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El Niño intensifica risco de extremos climáticos e amplia vulnerabilidade dos produtores do Paraná
Fenômeno deve permanecer forte até o início de 2027, enquanto tornados, vendavais e granizo já provocaram centenas de milhões de reais em prejuízos no Estado e expõem as limitações do seguro rural.
BATANEWS/OPR
“O sentimento é horrível: você perde uma vida em cinco segundos.' A frase da produtora Leticiane Flugel resume o impacto de um tornado que atingiu sua propriedade em Piraí do Sul, nos Campos Gerais, no início de agosto. O terreno pertencia ao avô dela, passou para o pai e, três meses antes do temporal, havia se transformado no endereço de um projeto construído durante anos pelo casal Leticiane e Juliano Santos.
Aos poucos, o casal Leticiane Flugel e Juliano Santos reconstrói a estufa, com apoio de vizinhos da propriedade – Foto: Divulgação
Juntos há 14 anos, os dois economizaram para erguer uma estufa e iniciar a produção de morangos. Foram plantados 4 mil pés, além de feijão, milho e hortaliças. Os morangos estavam com cerca de 90 dias e próximos da primeira colheita da vida do casal quando o tornado atingiu a propriedade. “A gente assistia pela televisão, mas não imaginava o peso do sentimento que fica quando passa por essa situação', relata Leticiane.
Casa, garagem, estufa e carro foram danificados. O prejuízo chegou a R$ 20 mil. Sem seguro, a família precisou recorrer à ajuda dos vizinhos para cobrir o telhado da residência e começar a reconstruir a estufa.
A experiência vivida pelo casal é um exemplo do risco que produtores paranaenses podem enfrentar nos próximos meses, diante da intensificação do El Niño. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), com base em informações da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade forte, caracterizada por temperaturas da superfície do mar pelo menos 2 graus Celsius acima da média histórica.
O pico do fenômeno é esperado entre outubro e dezembro, com efeitos sobre o padrão climático do
Paraná que podem se estender até o primeiro trimestre de 2027.
Mais chuva, vento e tempestades no radar
O meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, explica que o El Niño não significa que haverá chuva todos os dias, mas pode intensificar padrões que já ocorrem naturalmente no Paraná. “Como a dinâmica já é mais chuvosa, com uma frequência maior de tempestade, o El Niño deixa ainda mais instável. Nós podemos ter uma frequência maior de vento, tempestade, dias chuvosos, com mais dias consecutivos com chuva', afirma.
O fenômeno é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e interfere na circulação geral da atmosfera. No Sul do Brasil, uma das consequências é o favorecimento do transporte de calor e umidade da Amazônia para a região.
Segundo Kneib, a intensificação das condições climáticas também merece atenção diante do aumento da ocorrência de tornados nos últimos anos, especialmente na região Centro-Sul do Estado.
Entre os episódios recentes estão o tornado que atingiu Piraí do Sul, classificado como categoria F3, com ventos superiores a 300 km/h, e o registrado em Rio Bonito do Iguaçu, no fim de 2025, classificado como F4. “Esse alerta não pode ser ignorado', afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “O El Niño intenso, com tempestades, vendavais e chuvas, significa mais risco para os nossos produtores rurais. Vamos seguir cobrando o poder público quanto a uma política de seguro rural acessível, além de medidas e estratégias de prevenção. Ninguém no campo e na cidade pode ficar desprotegido diante de fenômenos da magnitude que estamos vivendo', completa.
Prevenção passa pelo monitoramento do tempo Para o agrônomo Bernardo Lipski, do Simepar, os episódios recentes reforçam a necessidade de o produtor acompanhar diariamente os alertas meteorológicos. A antecedência, segundo ele, pode permitir medidas para reduzir perdas na propriedade.
Ventos fortes e tornados podem atingir lavouras, estufas, galpões, silos, redes elétricas e equipamentos. O granizo pode destruir uma plantação em poucos minutos. Já as chuvas intensas aumentam o risco de alagamentos, enxurradas e erosão, enquanto os raios representam perigo direto para pessoas e animais.
Diante de uma previsão ou alerta de tempestade severa, a orientação é evitar áreas abertas, árvores isoladas e estruturas metálicas. Também é recomendado suspender a aplicação de defensivos e a operação de máquinas, verificar previamente as condições de telhados e estufas e manter máquinas, equipamentos e animais em locais protegidos. “O produtor deve considerar os alertas de tempestade severa como um sinal de risco', pontua Lipski.
