A menos de 100 dias da eleição, Flávio repete principal desafio de Bolsonaro em 2022: conquistar as mulheres

Pesquisas mostram Lula com vantagem consistente entre eleitoras, enquanto senador do PL reproduz a divisão de gênero que marcou a última disputa presidencial

BATANEWS/CARTA CAPITAL


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A 99 dias do primeiro turno da eleição de 2026 , Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta um cenário que lembra o vivido por seu pai na reta inicial da campanha de 2022. Assim como Jair Bolsonaro (PL) há quatro anos, o senador aparece competitivo entre os homens, mas acumula desvantagem consistente diante do presidente Lula (PT) entre as mulheres – grupo que representa 52,83% do eleitorado brasileiro e é considerado decisivo para a disputa pelo Palácio do Planalto. 

O retrato se repete nas principais pesquisas divulgadas neste último mês. Em todas elas, Lula lidera com folga entre as eleitoras em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro:

Entre os homens, por outro lado, Flávio aparece numericamente à frente em quatro dos cinco levantamentos analisados, o que reforça uma divisão do eleitorado por gênero semelhante à observada na eleição passada. 

O quadro guarda semelhanças com o observado 100 dias antes da eleição de 2022. Naquele momento, Jair Bolsonaro também enfrentava forte resistência entre as mulheres, enquanto apresentava desempenho significativamente melhor entre os homens. Pesquisa Datafolha realizada em 22 e 23 de junho de 2022 mostrava Lula com 49% das intenções de voto entre eleitoras, contra 21% de Bolsonaro, uma vantagem de 28 pontos percentuais. Entre os homens, a distância caía para oito pontos: 44% a 36%. 

A mesma tendência aparecia no PoderData, divulgado dias antes. A empresa registrava Lula com 52% entre as mulheres, contra 35% de Bolsonaro. Já entre os homens, o então presidente liderava por 43% a 38%, invertendo o cenário observado no eleitorado feminino. 

A fotografia era semelhante na pesquisa BTG Pactual/FSB divulgada em 27 de junho de 2022. O levantamento mostrava Lula com 51% das intenções de voto entre as mulheres, contra 24% de Jair Bolsonaro. Entre os homens, a disputa era mais equilibrada: o petista aparecia com 42%, enquanto o então presidente tinha 35%.

Os números indicam que, quatro anos depois, o principal desafio eleitoral do bolsonarismo permanece praticamente o mesmo. Embora Flávio apresente desempenho competitivo entre homens, a diferença favorável a Lula entre as mulheres continua sendo o principal fator que sustenta a vantagem do presidente nas simulações nacionais de segundo turno. 

O peso desse segmento ajuda a explicar parte da estratégia adotada pela pré-campanha do senador. Desde o início do ano, levantamentos internos do PL têm orientado Flávio a intensificar o diálogo com o eleitorado feminino, movimento que incluiu a defesa pública de uma mulher para compor a chapa como candidata a vice-presidente e um discurso de maior participação feminina em espaços de poder. A estratégia, porém, sofreu um revés nos últimos dias com a crise pública envolvendo Michelle Bolsonaro.

Além de presidir o PL Mulher desde 2023 e percorrer o País fortalecendo a estrutura do partido entre mulheres conservadoras, a ex-primeira-dama é vista por aliados como um dos principais ativos do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino e evangélico. Reservadamente, integrantes da campanha admitem que o episódio atingiu justamente um público considerado essencial para reduzir a vantagem de Lula e avaliam que a escolha da vice ganhou ainda mais urgência após o desgaste provocado pelo embate familiar.

O eleitorado feminino é decisivo por três razões: representa a maioria dos votantes, manifesta preferências eleitorais diferentes das dos homens e concentra uma parcela importante dos eleitores indecisos. À medida que a disputa presidencial se acirra, esse grupo tende a ganhar ainda mais peso na definição do resultado das urnas. 

Na eleição passada, Jair Bolsonaro conseguiu reduzir parte da vantagem de Lula durante a campanha, mas não eliminou a diferença entre as mulheres até o dia da votação. Agora, às vésperas da campanha oficial de 2026, Flávio inicia a corrida carregando um desafio semelhante ao enfrentado pelo pai: convencer um eleitorado que, até o momento, continua inclinando a balança em favor do presidente Lula.