Crise no Paraguai pode afetar economia de MS, alertam especialistas

Comércio na fronteira, pagamentos e investimentos na Rota Bioceânica estão entre os principais riscos

BATANEWS/CGNEWS


Região de comércio na linha internacional dividindo Brasil e Paraguai; Ponta Porã está à direita e Pedro Juan Caballero à esquerda (Foto: Mundozinhos)

A crise política e financeira enfrentada pelo Paraguai pode atingir o comércio, o transporte de cargas e os investimentos em Mato Grosso do Sul, principalmente nos municípios próximos à fronteira. Especialistas ouvidos pelo Campo Grande News alertam para o risco de atrasos em pagamentos, redução do consumo e adiamento de projetos relacionados à Rota Bioceânica. Apesar das preocupações, ainda não existem dados consolidados que comprovem prejuízos generalizados às empresas sul-mato-grossenses.

A proximidade entre os dois países torna Ponta Porã uma das cidades mais expostas aos possíveis efeitos da instabilidade. O município mantém uma relação comercial direta com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, onde consumidores, comerciantes e prestadores de serviços compartilham uma rotina econômica que ultrapassa a divisão territorial.

Doutor em Administração e professor da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), Leandro Tortosa, explica que as dificuldades de acesso a recursos bancários no Paraguai podem comprometer pagamentos e reduzir o poder de compra da população, com consequências para os estabelecimentos brasileiros.

'A dificuldade de acesso aos recursos bancários pode reduzir o consumo e comprometer pagamentos, além de afetar pequenos comerciantes e prestadores de serviço. A gente já vê relatos dessas dificuldades no Paraguai. Mas a gente ainda não pode afirmar que exista uma retração generalizada na fronteira', afirma.

A administradora Maria Aparecida Canale Balduino, professora do curso da Uniderp e consultora na área do agronegócio, também aponta o comércio, o transporte rodoviário de cargas, a logística e a agroindústria como os setores mais expostos.

Empresas que fornecem insumos, equipamentos e serviços para o mercado paraguaio podem enfrentar dificuldades caso a crise reduza a disponibilidade de crédito e a capacidade de pagamento dos compradores.

'Caso a instabilidade persista, empresas paraguaias poderão enfrentar dificuldades para financiar suas operações, reduzindo compras de produtos brasileiros. Entretanto, a intensidade desses efeitos dependerá da duração da crise e da capacidade das instituições paraguaias de restabelecer a estabilidade econômica e financeira', explica Maria Aparecida.

Pagamentos e contratos

Uma das principais preocupações envolve a confiança no sistema bancário paraguaio. Caso empresas do país vizinho tenham dificuldades para acessar recursos ou obter financiamento, fornecedores brasileiros poderão enfrentar atrasos nos recebimentos.

Maria Aparecida explica que esse cenário pode levar empresários a exigir pagamentos antecipados, maiores garantias ou mudanças nas condições dos contratos. “Quando existe insegurança bancária, empresas podem enfrentar dificuldades para realizar pagamentos, obter financiamentos e manter seus compromissos contratuais', afirma.

A professora ressalta que os problemas enfrentados por uma instituição financeira não significam, necessariamente, uma crise em todo o sistema bancário paraguaio.

Leandro acrescenta que os riscos para as exportações incluem redução de encomendas, atrasos nos pagamentos e adiamento de investimentos. Entretanto, não há informações consolidadas que permitam calcular eventuais prejuízos para empresas de Mato Grosso do Sul. “Mas a gente ainda não tem dados consolidados que permitam dimensionar prejuízos efetivos para as empresas aqui do Mato Grosso do Sul', destaca o professor.

Rota Bioceânica

Os possíveis efeitos sobre a Rota Bioceânica representam outra preocupação dos especialistas. O corredor internacional pretende ampliar a ligação comercial entre o Brasil e os mercados do Oceano Pacífico por meio do Paraguai, da Argentina e do Chile.

Leandro considera que uma crise prolongada pode comprometer a previsibilidade dos investimentos e os cronogramas de integração. O professor destaca, contudo, que ainda não há confirmação de paralisação de obras provocada pela instabilidade.

“Porque se essa instabilidade for prolongada, ela pode comprometer a previsibilidade dos investimentos e os cronogramas dessa integração. Mas até o momento a gente não consegue confirmar a paralisação de obras em decorrência da crise', explica.

Um dos primeiros reflexos identificados na agenda empresarial foi o adiamento do Paraguai Summit, encontro previsto para novembro que reuniria representantes dos setores público e privado, incluindo o governador Eduardo Riedel e o presidente da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), Sérgio Longen.

Para o professor, o adiamento demonstra que a crise já interfere na agenda de integração econômica, embora não represente, por si só, o cancelamento de contratos ou investimentos.

Maria Aparecida também destaca que projetos de infraestrutura possuem planejamento de longo prazo e não são necessariamente interrompidos por problemas econômicos temporários.

