Cotidiano
Pets ajudam a tornar a vida de idosos mais ativa e sociável, mas ter um animal exige responsabilidade
BATANEWS/FOLHA
Após a morte súbita da esposa, com quem viveu por três décadas, o escritor Fernando Machado, 83, ficou desorientado. Foi a presença de Brown, seu cachorro, que o ajudou a se adaptar à vida sem a companheira.
O animal foi adotado pelo casal há oito anos. Com Brown, Fernando passou a caminhar mais, fez novas amizades durante os passeios e retomou atividades como os exercícios em casa, as aulas de piano e de canto.
A convivência também o inspirou a escrever 'O Velho e o Cão', um de seus quatro livros publicados. Narrada sob a perspectiva de Brown, a obra acompanha suas experiências em diferentes lares, com humanos e outros animais.
A experiência de Fernando reúne aspectos que pesquisadores têm investigado na relação entre animais de companhia e envelhecimento saudável, como a manutenção da atividade física, dos vínculos sociais e do bem-estar emocional, além de um possível declínio cognitivo mais lento.
Cuidar de um animal pode ajudar a estruturar o dia e estimular atividades que, de outra forma, seriam menos frequentes.
A psicóloga Tatiana Irigaray pesquisa os efeitos da convivência com animais durante o envelhecimento. Ela afirma que fazer atividade física é um dos benefícios que aparecem com mais consistência na literatura científica.
No caso dos cães, os passeios 'podem estimular caminhadas, fazer com que a pessoa saia mais de casa e, ao mesmo tempo, criar oportunidades de encontrar e conversar com outras pessoas', afirma.
A aposentada Luiza Favaro, 62, passeia duas vezes por dia com seus dois cães, Beethoven, 10, e Bolt, 5. 'Sempre tive o hábito de caminhar, mas com a chegada deles isso aumentou bastante. Se tornou um hábito diário, que organiza minha rotina', diz.
Luiza explica que, como os dois dependem dela para sair, os passeios também funcionam como um compromisso fixo, que precisa ser mantido independentemente da disposição ou dos planos do dia.
Fernando conta que Brown costuma atrair a atenção dos moradores de Ribeirão da Ilha, bairro de Florianópolis (SC) em que mora. 'A presença dele abre pequenas conversas, aproxima desconhecidos, desperta simpatia. Muitas amizades e muitos encontros começaram assim, durante uma caminhada', diz.
A convivência também pode contribuir para a manutenção de uma rotina e do envolvimento em atividades sociais, culturais e de lazer.
Em um estudo conduzido pelo grupo de Irigaray, idosos que tinham animais apresentaram resultados mais favoráveis na manutenção dessas atividades do que aqueles sem pets.
Os resultados não significam que todos os tutores se tornem mais ativos ou ampliem suas redes sociais. O efeito depende de como a pessoa se relaciona com o animal e das atividades que essa convivência proporciona.
No caso de Fernando, Brown o ajudou a organizar melhor sua rotina. 'Não apenas por causa dos horários de passeio, alimentação ou cuidado, mas porque a presença dele me tornou mais atento. Passei a pensar melhor antes de sair, calcular o tempo das ausências e considerar, em cada decisão simples, que havia uma vida dependendo de mim', afirma.
A presença de um animal também pode representar companhia e ajudar a lidar com períodos de solidão, associados a maior risco de depressão, declínio cognitivo e morte prematura entre pessoas mais velhas.
Em seu estudo, a equipe de Irigaray encontrou menos sintomas depressivos entre aqueles que tinham animais. 'Mas esse resultado não significa que o animal previne ou trata a depressão', diz a pesquisadora.
Ela afirma que é preciso considerar a qualidade do vínculo e o papel que o animal desempenha na vida de cada pessoa.
'Duas pessoas podem ter um cachorro e viver experiências completamente diferentes. Uma pode caminhar todos os dias com ele, brincar, conversar, alimentar e ser responsável por todos os cuidados. Outra pode morar em uma casa onde existe um cachorro, mas praticamente não interagir com ele', afirma Irigaray.
É necessário considerar a frequência dos cuidados, as atividades realizadas em conjunto e a qualidade do vínculo. 'Não basta dizer que ‘ter um animal faz bem’', acrescenta a pesquisadora.
Luiza, por exemplo, relata que a convivência com os dois cães já a ajudou em dias em que estava desanimada. Ela também diz se sentir menos sozinha em casa. 'É uma companhia que, depois que você acaba se acostumando, não fica sem', diz.
Estudos também investigam se a convivência com animais está relacionada a um declínio mais lento em algumas funções cognitivas.
Uma pesquisa publicada em 2023, por exemplo, acompanhou 637 pessoas de 50 a 100 anos e identificou que aquelas que tinham animais de estimação apresentaram declínio mais lento em habilidades como memória, linguagem, planejamento e organização.
Outro estudo, de 2025, baseado em 18 anos de dados, associou a convivência com cães e gatos a uma perda mais lenta de memória e de capacidades necessárias para lidar com informações e resolver problemas.
No entanto, os resultados não demonstram que os animais sejam responsáveis pelas diferenças observadas.
'Os possíveis benefícios para o cérebro talvez não venham diretamente do animal, mas da vida mais ativa, participativa e socialmente conectada que essa convivência pode ajudar a manter. São comportamentos que sabemos que são importantes para envelhecer de forma saudável', diz Irigaray.
Ter um animal exige tempo, dinheiro e disposição para cuidados como alimentação, higiene e consultas veterinárias. É importante avaliar se o idoso tem condições financeiras e físicas para assumir essa responsabilidade.
Dificuldades de mobilidade ou cognitivas podem tornar algumas tarefas mais difíceis. A falta de uma rede de apoio também dificulta encontrar alguém para cuidar do animal por períodos prolongados, como no caso de uma internação, ou quando já não consegue assumir os cuidados sozinho.
É uma das preocupações de Luiza. Ela diz ter reduzido as saídas por não ter com quem deixar seus dois cães. 'Se for para escolher entre sair e deixá-los sozinhos, prefiro ficar em casa.' A aposentada teme que, em uma emergência ou caso precise se ausentar por mais tempo, não tenha a quem recorrer para cuidar deles.
Por isso, para idosos que desejam ter um animal, a terapeuta ocupacional e especialista em gerontologia pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) Andressa Chodur aconselha levar em conta tanto as necessidades da pessoa quanto as do pet, para que a convivência não se torne uma sobrecarga.
Também é recomendável, ao escolher o animal, 'pensar em fatores como tamanho, temperamento, nível de energia, idade e compatibilidade com a moradia e a rotina da pessoa', diz Chodur.
'Quando a pessoa deseja ter um animal, tem condições para cuidar dele e existe um vínculo positivo, essa convivência pode enriquecer sua vida e favorecer experiências relacionadas a um envelhecimento mais ativo e participativo', acrescenta Irigaray.
Fernando concorda. Para ele, a responsabilidade é parte central do vínculo. 'A companhia de um animal pode fazer muito bem a uma pessoa idosa, desde que também faça bem ao próprio animal. A felicidade precisa ser de mão dupla. O cão não deve ser apenas amparo para o humano; deve encontrar também, naquele humano, uma casa, uma presença e um vínculo', afirma.