Excesso de chuva ameaça qualidade e produtividade
O El Niño previsto para este ciclo deve coincidir com pelo menos duas safras agrícolas: o período final das culturas de inverno e o início da próxima safra de verão.
Para trigo e outras culturas de inverno, o excesso de umidade pode comprometer a qualidade do produto. Entre os possíveis efeitos estão a piora da qualidade da farinha e do malte, o que pode resultar em descontos no preço pago ao produtor.
Esse tipo de perda, porém, não está atualmente coberto pelo seguro rural, já que as apólices protegem, em geral, a perda de produtividade. “A chuva já não é mais desejada nesse período. O excesso de umidade favorece a ocorrência de grãos avariados e a proliferação de doenças na espiga, o que deteriora a qualidade do grão', explica Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep.
Na soja, os riscos são diferentes. Tempestades no início do plantio podem provocar erosão em áreas de solo exposto, carregar sementes recém-plantadas e obrigar o produtor a refazer o plantio. Períodos prolongados de céu nublado também podem alongar o ciclo da cultura e provocar um efeito cascata no cronograma das propriedades.
A umidade excessiva ainda favorece a ocorrência de ferrugem asiática, aumentando a necessidade de aplicações de fungicidas e, consequentemente, o custo de produção.
Seguro mais caro e com menor oferta
O agravamento do risco climático também chega ao mercado de seguro rural. Segundo o Sistema Faep, seguradoras já avaliam como elevado o risco de determinadas safras e vêm restringindo a comercialização de algumas apólices. Com menor oferta, o prêmio tende a ficar mais caro justamente em um momento em que os recursos destinados à subvenção governamental têm sido cada vez mais escassos. “A conta não fecha, e o valor do seguro acaba pesando na composição do custo de produção', diz Ana Paula.
Para o Sistema Faep, a subvenção ao seguro rural é uma das principais ferramentas para reduzir a exposição dos produtores aos eventos climáticos extremos. A entidade defende políticas agrícolas que ampliem a proteção e medidas de prevenção capazes de reduzir os impactos sobre as propriedades.
Em Piraí do Sul, tornado arrancou até a grama
O tornado que atingiu Piraí do Sul na última terça-feira (08) deixou danos tanto na área urbana quanto no meio rural. O presidente do Sindicato Rural do município, Luiz Tonon, acompanhou os estragos provocados pelo fenômeno, que derrubou árvores e postes e danificou casas, granjas, galpões e a estufa recém-construída por Leticiane e Juliano. “A gente teve árvores quebradas e torcidas em eventos passados. Mas esse arrancou da raiz, chegou a mexer o solo. Onde ele tocou, tirava pedaço', descreve.
Para Tonon, a intensidade desses fenômenos expõe a dificuldade de proteção do produtor. “A gente está a céu aberto. Não tem como se proteger numa situação dessas. A única coisa é fazer o seguro, mas hoje está caro e a subvenção, que o governo sempre pagou, não está sendo paga', relata.
Na mesma região, a propriedade de Fábio Ferreira ficou seis dias sem energia elétrica depois que o tornado passou a aproximadamente 50 metros da casa da família.
O produtor estava no quintal, mexendo no caminhão e acompanhado do filho, quando recebeu da filha uma fotografia mostrando o tornado se aproximando da propriedade. “Eu estava mexendo no caminhão, no quintal, com meu filho, quando minha filha mandou uma foto do tornado se aproximando de casa. Voltei, pedi para todos entrarem, mas fiquei do lado de fora vendo passar', relembra.
Na região de Piraí do Sul (PR), a propriedade do produtor Fábio Ferreira ficou sem energia por seis dias, por conta do tornado que passou a cerca de 50 metros da casa da família: ” Tinha previsão de temporal, mas não sabia que viraria um tornado” – Foto: Divulgação
O fenômeno derrubou árvores no entorno da propriedade e revolveu o solo em três pontos de uma área destinada ao plantio de soja. Antes da semeadura, o produtor terá de limpar o terreno.
A queda de postes deixou a propriedade sem energia. Para manter o bombeamento de água das quatro granjas, Ferreira precisou recorrer a um gerador. As instalações abrigam 1,5 mil suínos e consomem até 13 mil litros de água por dia.