'Projetos estruturantes possuem planejamento de longo prazo e não são necessariamente interrompidos por crises conjunturais. O fator determinante será a capacidade de preservar a segurança jurídica, a continuidade institucional e os compromissos de integração entre os países envolvidos', afirma.

Três cenários

Leandro Tortosa traça três cenários para os próximos meses, conforme a capacidade das autoridades paraguaias de recuperar a estabilidade política e financeira.

No primeiro, considerado o mais favorável, a restituição dos depósitos bancários e a normalização das operações financeiras ocorreriam rapidamente. Nesse caso, Mato Grosso do Sul enfrentaria apenas dificuldades temporárias no comércio de fronteira, sem consequências relevantes para a economia estadual.

O segundo cenário envolve uma crise prolongada, com recuperação lenta dos recursos, restrição de crédito e continuidade da incerteza política. Para o Estado, isso poderia significar redução do consumo, atrasos nos pagamentos, pressão sobre empresas fronteiriças e adiamento de investimentos.

“Se a crise for prolongada, esse é um cenário mais intermediário, vai haver aqui uma recuperação lenta dos recursos no Paraguai e uma restrição de crédito, resultando também numa incerteza política. Agora, no Mato Grosso do Sul nesse caso, haveria uma redução de consumo com atraso de pagamento, pressão sobre empresas na fronteira e alguns investimentos adiados', explica.

A hipótese mais grave seria a perda de confiança em outras instituições financeiras paraguaias, com fuga de capitais e dificuldades de financiamento público e privado. Nesse caso, os efeitos poderiam alcançar o câmbio, o comércio internacional e os projetos de integração regional.

Apesar dos riscos, o professor considera que a estrutura do sistema financeiro brasileiro reduz a possibilidade de uma crise bancária semelhante em Mato Grosso do Sul. A principal preocupação está nas relações comerciais e na confiança dos investidores.

Empregos e arrecadação

Uma eventual queda na circulação de consumidores e mercadorias também pode atingir o mercado de trabalho e a arrecadação dos municípios de fronteira.

Maria Aparecida explica que empresas com redução no faturamento podem diminuir contratações, enquanto a retração da atividade econômica pode comprometer a arrecadação tributária.

“Uma eventual redução na circulação de consumidores, mercadorias e investimentos pode comprometer o faturamento das empresas, diminuir a contratação de trabalhadores e afetar a arrecadação tributária associada à atividade econômica', afirma.

A professora observa que cidades com atividades econômicas diversificadas possuem melhores condições de enfrentar os efeitos de uma crise externa.

No caso de Mato Grosso do Sul, a participação do agronegócio, da agroindústria e das exportações destinadas a diferentes mercados internacionais reduz o risco de a instabilidade paraguaia comprometer o desempenho econômico de todo o Estado.

'Uma instabilidade prolongada pode afetar investimentos, cadeias de suprimentos e projetos de integração econômica. Portanto, o cenário exige acompanhamento e prudência, mas não justifica conclusões alarmistas', avalia Maria Aparecida.

Os especialistas defendem o acompanhamento dos indicadores econômicos para verificar se os possíveis riscos começam a se transformar em prejuízos.

Entre os principais estão o volume de exportações e importações, o movimento de caminhões na fronteira, a cotação do guarani em relação ao real e os índices de emprego e arrecadação dos municípios.

Leandro também considera fundamental acompanhar a velocidade de restituição dos depósitos bancários no Paraguai, a normalização dos pagamentos comerciais e os cronogramas das obras relacionadas à Rota Bioceânica.

Para Maria Aparecida, o cenário exige cautela, mas não permite concluir que Mato Grosso do Sul enfrentará uma crise econômica em consequência dos problemas do país vizinho.

A intensidade dos efeitos dependerá principalmente do tempo necessário para o Paraguai recuperar a estabilidade financeira e política. “Quanto mais rápido o Paraguai restabelecer sua estabilidade financeira e institucional, menores devem ser esses reflexos para o Estado de Mato Grosso do Sul', conclui Leandro.

Entenda a crise

A crise no Paraguai começou a se agravar na terça-feira (3), quando o Banco Central do país interveio no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais paraguaias. A medida ocorreu após a identificação de problemas de capital e deixou milhões de clientes sem acesso imediato aos recursos depositados.

O episódio também provocou a saída de Carlos Carvallo Spalding da presidência do Banco Central paraguaio. Ele havia ocupado um cargo de direção no Ueno Bank antes de assumir o comando da autoridade monetária.

A situação atingiu o então presidente Santiago Peña, que manteve participação societária em uma empresa ligada ao banco até 2025. Na quinta-feira, Peña apresentou sua renúncia em meio a protestos e acusações relacionadas à atuação do governo na fiscalização da instituição. Nesta sexta-feira, o Senado paraguaio prosseguiu com o processo de impeachment.

Os problemas financeiros e a instabilidade política também levaram ao adiamento do Paraguay Summit, previsto inicialmente para 13 de novembro. O encontro, que reuniria autoridades e empresários para discutir investimentos e relações comerciais entre Brasil e Paraguai, foi transferido para 2027.