Saúde
À caça do diabetes tipo 1: doença pode ser descoberta anos antes dos sintomas
Especialistas recomendam rastrear o problema para antecipar diagnóstico - hoje é possível adiar doença com tratamento
BATANEWS/VEJA
Durante quase um século, o diabetes tipo 1 teve o hábito cruel de chegar pela porta dos fundos. Uma criança começa a beber água sem parar, a fazer xixi na cama, a emagrecer sem motivo. Os pais acham que é uma virose, uma fase. Até que, numa madrugada, ela chega ao pronto-socorro sonolenta, respirando com dificuldade, com o sangue ácido. É a cetoacidose diabética, complicação grave que ainda hoje marca o diagnóstico de 20% a 67% das crianças e adolescentes no mundo. Um terço delas precisa ir para a unidade de terapia intensiva.
Mas essa cena pode ficar no passado. E o recado veio de um dos palcos mais importantes da medicina.
Um consenso internacional publicado neste mês na revista científica Diabetologia, e que foi um dos destaques do Congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão, recomenda algo que parecia distante: rastrear a população geral para identificar o diabetes tipo 1 anos antes dos primeiros sintomas.
O documento reúne especialistas de vários países e tem o endosso de mais de vinte entidades, entre elas a própria associação europeia e a Federação Internacional de Diabetes.
A lógica é simples. O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune: o sistema de defesa passa a atacar, por engano, as células do pâncreas que fabricam insulina. Esse ataque é silencioso e deixa rastros no sangue, os autoanticorpos. Quando dois ou mais deles aparecem, a doença já começou, ainda que a glicose esteja normal. É o chamado estágio 1. No estágio 2, o açúcar no sangue começa a oscilar. Só no estágio 3 surgem os sintomas e a necessidade de insulina.
Um detalhe torna o rastreamento universal indispensável: mais de 85% das pessoas que recebem o diagnóstico não têm nenhum parente com a doença. Testar apenas famílias de risco é olhar para uma fresta e ignorar a janela.
As vantagens de enxergar antes
Os números impressionam. Crianças identificadas precocemente e acompanhadas chegam ao diagnóstico clínico com taxas de cetoacidose abaixo de 5%. Na Alemanha, um programa populacional registrou 3,2%, contra 21% a 36% no restante do país. Nos Estados Unidos, um centro relatou 4,9% entre crianças monitoradas, diante de 48,5% na população da região.
Mas o benefício vai além de evitar a UTI. A família tem tempo para aprender, se preparar, fazer o que os especialistas chamam de “pouso suave”. A insulina pode começar no consultório, sem drama. Quem é diagnosticado mais cedo tende a preservar por mais tempo a produção residual de insulina e a ter melhor controle da glicose nos anos seguintes. E há, agora, uma razão ainda mais forte: pela primeira vez, existe um remédio capaz de adiar a doença.
O consenso também é honesto sobre os riscos. Um resultado positivo pode gerar ansiedade, e alguns falsos positivos precisam ser evitados com exames confirmatórios. Por isso, rastrear sem acompanhar não basta: o diagnóstico precoce precisa vir junto de orientação e seguimento.
No Brasil, poucos fazem esse rastreamento. Os exames de autoanticorpos existem nos laboratórios, mas raramente são pedidos, e não há um programa estruturado no país. Seguimos descobrindo a doença, na maioria das vezes, da pior maneira.
Um freio para a autoimunidade
Em março deste ano, a Anvisa aprovou o teplizumabe, o primeiro medicamento capaz de retardar o diabetes tipo 1 no Brasil. Trata-se de um tratamento que modula o sistema imunológico, ou seja, que “reeduca” parte das células de defesa responsáveis pelo ataque ao pâncreas. Ele é indicado para pessoas a partir de 8 anos que já estão no estágio 2, justamente aquelas que só podem ser encontradas por meio do rastreamento.
A aplicação é na veia, em infusões diárias durante 14 dias consecutivos, feitas em ambiente de saúde. No estudo que levou à aprovação do remédio, o teplizumabe adiou o início da necessidade de insulina em cerca de dois anos. Em números absolutos, 43% dos tratados desenvolveram a forma clínica da doença no período de acompanhamento, contra 72% no grupo placebo.
Dois anos podem parecer pouco. Não são. Para uma criança, significam atravessar uma fase inteira da vida sem picadas diárias, sem contagem de carboidratos, sem o medo das hipoglicemias noturnas.
O obstáculo é o preço. No estado de São Paulo, cada ampola custa cerca de 80 mil reais, e o valor varia de estado para estado. Como o tratamento completo exige várias ampolas (cerca de 14), o custo ainda é uma barreira para a maioria das famílias e um desafio real para o sistema de saúde. É um problema que precisa ser enfrentado, e não ignorado.