Sem o funcionamento do sistema automático de alimentação, o trato dos animais também precisou ser feito manualmente. “Eu sempre acompanho a meteorologia. Tinha previsão de temporal, mas não sabia que viraria um tornado', diz.
Depois da experiência, o produtor passou a considerar a contratação de um seguro. O gerador, segundo ele, foi decisivo para evitar perdas ainda maiores. “Se eu não tivesse adquirido o gerador, meu prejuízo teria sido ainda maior', conta.
Eventos extremos já deixaram R$ 1,9 bilhão em prejuízos
O histórico recente mostra que os episódios não são isolados. Nos últimos anos, os eventos climáticos extremos passaram a responder pela maior parte das ocorrências registradas pela Defesa Civil no Paraná.
Em 2025, foram registrados 503 atendimentos relacionados a eventos climáticos extremos em 244
Produtor Juliano Jurisch, de Rio Bonito do Iguaçu (PR): “Nunca imaginei que iria acontecer algo assim [tornado]. Não deu tempo de entrar em casa. Fiquei agachado ao lado da churrasqueira” – Foto: Divulgaçãomunicípios. Os vendavais lideraram, com 241 ocorrências, seguidos por 75 registros de granizo e oito tornados.
Produtor Juliano Jurisch, de Rio Bonito do Iguaçu (PR): “Nunca imaginei que iria acontecer algo assim [tornado]. Não deu tempo de entrar em casa. Fiquei agachado ao lado da churrasqueira” – Foto: Divulgação
Ao todo, os desastres afetaram quase 273 mil pessoas e provocaram R$ 1,9 bilhão em prejuízos. Somente os tornados atingiram 23 mil pessoas e causaram perdas estimadas em R$ 104,5 milhões. Sete municípios decretaram situação de emergência e Rio Bonito do Iguaçu decretou calamidade pública.
Em Rio Bonito, reconstrução ainda não terminou
Entre os produtores que convivem com as consequências de um tornado está Juliano Jurisch, cuja propriedade, localizada a dois quilômetros da área urbana de Rio Bonito do Iguaçu, foi atingida no fim de 2025.
Na época, Jurisch cultivava soja, trigo, feijão, aveia e milho, além de criar peixes para consumo próprio. Também mantinha ovelhas, mas precisou vender o rebanho porque as cercas destruídas pelo tornado ainda não foram totalmente recuperadas.
O prejuízo supera R$ 2,5 milhões. “Nunca imaginei que iria acontecer algo assim [tornado]', diz Jurisch, que cresceu na propriedade.
No dia do temporal, o produtor viu destroços de telhados da cidade se aproximando. “Só avisei minha esposa que se protegesse, que estava vindo tempo feio. Não deu tempo de entrar em casa. Fiquei agachado ao lado da churrasqueira', conta.
Dentro da residência, a esposa levantou uma cama box baú para proteger as duas filhas, de 5 e 9 anos, e a sogra. “Nunca passou pela cabeça que iria destruir a nossa propriedade', lembra.
O tornado atingiu quatro barracões, incluindo a estrutura que abrigava a pré-limpeza de grãos e uma moega com capacidade para 3 mil sacos de sementes. As duas casas de alvenaria da família também foram atingidas.
Nenhuma das estruturas tinha seguro. Caminhão, duas camionetas, carro e trator foram danificados. A estufa de hortaliças, o pomar e as grades dos pátios também foram destruídos. Jurisch perdeu ainda o trigo armazenado na moega e os bags de sementes de soja que estavam preparados para o plantio.
As paredes das casas resistiram, mas os móveis foram danificados pela água e precisaram ser descartados. Durante 30 dias, a família ficou na casa do sogro enquanto retirava os entulhos e reconstruía o que era mais urgente.
Quase um ano depois, a reconstrução segue por etapas. Das casas, resta apenas a reposição das grades dos pátios. Dois dos quatro barracões já receberam nova cobertura, enquanto o galpão da moega está sendo remontado. Os equipamentos de pré-limpeza também precisam ser substituídos, depois de terem sido danificados pela força do tornado. “É dar continuidade nas reconstruções, cuidando da lavoura', resume o produtor.
Mas os efeitos do fenômeno não ficaram apenas nos prejuízos materiais. “Mas os traumas psicológicos vão demorar a passar. A cada chuva, o coração de toda a família dispara', complementa.
