Às vésperas do segundo turno, Lula parte para o ‘tudo ou nada’ com pacote de ações eleitoreiras

Petista recebe ajuda de instituições públicas para proteger o governo de acusações de corrupção, enquanto apoiadores inundam a internet com notícias falsas

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SALDO AMARGO - Lula: medidas tomadas no ano do pleito terão um impacto fiscal de 350 bilhões de reais (Wagner Araujo/Fotoarena/Ag. O Globo/.)

Uma das características mais conhecidas do PT é a capacidade de mobilizar a militância, formada em sua maioria por estudantes, funcionários públicos e sindicalistas. No primeiro turno, talvez acreditando que a reeleição de Lula estava bem encaminhada, não se viram grandes manifestações, passeatas e carreatas. Com a possibilidade de derrota no horizonte do segundo turno, no entanto, os petistas foram convocados a sair às ruas — e responderam. No domingo 11, 260 000 pessoas lotaram a Avenida Paulista. No dia seguinte, a concentração foi em Copacabana. Eventos menores se repetiram em várias capitais durante a semana. Os petistas sabem que esses atos podem até converter alguns votos, mas não o suficiente para uma virada. As pesquisas indicam que Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro, com vantagem numérica para o candidato oposicionista. Estima-se que o presidente precisa atrair no mínimo 6,5 milhões de novos eleitores até o dia 25 de outubro para conquistar o quarto mandato. A tarefa é difícil. Talvez por isso, a estratégia para tentar atingir esse objetivo tem obedecido a pouquíssimos limites.

O presidente Lula, por exemplo, tem feito tudo o que está a seu alcance em prol do candidato Lula. Na terça-feira 13, o presidente anunciou um pacote voltado para os microempreendedores individuais (MEIs) que prevê o perdão de dívidas tributárias e a distribuição de recursos. As medidas não escondem o viés eleitoreiro. Existem no país cerca de 17 milhões de trabalhadores autônomos. Destes, mais de 3,5 milhões devem algum tipo de imposto à União. Para evitar o risco de desagradar aos outros 14 milhões de MEIs que pagaram os impostos corretamente, Lula anunciou também que o governo vai mandar um Pix de 5 000 reais a todos os microempreendedores. A equação política é elementar. “Nós vamos ajudar vocês a saírem do sufoco. Vamos dar oxigênio para vocês não morrerem asfixiados”, disse o candidato na solenidade. O pacote, batizado de Prospera MEI, vai custar 17 bilhões de reais aos cofres públicos e, por questões legais, somente poderá ser implementado a partir de 2027. A mensagem implícita é a seguinte: a promessa de perdão das dívidas e de um dinheirinho na conta só vai se concretizar se Lula for reeleito.

A pouco mais de uma semana do segundo turno, esse vale-tudo não é novidade, nem tampouco uma exclusividade de Lula. Em busca da reeleição, incumbentes costumam lançar mão de medidas eleitoreiras. Dilma Rousseff turbinou sua campanha com anúncios de correção da tabela do imposto de renda e de reajuste do Bolsa Família, enquanto Jair Bolsonaro conteve a desaprovação a seu governo, entre outras medidas, com pagamentos excepcionais a taxistas e caminhoneiros. Lula, além de prometer benefícios aos microempreendedores, foi às redes sociais comunicar que pretende criar o programa Pé-de-Meia para universitários. O governo — caso ele seja reeleito — vai depositar 700 reais na conta dos estudantes durante dez meses e mais 2 500 reais no final do ano. “Como o curso é de quatro anos, quatro vezes 2 500 dá 10 000. Quando ele se formar vai ter 10 000 para começar a sua iniciação profissional”, explicou o candidato. A poupança valerá para alunos das universidades federais, estaduais e do ProUni — beneficiando algo em torno de 1 milhão de jovens eleitores.

