Mais forte que o Mounjaro? O desempenho da retatrutida em pessoas com diabetes

Em estudo, caneta de tripla ação reduz cerca de 20% do peso corporal e deixa 4 em cada 10 pacientes com glicose normal

BATANEWS/VEJA


Retatrutida e diabetes: expectativa de nova caneta no arsenal terapêutico (//Getty Images)

Quem convive com obesidade e diabetes tipo 2 conhece uma diferença silenciosa: os remédios antiobesidade funcionam, mas funcionam menos.

Nos grandes estudos com Ozempic, Wegovy e Mounjaro, pacientes com diabetes perdem menos peso do que pessoas sem a doença. É como se o corpo, depois de anos de glicose alta e resistência à insulina, se agarrasse com mais força a cada quilo.

Mas um estudo publicado na revista The Lancet e apresentado no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão, sugere que esse teto pode estar começando a ceder.

A protagonista é a retatrutida, molécula experimental da farmacêutica Eli Lilly. Ela é chamada de “agonista triplo” porque imita três hormônios de uma só vez.

Dois deles já são velhos conhecidos: o GLP-1, alvo da semaglutida, e o GIP, que a tirzepatida acrescentou ao jogo. Ambos reduzem o apetite e ajudam o pâncreas a controlar o açúcar no sangue. A novidade é o terceiro: o glucagon, hormônio que, entre outras funções, parece estimular o gasto de energia e a queima de gordura no fígado.

O ensaio da vez, chamado TRIUMPH-2, acompanhou por 80 semanas 1.152 adultos de oito países, incluindo o Brasil, com peso médio de 106 quilos, obesidade havia cerca de 21 anos e diabetes havia quase seis. Por sorteio, receberam uma injeção semanal de placebo ou de retatrutida (4, 9 ou 12 miligramas).

Estudos desse tipo costumam ter duas leituras. A primeira inclui todos os sorteados, mesmo quem abandonou o tratamento no meio do caminho. A segunda, chamada pelos pesquisadores de “estimativa de eficácia”, mostra o efeito em quem seguiu o tratamento como prescrito. É a resposta para a pergunta que interessa ao paciente: se eu usar direitinho, o que posso esperar?

Interessante que o objetivo primordial deste estudo não foi o controle da glicose, mas sim a redução do peso.

Nesse grupo de participantes, a perda média de peso foi de 12,7% com 4 mg, 19,1% com 9 mg e 20,8% com 12 mg, contra 4% no placebo. Na dose máxima, são cerca de 22 quilos a menos para uma pessoa de 106 quilos. Entre os participantes com maior grau de obesidade a queda chegou a 23,4%.

As metas de peso ajudam a dimensionar o efeito. Com 12 mg, 82% perderam ao menos 10% do peso (contra 16% no placebo), 67% passaram de 15% (contra 6%), 52% ultrapassaram 20% (contra 2%) e 35% perderam um quarto ou mais do peso inicial, contra 1% no placebo. É uma faixa que, até pouco tempo, só a cirurgia bariátrica alcançava.

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O açúcar volta ao normal

A hemoglobina glicada, exame que reflete a média de açúcar no sangue dos últimos três meses, partiu de 7,7% e caiu 1,4 ponto com 4 mg, 1,6 com 9 mg e 1,5 com 12 mg, contra apenas 0,2 no placebo. Com a dose mais alta, 86% terminaram abaixo de 7%, a meta clássica do tratamento, e 79% chegaram a 6,5% ou menos (contra 36% e 26% no placebo).

O dado mais eloquente é outro: cerca de 40% dos pacientes nas doses de 9 e 12 mg alcançaram glicada abaixo de 5,7%, faixa de quem não tem diabetes. No placebo, foram 4%. Mas atenção: isso não significa cura, pois o valor depende do uso contínuo do remédio, mas mostra quanto a doença recuou.

Os demais números acompanharam. A medida da circunferência abdominal reduziu 17 centímetros, apressão sistólica, a “máxima”, recuou 11 mmHg, os triglicérides caíram quase 40% e o colesterol não-HDL, que reúne as frações que favorecem o entupimento das artérias, 20% (contra 4%). A proteína C reativa, marcador de inflamação, caiu mais da metade.

O preço da potência

Nenhum remédio é só benefício. Os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais: diarreia em cerca de um terço dos pacientes nas doses mais altas (contra 13% no placebo) e náusea em até 28% (contra 8%). Um efeito menos habitual chamou atenção: a disestesia, sensação de ardor ou desconforto na pele, relatada por até 7% dos pacientes, sem casos graves. Houve três casos de pancreatite, todos entre os que recebiam retatrutida. E o abandono do tratamento por efeitos adversos chegou a 12% na dose intermediária, mais que o dobro do placebo.

O que ainda não sabemos

É preciso olhar o estudo com lupa. Ele comparou a retatrutida a placebo, não à tirzepatida ou à semaglutida; qualquer ranking entre elas, por ora, é por comparação indireta.

Para comparação indireta, a tirzepatida produziu 14,7% de perda de peso em estudo semelhante com pessoas com diabetes tipo 2. A própria retatrutida, em pessoas sem diabetes, alcançou 28,3% no estudo TRIUMPH-1 — o que confirma que a doença continua impondo resistência, ainda que menor.

Vale um destaque aqui: a retatrutida ainda não está aprovada em nenhum país, incluindo o Brasil. Qualquer frasco vendido hoje com esse nome pela internet ou em “clínicas” é produto sem registro na Anvisa, sem garantia de conteúdo ou pureza — e um risco real à saúde. Ainda não há previsão de lançamento no Brasil nem em outros países do mundo.