Agronegócios
Frigoríficos encerram cota e deixam de exportar carne para China
BRASILAGRO
O Brasil exportou 158,3 mil toneladas decarne bovinain natura para a China em junho. Nos cálculos do setor frigorífico e de analistas de mercado, a quantidade – recorde para esse ano – esgotou a cota brasileira de 1,1 milhão de toneladas para 2026. A expectativa é que as vendas para o principal cliente sejam totalmente paralisadas a partir deste mês e retornem apenas em outubro para que o produto não seja sobretaxado em 55%.
Em relatório publicado neste sábado (4/7), a consultoria Safras & Mercados disse que as exportações de junho representam o 'esgotamento oficial' da cota brasileira já que o volume embarcado no último bimestre de 2025 (quase 326 mil toneladas) precisa ser considerado.
No acumulado do ano, os frigoríficos brasileiros já exportaram 774,1 mil toneladas decarne bovinain natura para a China. Para contabilizar a cota, no entanto, os chineses consideram a data de chegada dos produtos lá e incluem cargas que saíram do Brasil nos últimos meses de 2025.
Até maio, o Brasil havia preenchido 65,4% da cota, com a entrada de 723,7 mil toneladas decarne bovinain natura na China, segundo dados oficiais dePequim. Ao considerar a quantidade embarcada em maio e junho (mais de 313,1 mil toneladas) e parte das 135 mil toneladas enviadas em abril e que ainda não foram internalizadas, a avaliação no mercado é que o volume total autorizado já foi 100% atingido.
A viagem de navio das cargas decarne bovinadura cerca de 40 dias entre Brasil e China. Executivos do setor frigorífico apostam que apenas no fim de agosto será declarado oficialmente o preenchimento da cota, mas as vendas serão encerradas para evitar a taxação. Volumes exportados dentro da cota pagam tarifa de 12%. Fora da cota, há sobretaxa de 55%, com total de 67%, o que torna os negócios “inviáveis”, segundo a indústria brasileira.
'Com as contas que temos, até o fim de agosto vai atingir os 100%. Por isso, todo mundo parou de produzir e já atingiu os 100% da cota com os volumes exportados em junho', afirmou uma fonte do setor.
De olho nesse avanço do preenchimento da cota,diversos frigoríficos começaram a adequar suas produções, com a redução do ritmo de abates ou a concessão de férias coletivas aos funcionários, como mostrou a reportagem.
“A produção de carne para a China já começou a brecar e estamos começando a sentir desaceleração nos embarques”, disse Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto.
Para o analista Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, algumas cargas embarcadas nos últimos dias poderão ser sobretaxadas. “Vemos a cota preenchida e tenho a percepção que diante do avanço das exportações para a China, o que veremos daqui para a frente é que algum produto que está em trânsito vai exceder esse volume de cota e vai ser tarifado em 55%. As indústrias já estão paralisando, adotando postura mais comedida em relação ao mercado chinês agora”, disse à reportagem.
Há um estranhamento no mercado sobre a demora do Ministério do Comércio da China (Mofcom) em emitir o alerta de preenchimento de 80% da cota brasileira. “Temos um ambiente hoje em que o sentimento geral na indústria e no mercado em si é que não há mais produto a ser exportado. Qualquer remessa vai ser sobretaxada, só falta internalização na China e os devidos alertas”, afirmou Iglesias.
No relatório, a consultoria chama a atenção para a lentidão da China em emitir os alertas de preenchimento da cota em relação ao Brasil. 'Existem gargalos na internalização do produto pelas autoridades chinesas, o que explicaria tamanha demora', diz o texto. Segundo a empresa, o dado deexportaçãode julho será fundamental para ter o entendimento de como a dinâmica das exportações brasileiras vai se comportar. 'A boa notícia está no avanço da demanda para os Estados Unidos, Hong Kong, Uruguai e Argentina, os últimos três são sintomas de triangulação para atingir o mercado chinês de maneira indireta', completa o documento.
Comportamento das empresas
No setor frigorífico, a avaliação é que praticamente todas as unidades habilitadas para a China vão encerrar a produção e o embarque decarne bovinain natura para lá entre julho e setembro. Alguns cortes específicos, em volumes residuais, ainda poderão ser embarcados, eventualmente, analisou uma fonte. Gorduras, por exemplo, não entram na cota. Em junho, o Brasil vendeu 3,4 mil toneladas do produto para os chineses. No acumulado do ano, foram 20,4 mil toneladas.
Lygia Pimentel, da Agrifatto, acredita que há um 'espaço residual na cota' e também que vão ser exportadas algumas cargas com tarifa extra. 'O mercado doméstico está bem frouxo com essa nova realidade', avaliou.
Segundo Iglesias, da Safras & Mercado, julho será um mês de “mercado pressionado” pela adequação dos frigoríficos à nova realidade, sem o principal cliente nas exportações. “A movimentação do mercado está bem intensa, as indústrias têm aumentado a capacidade ociosa, reduzido abates, oferecido férias coletivas. Julho tem sido um mês de bastante pressão, que frigoríficos estão pressionando o mercado”, completou.
Não há uma lista precisa de quantos e quais frigoríficos já alteraram suas rotinas, mas a expectativa é que as 62 plantas com a habilitação ativa para venda aos chineses (cinco unidades estão suspensas) adotem alguma medida de adequação.
“Frigoríficos médios e pequenos que abatiam 1 mil cabeças passaram a abater 400, 500 cabeças de gado. Estão ajustando, adequando a produção de acordo com o mercado chinês”, concluiu Iglesias.
A expectativa de executivos em geral é que, após o preenchimento, importadores chineses voltem ao mercado brasileiro só em outubro, tendo em vista que os volumes que saírem do Brasil nos últimos meses do ano só chegarão à China no começo de 2027. A cota do ano que vem é um pouco maior, passará de 1,106 milhão de toneladas para 1,128 milhão de toneladas.
No acumulado do ano,o Brasil já exportou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina in natura, industrializada, salgada, miúdos, gorduras e tripas. O faturamento se aproxima de US$ 10 bilhões.Quase 800 mil toneladas dos produtos foram para a China (Globo Rural, 4/7/26)