Em 2026, sete tornados já foram registrados
Os eventos extremos continuam neste ano. Até o fim de agosto, o Simepar havia registrado 310 ocorrências em 160 municípios. Desse total, 272 estavam relacionadas a eventos climáticos extremos: 102 vendavais, 46 alagamentos, 41 granizos e sete tornados.
Esses eventos atingiram cerca de 160 mil pessoas e provocaram quase R$ 860 milhões em prejuízos.
Os sete tornados registrados em 2026 ocorreram em janeiro, junho e agosto. Juntos, afetaram quase 2 mil pessoas e causaram R$ 12,8 milhões em prejuízos. Piraí do Sul, Reserva e São José dos Pinhais decretaram situação de emergência em razão dos impactos.
Diante desse cenário e da previsão de intensificação do El Niño, o Sistema FAEP reforça a necessidade de combinar monitoramento meteorológico, medidas preventivas e instrumentos de proteção financeira para reduzir a vulnerabilidade das propriedades rurais.
Como registrar os prejuízos
Documentar os danos logo após um evento climático extremo é importante para comprovar perdas e buscar ressarcimento, acionar seguros, renegociar dívidas ou solicitar outros mecanismos de apoio.
As orientações do Sistema Faep são:
• Fotografe e filme os prejuízos antes de limpar o local ou remover qualquer material.
• Procure a Defesa Civil ou a prefeitura para registrar formalmente os danos e solicite o comprovante ou número de protocolo. O documento pode ser exigido por bancos e seguradoras.
• Em caso de seguro, comunique o sinistro imediatamente à seguradora ou ao corretor, por um canal que gere protocolo.
• Se houver financiamento com Proagro, avise o banco e solicite a abertura da Comunicação de Ocorrência de Perdas (COP) antes de destruir restos de lavoura ou iniciar um novo cultivo.
• Dívidas em atraso em razão do desastre podem ter parcelas prorrogadas. O pedido deve ser protocolado por escrito no banco, acompanhado de fotos, vídeos e registro da Defesa Civil.
• Em caso de falta de energia elétrica, comunique a Copel pelo canal exclusivo Copel Agro, no telefone 0800 643 7676 ou pelo WhatsApp (41) 3013-8970. Danos a motores e equipamentos provocados por instabilidade no fornecimento podem ser ressarcidos em até 90 dias.
• Em caso de perda de animais, fotografe, conte e registre o rebanho antes da destinação das carcaças. O produtor deve consultar a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) ou o veterinário responsável sobre o descarte correto.
Como receber alertas e se proteger
Para vendavais e tornados:
• Durante o evento, fique longe de janelas e permaneça no cômodo mais interno da casa, como banheiro ou corredor. Se estiver ao ar livre e sem abrigo, deite-se no chão e proteja a cabeça.
• Depois do evento, nunca toque em fios elétricos caídos. Se sentir cheiro de gás, saia do local e não acenda fósforos, velas ou qualquer outra chama.
Em caso de alagamento e inundação:
• Não atravesse ruas alagadas nem passe por pontes ou pontilhões cobertos pela água.
• Em casa, coloque móveis e eletrodomésticos em locais altos, guarde documentos e medicamentos em sacos plásticos e, se for seguro, desligue energia, água e gás antes de sair.
• Nunca consuma água ou alimentos que tenham tido contato com água de enchente, devido ao risco de leptospirose.
Em caso de granizo:
• Procure abrigo com cobertura resistente e fique longe de janelas. Se estiver em um veículo, pare em local coberto. Na ausência de abrigo, estacione com o pisca-alerta ligado e permaneça dentro do veículo.
Alertas gratuitos
O produtor pode receber alertas meteorológicos gratuitamente por diferentes canais:
Foto: Shutterstock
• SMS: envie uma mensagem para o número 40199 com o CEP da residência. É possível cadastrar mais de um CEP, um por vez. Para cancelar, envie SAIR + CEP.
• WhatsApp: salve o número (61) 2034-4611 e envie “oi'.
• Cell Broadcast: em situações extremas, alertas podem ser enviados diretamente para todos os celulares localizados na área de risco, independentemente de cadastro.
O Sistema Faep também disponibiliza uma ferramenta gratuita para acompanhamento de alertas meteorológicos.