O pacote de bondades já chega a 350 bilhões de reais em termos de impacto fiscal, segundo especialistas. Na quarta-feira 14, o Senado aprovou a emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O fim da escala 6×1 é um tema de forte apelo popular. Antes disso, o presidente já havia anunciado a ampliação dos subsídios para os combustíveis, prometido distribuir canetas emagrecedoras, reajustado o Bolsa Família, aberto linhas de crédito para motoristas de aplicativos e renegociado dívidas de famílias inadimplentes. As medidas atingem um enorme contingente de pessoas, mas isso não quer dizer que todos os motoboys, motoristas, universitários e microempreendedores vão automaticamente votar no candidato.

O plano do PT é manter os votos já conquistados, tirar o que for possível de Flávio Bolsonaro e atrair eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. Há estratégias bem definidas para atuar sobre cada uma dessas áreas — algumas seguindo as regras da civilidade, outras nem tanto.

A ação prevista sobre os evangélicos é um bom exemplo. As pesquisas indicam que a maioria desse segmento vota em Flávio Bolsonaro. Os petistas sabem que é praticamente impossível reverter essa tendência. A tática é tentar mostrar que se Lula não merece esse apoio, Flávio também não. Na terça-feira 13, o advogado-geral da União, Jorge Messias, a senadora Eliziane Gama (PT-MA) e parlamentares ligados a segmentos religiosos se reuniram em Brasília para traçar um plano para arregimentar votos para Lula e mitigar o apoio ao senador. Eles analisaram números, refletiram sobre percepções captadas por pesquisas qualitativas e projetaram ações nas franjas do eleitorado que resiste a votar no petista.

Pelo planejamento, uma porta-voz escolhida passaria a direcionar mensagens a um grupo de influenciadores digitais previamente recrutados, que seriam instados a “bater nas pautas do Flávio”. O trabalho começaria com a tentativa de viralizar a declaração do candidato oposicionista de que poderia “mudar a Constituição”. Essa orientação, porém, será difundida entre os evangélicos de forma dissimulada. “Sem ameaça nem promessa de castigo ou recompensa espiritual pelo voto”, ressalta um documento obtido por VEJA, que destaca também a necessidade de não deixar as digitais do presidente Lula na ofensiva. “Quem fala: a porta-voz e os influenciadores do próprio segmento, em primeira pessoa. Nunca a campanha nem o candidato”, diz um trecho. No dia seguinte à reunião, foi divulgada uma carta de Lula, dirigida às “famílias evangélicas”, em que sugeriu, em tom cordial, que os religiosos pedissem “discernimento a Deus” no dia da eleição. Até onde se sabe, o que foi tratado na reunião não cruzou a linha da legalidade ou da civilidade — e nem precisava. Essa tarefa cabe a outro setor da campanha.

Nos últimos dias, parlamentares e apoiadores petistas publicaram mensagens insinuando, entre outras coisas, que Flávio Bolsonaro privatizaria o SUS, acabaria com o Bolsa Família e com o Pix e retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A polêmica em torno desse último tema começou antes do primeiro turno e se transformou em uma batalha judicial. O PL acusa o PT de estar por trás dessa e de outras fake news, particularmente as difundidas por um canal no WhatsApp intitulado Exército do Lula, pilotado pelo deputado federal André Janones (Rede-­MG). O canal chegou a ser tirado do ar por determinação do Tribunal Superior Eleitoral. “Uma coisa é você punir fake news, outra coisa é você impedir, coibir que a sociedade se organize por meio das redes sociais”, protestou Edinho Silva, coordenador da campanha petista, em uma reunião com os ministros do TSE.

