Na reta final, disputa acirrada entre Lula e Flávio acende alerta na campanha petista

Como a agenda positiva não foi capaz de levá-lo ao favoritismo, o presidente tenta, pelo menos, equilibrar a agenda negativa

BATANEWS/VEJA


EM ASCENSÃO - O Zero Um: o candidato foi beneficiado pela tormenta enfrentada pelo Supremo (Vittor Sales/.)

No feriado da Independência, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, reuniu quase 30 000 apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, e bradou palavras de ordem contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que voltou ao centro do noticiário após a divulgação de novos detalhes de sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Do alto do carro de som, o Zero Um pediu o afastamento do magistrado, mas o principal alvo de sua ofensiva era outro: Lula, com quem disputa palmo a palmo a corrida eleitoral. “Quem vota em Lula está votando em Moraes”, declarou.

No dia seguinte, o filho mais velho de Jair Bolsonaro — embalado pela crise de reputação que atinge o STF — participou de uma caminhada em Juiz de Fora (MG), município onde, na campanha de 2018, seu pai sofreu um ataque a faca. Enquanto seu rival comemorava o impacto positivo dos dois atos, Lula fazia reuniões de emergência em Brasília, acuado pela maior crise institucional do Judiciário em seu terceiro mandato, que tem atingido em cheio sua campanha.

Pesquisas de diferentes institutos mostram o presidente e o senador empatados nas simulações de segundo turno, mas com o oposicionista em trajetória ascendente e numericamente à frente em algumas projeções. Em termos eleitorais, Flávio Bolsonaro vem sendo beneficiado pela tormenta enfrentada pelo Supremo, que obrigou Lula a reagir. Aconselhado a não prestar solidariedade a Moraes, que recentemente intermediou a reaproximação entre o presidente e o comandante do Congresso, senador Davi Alcolumbre, Lula defendeu nas redes sociais a derrubada do sigilo do inquérito sobre o Banco Master e a investigação de todos os implicados no escândalo, “doa a quem doer”.

Foi uma tentativa de agradar à opinião pública, que deseja ver o caso esclarecido, sem, ao mesmo tempo, rifar o STF, com o qual Lula manteve uma parceria estratégica durante o terceiro mandato. As próximas pesquisas mostrarão se o presidente conseguiu conter a sangria eleitoral.

Levantamento BTG/Nexus divulgado na terça-feira 8 mostrou que, na simulação de segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula pela primeira vez desde o início oficial da campanha: 46% a 45%. Os dois também estão tecnicamente empatados no quesito rejeição: 49% dizem que não votariam no presidente, enquanto 50% afirmam que não votariam no senador.

Os números fizeram piscar a luz amarela no QG petista. Entre os estrategistas da campanha de Lula, praticamente se extinguiu a esperança de liquidar a fatura no primeiro turno. A crise no Supremo e o desgaste da imagem de Alexandre de Moraes capturaram a agenda político-eleitoral e deixaram em segundo plano o esforço do governo para divulgar suas realizações e explorar uma agenda positiva.

Por obra de uma decisão do ministro André Mendonça, indicado para o STF por Jair Bolsonaro, Moraes assumiu momentaneamente o protagonismo do escândalo do Master, ocupando o papel de vilão que já havia sido atribuído a Flávio Bolsonaro depois da revelação de que o senador pediu 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, supostamente para financiar uma cinebiografia sobre o pai.

A Polícia Federal suspeita que os recursos efetivamente repassados pelo ex-banqueiro, cerca de 70 milhões de reais, possam ter sido usados para bancar despesas pessoais de integrantes da família Bolsonaro. Na manhã de quinta-feira 10, em operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, a PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão no âmbito da investigação sobre possíveis irregularidades no financiamento.

Para rebater essa tese, o Zero Um divulgou recentemente uma perícia encomendada pela produtora do longa, segundo a qual o filme Dark Horse não recebeu dinheiro público e teve o fundo Havengate como seu maior investidor. O trabalho, porém, não foi suficiente para dissipar as dúvidas que ainda pairam sobre o negócio. Questionado sobre a polêmica, o candidato do PL tem tentado se esquivar, afirmando que apenas ajudou a captar recursos e que eventuais dúvidas devem ser dirigidas à produtora.

Enquanto procura escapar do caso Dark Horse, o senador aproveita o fato de Moraes estar no centro do tabuleiro para colocar o ministro e o presidente no mesmo campo, tratando-os como uma coisa só. É justamente o que Lula quer evitar.

Meses atrás, o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, procurou integrantes da Corte para apresentar pesquisas internas feitas pelo governo, segundo as quais a imagem negativa dos ministros, especialmente a de Moraes, estava respingando na campanha de Lula. A proximidade que o petista cultivou com o principal algoz do bolsonarismo começava a cobrar um preço nas pesquisas de intenção de voto.

Segundo interlocutores da Corte ouvidos por VEJA, Sidônio pediu que o Supremo adotasse medidas específicas para reverter o desgaste, mas não explicou quais seriam.

Em uma entrevista, o próprio Lula já havia declarado que Moraes deveria prestar contas sobre sua relação com o Master, para evitar que o episódio manchasse a reputação do ministro. A ofensiva do governo não surtiu efeito — assim como não surtiu no caso do ministro Dias Toffoli, cuja família fechou uma transação milionária com a rede de negócios do Master.

Se dependesse de Lula, Toffoli seria afastado do Supremo, nem que fosse sob a alegação de uma licença médica. Não foi o que ocorreu. O ministro e seu colega Moraes continuam a dar expediente normalmente, mantendo vivo o desgaste do tribunal e, por tabela, do próprio presidente.

Quando os entrevistados da BTG/Nexus foram instados a apontar os dois principais problemas do Brasil, a corrupção apareceu como a questão mais lembrada na primeira resposta, com 18%. Consideradas as duas respostas, chegou a 23%, um salto de 4 pontos percentuais em relação à rodada anterior, embora ainda atrás de segurança, violência e criminalidade (35%) e saúde pública (31%).

Não por acaso, o marqueteiro do PL, Duda Lima, continua dando destaque, na propaganda do horário eleitoral, às promessas de Flávio Bolsonaro de combate às facções do tráfico e às milícias. O senador também intensificou o discurso contra o que apresenta como a dupla a ser derrotada nas urnas: Moraes e Lula.

“A família Bolsonaro está há anos no centro do conflito com o STF e, particularmente, com Alexandre de Moraes. Quando esse tema cresce na agenda pública, Flávio tende a ser um dos beneficiários dessa politização”, diz o cientista político Luis Carlos Burbano Zambrano.

A análise do caso de Moraes pelo plenário do Supremo, marcada para o próximo dia 15, pode dar fôlego extra à retórica de Flávio, reforçando a ideia de que votar em Lula significa “perpetuar a promiscuidade” entre o Executivo e o Judiciário.

Numa tentativa de sair das cordas, o presidente e o PT também passaram a atacar o que classificam como vazamentos seletivos das investigações. “Tem áudio, tem nota fiscal, tem repasse de milhões, tem vazamento sobre todo mundo, mas as provas sobre Flávio Bolsonaro continuam em segredo. Por que esse sigilo?”, questiona o secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares.

A contraofensiva governista começou com uma postagem do próprio Lula: “É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master”.

Como a agenda positiva não foi capaz de levá-lo ao favoritismo, o presidente tenta, ao menos, equilibrar a agenda negativa. Ela alimenta as rejeições de lado a lado e transforma a corrida presidencial, até aqui, em um jogo equilibrado e completamente indefinido.