'Caneta está com a gente”: renúncia em janeiro livrou vice-presidente de prisão

MP pediu, mas Justiça negou pedido de preventiva de Jary Carvalho de Castro

BATANEWS/CGNEWS


Jary Carvalho de Castro deixou a vice-presidência da Santa Casa sete meses antes de pedido de prisão. (Foto: Divulgação)

A renúncia ao cargo de vice-presidente da Santa Casa de Campo Grande, em janeiro deste ano, livrou o engenheiro Jary Carvalho de Castro de ser preso na Operação Antidotum, que investiga fraudes milionárias em contratos. Numa das passagens da investigação, o então vice garante que “a caneta está com a gente', reforçando o poder decisório sobre as contratações. Ele já foi presidente do Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia).

O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) chegou a pedir a decretação da prisão de Jary. Contudo, a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, negou. Para a magistrada, não existem fundamentos contemporâneos que evidenciem a imprescindibilidade da custódia preventiva.

 “No caso específico, é de conhecimento público ter o representado Jary de Castro se desvinculado da administração da Santa Casa em janeiro de 2026, ao passo que a representação pela prisão preventiva foi formulada apenas em agosto de 2026. Assim, transcorridos aproximadamente sete meses do rompimento de sua vinculação com a entidade, não foram apresentados elementos concretos demonstrando permanecer o investigado exercendo influência sobre a atual gestão, dispor de acesso à estrutura administrativa da instituição ou manter possibilidade efetiva de interferir na produção probatória'.

Conforme a decisão que autorizou a operação, nesse contexto, a perda do vínculo funcional e administrativo com a Santa Casa enfraquece significativamente os fundamentos relacionados ao risco de reiteração delitiva e à possibilidade de embaraço às investigações, sobretudo diante da ausência de fatos posteriores que indiquem atuação do representado na manutenção ou continuidade das condutas investigadas.

Segundo a magistrada, a prisão preventiva não pode ser utilizada como antecipação de pena nem ser amparada exclusivamente na gravidade abstrata dos delitos imputados, exigindo-se a demonstração de perigo concreto e atual decorrente da liberdade do investigado.

 No relatório da operação, Jary de Castro é relacionado a contrato com a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda para digitalizar prontuários. Para o Ministério Público, a contratação, formalizada em 29 de outubro de 2024, foi sem estudos técnicos, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem.

A investigação aponta que o contrato ainda recebeu termo aditivo para ficar mais favorável a Redvalue. A mudança reduziria de três milhões para um milhão a quantidade mensal de páginas, triplicaria o preço unitário e preservaria a remuneração máxima mensal da empresa.

“A relação de poder existente entre os dirigentes internos e o empresário aparece de forma inequívoca em diálogo no qual Maurício Benites relata resistência de funcionária da instituição à implantação pretendida. A resposta de Jary Castro não foi de submissão da questão aos setores técnicos ou de fiscalização. Ao contrário, tranquilizou o empresário afirmando expressamente que ‘a caneta está com a gente'', diz o relatório.

Maurício Aparecido Benites é dirigente da Redvalue e foi preso. Conforme a apuração, a expressão utilizada por Jary sintetiza o funcionamento e o poder da organização criminosa na Santa Casa, pois eventuais resistências técnicas internas não representavam obstáculo porque o poder decisório permanecia concentrado no grupo que comandava a instituição.

Para o MPMS, o diálogo demonstra domínio sobre a estrutura administrativa e segurança de que as decisões necessárias à contratação seriam impostas internamente, independentemente da oposição dos setores técnicos.

“Além disso, elemento atribuído a Jary Carvalho de Castro apresenta-se bastante expressivo, o qual, segundo os dados telemáticos encaminhados, em áudio, a Maurício Benites, teria tratado diretamente da impossibilidade de pagamento imediato de R$ 1,8 milhão em razão da fiscalização existente, indicando que ajustaria com Rinaldo Romano a divisão dos pagamentos em parcelas, circunstância que, em princípio, confere suporte concreto à hipótese de que a liberação dos recursos era objeto de tratativas pessoais entre agentes internos e o empresário beneficiário, e não consequência automática de regular medição e comprovação da prestação contratual'.

O modelo de pagamento do contrato foi explicado por áudio em 8 de abril de 2025. Jary esclareceu que o pagamento não poderia ser feito de uma única vez.  Rinaldo Romano era diretor administrativo-financeiro e gestor do contrato.

Ao todo, a empresa recebeu R$ 2,1 milhões, mas deveria ter embolsado apenas R$ 190.934,75.

Novos contratos – Para o MPMS, o modelo de fraude seria ampliado para novos contratos. Em 22 de maio de 2025, Rinaldo comunicou a Maurício que Alir Terra Lima (presidente da Santa Casa) solicitara sua presença na reunião da diretoria. E, de forma mais reveladora, informou que “já está aprovado os quatro sistemas'. Embora a apresentação formal à presidente ainda fosse acontecer.

“Primeiro os integrantes ajustavam entre si o negócio, definiam sua aprovação e comunicavam o resultado ao empresário beneficiado. Depois promoviam os atos internos necessários para conferir aparência formal à decisão já tomada. Foi assim na contratação da Redvalue, repetiu-se no termo aditivo e voltou a ocorrer na preparação de nova contratação de sistemas'.

A operação foi deflagrada na sexta-feira (dia 11) pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).

Defesas - O advogado Fábio Leandro, que representa Maurício Aparecido Benites, afirma que vai fazer a defesa em juízo. Contudo, ele ressalta que Ministério Público aponta valores totalmente equivocados  que sequer foram recebidos pela contratada.

“Para se ter uma ideia, a Santa Casa não pagou nenhuma nota dos serviços prestados em 2026, ou seja, mais 8 meses de atraso. Assim, tudo será juntado no processo contrapondo a investigação do Ministério Público'.

A defesa de Alir Terra Lima contesta a prisão. “Vamos esclarecer todos os pontos que envolvem ela e demonstrar ao Juízo que não há motivos para mantê-la presa', disse o advogado Murilo Marques ao Campo Grande News, no dia da operação.

Em nota, a Santa Casa informou que está atendendo às autoridades responsáveis pela operação e permanece à disposição para fornecer informações e esclarecimentos.

A reportagem não conseguiu contato com Jary Castro e Rinaldo Romano nesta segunda-feira (dia 14).