Militância digital petista mostra que não vai baixar a guarda e já tem novos planos

O 'exército' se articula para agir como um braço de comunicação do governo federal

BATANEWS/VEJA


PRESSÃO - Fux e Janja: audiência estaria reunindo apenas defensores das bets  (@janjalula/Instagram)

O deputado federal André Janones (Rede-MG) tem sido celebrado pela esquerda como herói de uma revolução digital que garantiu a permanência de Lula por mais quatro anos no Palácio do Planalto. Na segunda-­feira 2, o parlamentar estava em Buenos Aires reunido com a ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar por corrupção, mas ainda sonha em voltar à Casa Rosada. A conversa foi sobre eleições. “Nosso objetivo é um só: varrer a extrema direita do cenário mundial”, afirmou o parlamentar ao final do encontro.

Janones também esteve com o ex-ministro Sergio Massa, outro nome cotado para enfrentar o presidente Javier Milei no ano que vem. “Derrotar o Milei aqui vai ter um significado muito semelhante ao do Brasil, e acho que vai ser um teste de fogo para mostrar que o caso do Brasil não foi isolado”, ressaltou Janones. Antes de deixar o país vizinho, o deputado ainda gravou um vídeo no qual pediu aos argentinos para seguirem o Exército do Peronismo, um canal de WhatsApp criado pela oposição, inspirado no badalado sucesso do Exército do Lula, que, aliás, permanece de prontidão.

Na terça-feira 3, o presidente conclamou seus “soldados” a acompanharem uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) que discutiria a proibição das bets. Em um vídeo publicado no canal, Lula levantou dúvidas sobre o objetivo da reunião. “É importante que a sociedade civil acompanhe, porque me parece que tem mais gente participando (da sessão) que se interessa que as bets continuem funcionando do que as pessoas que são contra”, disse. “A sociedade não pode permitir a continuidade das bets.

Por isso, eu conto com vocês”, completou. Na sequência, Janones, o “general” da tropa, publicou uma mensagem destacando que “algo muito estranho” estava acontecendo, já que nenhum representante da “sociedade civil” havia sido convidado. O deputado informou que, mesmo sem ser convidada, a primeira-dama Janja compareceria ao evento e advertiu que o “Exército do Lula” estaria pronto para atuar contra qualquer “manobra sorrateira” para liberar as apostas on-line. A post faz uma advertência em letras garrafais: “Ninguém nunca mais vota nada escondido do povo!”.

Depois das publicações, as redes sociais foram inundadas de manifestações de apoio à proibição das bets. A repercussão foi tamanha que o ministro Luiz Fux, que coordenou a audiência pública, acabou se manifestando sobre o mérito de uma ação que ainda irá a julgamento (leia a reportagem na pág. 36). “Houve um pedido de vista que não voltou até hoje, razão pela qual eu não tive oportunidade de reiterar e acrescentar ao meu voto a minha percepção de que as bets devem ser banidas”, disse o magistrado, que também foi obrigado a desmentir que só havia convidado defensores da liberação das apostas e ainda posou para fotografias ao lado de Janja.

A primeira ação do Exército do Lula depois das eleições chamou a atenção para um ponto. O presidente já havia anunciado que mudaria sua forma de governar. Em princípio, não há nada de errado em apoiadores usarem a comunicação digital para defender ou criticar qualquer tipo de assunto. O problema é quando isso passa a ser um instrumento para constranger quem pensa de maneira diferente.

No auge do segundo turno, o Exército do Lula atingiu 10 milhões de seguidores. A mobilização digital impulsionou grandes manifestações em favor da candidatura petista, massificou as boas realizações do governo, mas também espalhou mentiras e notícias falsas. A plano agora é usar essa experiência que deu certo nas eleições para criar correntes de apoio à agenda oficial, divulgar medidas de interesse do Planalto e mobilizar, quando necessário, a militância para ações de enfrentamento com a oposição. É sobre esse último quesito que residem dúvidas.

É tênue a linha que separa a patrulha da opinião. “O que vai determinar se essa linha foi ultrapassada é o tipo de orientação que será dada aos militantes, especialmente se houver incentivo a ataques pessoais, intimidação ou tentativas de silenciar críticas”, ressalta Pedro Bruzzi, sócio da consultoria Arquimedes, especialista em análise de mídias digitais. O caso das bets não chegou nem perto disso, mas soa como alerta.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020