Inteligentes. Instalada no Hospital das Clínicas de São Paulo, ela monitora os sinais vitais em tempo real de pacientes internados em hospitais de Manaus, Recife, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. No momento, sessenta leitos transmitem informações sobre frequência cardíaca, níveis de oxigênio e pressão arterial 24 horas por dia. A meta é chegar a 280 em catorze instituições pelo país com a proposta de incluir a rede pública no mapa da medicina preditiva para atendimentos mais rápidos e precisos, contornando as fronteiras geográficas e a histórica falta de infraestrutura em algumas regiões do Brasil. É mais um exemplo de que a revolução da IA não tem volta e, de mãos dadas com os doutores humanos, pode tornar o cuidado mais ágil e efetivo — por aqui ou lá na China.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012