O hormônio que faltava: doença silenciosa que rouba cálcio do corpo ganha tratamento no Brasil

Anvisa aprova a primeira reposição hormonal para o hipoparatireoidismo, doença que era órfã de terapias no país

BATANEWS/VEJA


Paratireoide: glândulas que participam da orquestra hormonal (Ilustração: Science Photo Library/Getty Images)

Imagine uma orquestra em que todos os instrumentos têm regente, menos um. Durante décadas, a endocrinologia aprendeu a repor quase todos os hormônios que faltam ao corpo: insulina no diabetes, tiroxina no hipotireoidismo, cortisol na insuficiência adrenal, hormônio de crescimento, hormônios sexuais. Só uma glândula seguia sem um substituto à altura — a paratireoide. Essa lacuna acaba de se fechar no Brasil.

A Anvisa aprovou a palopegteriparatida (nome comercial Yorvipath), a primeira terapia de reposição do paratormônio (PTH) autorizada no país para adultos com hipoparatireoidismo crônico.

É um marco silencioso, mas histórico: a última grande deficiência hormonal da endocrinologia passa a ter, enfim, um tratamento que devolve o hormônio ausente — e não apenas remédios que tentam compensar sua falta.

Um ponto de atenção desde já: o medicamento ainda não está nas farmácias. Depois do registro, o preço precisa ser avaliado e definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A chegada às prateleiras virá só após essa etapa.

Hipoparatireoidismo: uma doença invisível

O hipoparatireoidismo é raro e pouco conhecido. Nele, as paratireoides — quatro glândulas do tamanho de grãos de arroz, atrás da tireoide — produzem pouco ou nenhum PTH, o hormônio que rege o equilíbrio do cálcio no sangue. A causa mais comum é a retirada acidental dessas glândulas em cirurgias da tireoide.

Sem PTH, o cálcio despenca e o fósforo sobe, o que provoca formigamentos, câimbras, fadiga, névoa mental e, nos casos graves, convulsões e arritmias.

Até agora, o tratamento se apoiava em altas doses de cálcio e de vitamina D ativa. Ajuda, mas não corrige a origem do problema. Pior: esse esquema tende a lançar cálcio em excesso na urina, favorecendo pedras nos rins e, com os anos, perda de função renal. Muitos pacientes convivem com dezenas de comprimidos por dia e uma qualidade de vida corroída.

O novo tratamento hormonal

A palopegteriparatida é uma forma inteligente do próprio PTH. O medicamento carrega um fragmento ativo do hormônio — o chamado PTH 1-34 — preso a um carreador inerte por um conector especial, a tecnologia TransCon. Nessa forma acoplada, trata-se de um pró-fármaco: a molécula fica praticamente inativa enquanto está ligada.

Depois de aplicada, sob a temperatura e o pH do corpo, o conector se rompe sozinho, aos poucos, liberando o hormônio ativo de maneira lenta e contínua ao longo das 24 horas.

É como trocar um jato que enche o copo de uma vez por uma torneira que goteja no ritmo certo: reproduz a liberação natural da paratireoide e evita os picos e as quedas bruscas de cálcio. Aplicada uma vez ao dia, via subcutânea como insulina ou as canetas antiobesidade, ela mira a causa, não apenas o sintoma — repõe o hormônio que falta em vez de apenas empurrar cálcio de fora para dentro.

Nos estudos que sustentaram a aprovação, os resultados foram consistentes. Em 52 semanas, cerca de 8 em cada 10 pacientes alcançaram cálcio normal sem depender da vitamina D ativa, e praticamente todos abandonaram as altas doses de cálcio. A perda de cálcio pela urina voltou ao normal — um alívio para os rins. Sintomas, disposição e qualidade de vida melhoraram de modo sustentado.

Não é milagre, e convém dizê-lo. Como todo medicamento, tem efeitos adversos. Os mais comuns foram reações no local da injeção, elevações transitórias do cálcio (sobretudo no início, durante o ajuste da dose), náusea e dor de cabeça. A maioria foi leve a moderada, e a correção da dose costuma contornar os picos de cálcio. Acompanhamento médico próximo, com exames periódicos, é indispensável.

Um caminho já trilhado lá fora

O Brasil não inaugura essa história. O remédio já foi aprovado e vem sendo usado em outras partes do mundo: nos Estados Unidos, onde está disponível desde o fim de 2024; na União Europeia, com lançamento em países como Alemanha e Áustria; no Canadá; e no Japão. A autorização nacional alinha o país a esse movimento e amplia o horizonte de quem, até aqui, tinha poucas saídas.

Para quem vive com hipoparatireoidismo, a notícia tem peso concreto. Não se trata de mais um medicamento, e sim da chance de tratar a doença pela raiz — repondo o hormônio que faltava. Fechar essa lacuna era, para a endocrinologia, uma dívida antiga. Felizmente, ela será sanada em breve.