Agricultura
Chuvas no Sul ameaçam qualidade do trigo com mais de 40% da safra colhida
Excesso de umidade aumenta o risco de doenças nas espigas e compromete parâmetros exigidos pelos moinhos, enquanto conflitos no Mar Negro afetam o mercado internacional.
BATANEWS/OPR
A colheita de trigo no Brasil avançou para mais de 40%, mas o excesso de umidade no Sul mantém a preocupação com a qualidade do cereal e seus efeitos sobre a indústria moageira. Ao mesmo tempo, as incertezas logísticas provocadas pela escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia aumentaram a volatilidade das cotações internacionais. O cenário combina riscos no abastecimento externo com desafios para a obtenção de trigo dentro dos padrões exigidos pelos moinhos brasileiros.
Segundo o relatório Agro Mensal de outubro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, os preços internacionais oscilaram nos últimos 30 dias. O trigo soft negociado em Chicago encerrou o período a US$ 671 por bushel.
A escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia ampliou as incertezas sobre o escoamento de trigo pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov, regiões relevantes para o comércio mundial do cereal. Embora a Rússia disponha de produto, as dificuldades logísticas passaram a limitar os embarques e contribuíram para elevar os preços em outras origens exportadoras.
Rotas alternativas pelo Mar Báltico ajudaram a corrigir parte das cotações, mas não normalizaram os fluxos comerciais da região. Com isso, as condições logísticas seguiram como um fator de instabilidade para o mercado internacional.
Qualidade preocupa mais que o ritmo da colheita No mercado brasileiro, o principal ponto de atenção está na qualidade do trigo colhido. As chuvas frequentes no Sul favorecem o aparecimento de doenças nas espigas e aumentam as incertezas sobre parâmetros importantes para a indústria, como peso do hectolitro (PH), germinação e força de glúten.
Essas características influenciam a classificação e a aptidão industrial do cereal. Assim, mesmo com o avanço dos trabalhos no campo, as condições climáticas podem comprometer o atendimento às especificações exigidas pelos moinhos.
De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mais de 40% da área de trigo brasileira havia sido colhida até a segunda semana de outubro. O andamento dos trabalhos e as condições das lavouras, porém, variavam entre os estados produtores.
No Rio Grande do Sul, a colheita começava, enquanto a maior parte das lavouras ainda estava nas fases de enchimento de grãos e maturação, decisivas para a produtividade. A combinação de baixa radiação solar e volumes elevados de chuva aumentava o risco de doenças nas espigas.
No Paraná, os trabalhos estavam mais adiantados e a maioria das lavouras apresentava boas condições. Ainda assim, a continuidade da colheita dependia da ocorrência de períodos de tempo seco. Em Santa Catarina, as áreas mais precoces começavam a ser colhidas, mas a umidade elevada também mantinha o risco fitossanitário.
Clima também atrasa trabalhos em São Paulo Em São Paulo, as condições climáticas atrasaram a colheita em relação à safra passada. Já em Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, os trabalhos haviam sido concluídos.
As diferenças regionais reforçam que o percentual colhido, isoladamente, não é suficiente para avaliar o resultado da safra. No Sul, onde a colheita ainda avançava, a sequência de dias úmidos poderia afetar tanto o rendimento das lavouras quanto a qualidade final do grão.
Para a Consultoria Agro do Itaú BBA, o desafio neste momento é garantir que o cereal colhido atenda às exigências da indústria moageira. A evolução do clima nas principais regiões produtoras será determinante para o ritmo da colheita e para a qualidade do trigo que chegará ao mercado.






