Lula e Flávio Bolsonaro agora estimulam guerrilha religiosa no palanque

Já acirrou a crise no STF com reflexos Justiça Eleitoral. E ameaça arrastar lideranças católicas e protestantes num embate bizarro

VEJA / JOSé CASADO SEGUIR SEGUINDO


Lula e Flávio Bolsonaro — (Marcelo Camargo/Agência Brasil/Ton Molina/Agência Senado/Divulgação)

Donald Trump e Xi Jinping atravessaram a última semana empenhados em encontrar a trilha mais rápida e segura para que americanos e chineses desfrutem das benesses da liderança na nova etapa do capitalismo, a era da Inteligência Artificial.

Lula e Flávio Bolsonaro, favoritos na disputa pela presidência da República, estão há cinco dias gastando tempo e energia numa discussão bizantina, que revela muito sobre os desertos de ideias onde cultivam suas candidaturas.

Desde quinta-feira (24/9), eles discutem se Nossa Senhora Aparecida deve continuar no altar de padroeira nacional, ser substituída por Cristo ou ficar restrita à proteção do Brasil católico.

Lula e Flávio Bolsonaro passaram a estimular uma guerrilha religiosa no palanque. Ou seja, resolveram se devotar à manipulação eleitoreira de símbolos religiosos apenas para reafirmar a rejeição ao adversário.

Na prática, oferecem mais do mesmo cardápio que servem há oito anos: votar em Lula para impedir Bolsonaro, votar em Bolsonaro para impedir Lula. Nas pesquisas, empatam na rejeição de metade do eleitorado.

Faltam seis dias para o primeiro turno eleitoral e, até hoje, não se sabe o que eles pensam e querem, quais são as propostas comuns e eventuais divergências sobre a condução do país nesse novo ciclo capitalista.

Não são conhecidas as ideias de Lula nem de Flávio Bolsonaro sobre as mudanças necessárias nos padrões de educação, saúde, segurança pública, produção e de investimento para a travessia de 214 milhões de brasileiros na revolução tecnológica que já começou. Não conseguiram ir além dos bordões da marquetagem sobre questões fundamentais ao futuro.

Eles se escolheram adversários preferenciais e, nos últimos nove meses, conseguiram manter o favoritismo a bordo de discursos vagos, numa fuga constante da comparação pública de biografias, de propostas, do escrutínio do oponente sobre os respectivos planos sob o olhar do eleitorado. Temem o confronto, admitem assessores. Por isso, a desistência dos debates.

Lula e Flávio Bolsonaro estão, literalmente, empurrando o Estado laico para uma espécie de guerrilha político-religiosa, por razões restritas aos seus interesses eleitorais.

Já serviu de pretexto ao acirramento da crise entre juízes do Supremo Tribunal Federal, com reflexos diretos nas decisões do Tribunal Superior Eleitoral, guardião da eleições.

Agora, ameaça arrastar lideranças católicas e protestantes num embate bizarro sobre quem deve ocupar o padroado nacional — a mãe (N. Senhora) ou o filho (Cristo).

É manobra de alto risco para distrair do problema central, a escassez de ideias sobre o futuro dos brasileiros.