A obesidade e o país das maravilhas que poucos conseguem alcançar

Para milhões de brasileiros, encontrar o tratamento adequado para a obesidade é tão difícil quanto encontrar a toca do coelho em um país de portas pequenas

BATANEWS/VEJA


Obesidade: doença é altamente complexa e envolve muitas variáveis, incluindo fome, saciedade e doenças associadas (Reprodução/Getty Images)

Essa maravilhosa fábula do século 19 do escritor inglês Lewiss Caroll, Alice no País das Maravilhas, descreve os conflitos de uma criança que está para entrar na fase adulta e vivencia seus sonhos em uma viagem a um mundo encantado.

O paciente portador de obesidade busca diariamente o enredo de um corpo mais funcional e sem doenças, mas dificilmente encontra o coelho branco e a toca do seu tratamento.

A doença é altamente complexa e envolve muitas variáveis, incluindo fome, saciedade e doenças associadas. Predisposições genéticas, hábitos e influências do ambiente, além de condições econômicas, podem ser fatores determinantes para que esses personagens/pacientes consigam encontrar o caminho.

Há também as questões psicológicas que, em muitos casos, levam o paciente a desistir antes mesmo de pensar em encontrar o coelho branco.

Assim como na história fictícia, os que conseguem entrar nessa toca terão como resultado a diminuição do tamanho/peso e depois entrarão nos seus desafios e sonhos. Mas a realidade fora da fábula é bem diferente.

O tratamento do portador da obesidade mórbida é individual, pertence a um só nome: Alice, Maria, João e milhões de outros. Não é nem deve ser

generalizado. A lógica e as condutas médicas já são bem definidas, mas as portas pequenas demais mostram um mundo que não comporta a todos.

De maneira geral, até uma criança poderia descrever as etapas para perder peso: dieta saudável com verduras, legumes, peixes, frangos e carnes com pouca gordura, medicamentos com resultado comprovado, como as “canetas emagrecedoras”, além de atividade física orientada e suplementações nutricionais adequadas com exames regulares.

O acompanhamento psicológico também entra nessa lista. E, em casos extremos, pode ser necessário cirurgia e outros procedimentos.

Mas a Rainha de Copas entra na história com uma voz punitiva, social ou interna, que sentencia antes de compreender.

Em um país como o Brasil, essa toca está bem escondida. A maior parte da população não tem a menor condição de trilhar esse caminho, pois mal tem acesso ao sistema de saúde. Dietas são caras e perecíveis e tomam tempo no seu preparo, levando ao consumo de ultraprocessados que duram mais, estão prontos e são baratos.

Apesar de sermos um país autossuficiente em alimentos e com uma enorme costa para pesca, as taxações impostas pelo governo tornam impossível para a maior parte da população ter acesso a carnes nobres e peixes em sua mesa.

As canetas ainda atingem uma quantidade pequena de Alices, não só pelo preço que é super taxado, como também pela falta de informação e compreensão de como utilizá-las. Temos que lembrar que boa parte da população ainda tem muito pouco acesso à boa educação.

Atividade física, principalmente se envolver a contratação de um profissional, está longe de ser a prioridade de quem trabalha o dia todo e enfrenta o obsoleto sistema de transporte brasileiro.

Suplementos, vitaminas e a consulta com os “coelhinhos” da nutrição e psicologia envolvem custos e tempo, o que a maioria dos empregadores do nosso país não entendem como tratamento, bem como a saída com frequência para os exames de controle.

Conseguir entrar na toca das cirurgias é, então, como achar uma agulha em um palheiro. Não há tocas nem para 5% das Alices.

O coelhinho branco com seu relógio acaba aparecendo para aqueles que podem comprar um relógio e, aí sim, irão vivenciar esse país das maravilhas, que não é o Brasil da maioria. Vão diminuir de tamanho e, de vez em quando, aumentar/reengordar, como um corpo que passa a determinar como a pessoa ocupa o mundo.

Assim como na fábula, é importante conhecer as regras do tratamento da obesidade. Isso os fará amadurecer e entender a doença e suas consequências. Elas podem parecer arbitrárias e às vezes irracionais, mas são necessárias para entrar na fase adulta, quer dizer, controlar a doença.

Por fim, a diferença entre quem pode ou não se tratar determina o saber para onde ir. No famoso diálogo entre Alice e o emblemático Gato de Chesire, a história lembra: “para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve”.