A única novidade dessa estratégia de desinformação é que ela se dá via redes sociais. Os métodos usados pelo PT para impulsionar seus candidatos e minar adversários são conhecidos e variam apenas na forma. Em 2006, a Polícia Federal prendeu em São Paulo dois homens com 1,7 milhão de reais em espécie. O dinheiro seria utilizado para comprar um dossiê falso para tentar incriminar o então candidato ao governo de São Paulo José Serra, um potencial adversário de Lula e do PT em 2008. Na época, para se desvencilhar das suspeitas, o presidente chamou os envolvidos de “aloprados”. A ex-ministra Marina Silva também já sentiu na pele o que pode acontecer quando se está do lado oposto. Em 2014, ela disputava a eleição presidencial contra Dilma Rousseff e ameaçava a hegemonia da petista no primeiro turno. “Como eu era evangélica, eu ia acabar com o Círio de Nazaré. Como eu era de outra força política, não ia ter mais Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida. Não ia ter mais nada. Eu não era uma candidata, era uma exterminadora do futuro”, disse Marina. Depois, ela se reconciliou com o PT.

Até quinta-feira 15, o TSE já havia sido acionado mais de 160 vezes para arbitrar reclamações de ambas as candidaturas. Uma delas foi feita contra a Editora Abril, que publica VEJA. Uma reportagem da última edição revelou detalhes das primeiras confissões de Daniel Vorcaro. O ex-dono do Banco Master registrou em um áudio e em documentos obtidos pela revista informações sobre o repasse de 30 milhões de reais, “por fora”, para custear um filme sobre o presidente Lula e mais uma verba não revelada para o Instituto Lula. O dinheiro, segundo ele, foi uma exigência de assessores do mandatário para facilitar negócios dele com fundos de pensão de empresas estatais.

As suspeitas de participação nesse esquema atingem o ex-tesoureiro do PT João Vaccari, o ministro Alexandre Padilha e, por tabela, o próprio presidente Lula — todos negaram envolvimento no caso. Vorcaro diz que tem como confirmar tudo e se ofereceu para fazer uma delação premiada. Em troca de benefícios, ele se comprometia a contar detalhes da história à Procuradoria-Geral da República, que, no entanto, descartou a colaboração sob a justificativa de que não haveria provas. Os telefones de Daniel Vorcaro contendo as mensagens que mostram a negociação da propina estão em poder dos investigadores há meses, mas a apuração foi interrompida depois que acusações contra ministros do STF por envolvimento com Vorcaro geraram uma crise no Supremo.

A capa de VEJA com as revelações de Vorcaro gerou uma ação imediata de algumas instituições públicas. Depois da publicação da reportagem, a PF informou que “Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”. Em nenhum momento, no entanto, VEJA disse que Vorcaro havia dado essas declarações à PF. A nota serviu apenas para confundir. A ofensiva no gabinete de ódio da esquerda não tardou. Uma das fake news espalhadas por essa turma dizia que Fábio Carvalho, chairman e publisher da Editora Abril, responsável por VEJA, havia estado com Flávio Bolsonaro dias antes da publicação da reportagem, em um jantar em São Paulo com outros empresários. Pura mentira. No dia do evento, Carvalho estava fora da cidade. Em uma das publicações feitas no Exército do Lula, Janones orientou a militância a ignorar as informações publicadas por VEJA e o próprio escândalo do Banco Master: “Ninguém quer saber desse assunto, prova disso é que o Flávio não perdeu um único voto com isso, mesmo com o áudio onde ele pede dinheiro pro Vorcaro sendo amplamente divulgado”.

No áudio a que se refere Janones, o candidato do PL pede 134 milhões de reais ao ex-dono do Master para financiar um filme sobre a vida do pai, Jair Bolsonaro, o que, ao contrário de agora, se transformou rapidamente em uma investigação sobre o senador no STF. Em outro flanco, o PT requereu a abertura de uma apuração policial para descobrir quem gravou o banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde março. Recorrer à Justiça faz parte da batalha política limpa, dentro das regras mais elementares de qualquer democracia, mesmo que a motivação, nesse caso, seja questionável. Já mentir, inventar, agredir e tentar desqualificar quem quer que seja pode até render votos, mas a conta sempre aparece em algum momento.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017