O que você precisa fazer para as ‘canetas emagrecedoras’ funcionarem ainda melhor

Revisão de 42 ensaios clínicos reforça que mudanças no estilo de vida são indispensáveis para potencializar os efeitos dos remédios para obesidade

BATANEWS/VEJA


Estratégia combinada: uso de medicamentos para emagrecer combinado com mudanças no estilo de vida é mais eficaz (Getty Images/Reprodução)

As chamadas “canetas emagrecedoras” revolucionaram o tratamento da obesidade, mas, sozinhas, elas não fazem milagres. Embora sejam eficazes para pacientes com indicação médica, seu uso isolado tende a produzir resultados inferiores aos obtidos quando a medicação é acompanhada de mudanças no estilo de vida.

Uma revisão sistemática com meta-análise recém-publicada na revista científica JAMA Pediatrics é mais um exemplo disso. A análise, que avaliou os melhores tratamentos para obesidade em crianças e adolescentes, concluiu que combinar medicamentos para obesidade com hábitos saudáveis está associado a uma perda de peso superior à obtida com a medicação isoladamente.

O trabalho reuniu e comparou os resultados de 42 ensaios clínicos randomizados (em que os participantes são distribuídos aleatoriamente) envolvendo 3.835 crianças e adolescentes com obesidade. Os participantes tinham entre 10 e 19 anos e, na maioria dos estudos, foram acompanhados por um período de seis a 12 meses.

Os estudos compararam diferentes abordagens para tratar a obesidade, incluindo programas estruturados de mudança do estilo de vida, com orientação nutricional, prática de atividade física e apoio comportamental, além do uso de medicamentos como metformina, orlistate, fentermina associada ao topiramato e agonistas do receptor de GLP-1, grupo que inclui as chamadas “canetas emagrecedoras”.

Além disso, eles analisaram se combinar medicamentos com mudanças no estilo de vida trazia resultados melhores do que usar cada estratégia isoladamente.

O que eles descobriram

Segundo os pesquisadores, os tratamentos que combinaram medicamentos para obesidade com mudanças no estilo de vida foram os mais eficazes para reduzir a adiposidade, ou seja, o excesso de gordura corporal.

Todos os remédios avaliados tiveram desempenho melhor quando usados em conjunto com intervenções no estilo de vida, como orientação nutricional, prática de atividade física e acompanhamento comportamental, do que quando usados isoladamente.

No caso da metformina, por exemplo, a combinação com mudanças no estilo de vida foi associada a uma redução de 4,95 no Índice de Massa Corporal (IMC), enquanto o uso isolado do medicamento não mostrou nenhuma alteração significativa no IMC.

Além disso, entre todas as estratégias avaliadas, a associação da semaglutida (da classe dos agonistas do receptor de GLP-1) com aconselhamento nutricional apresentou a maior redução do IMC e do escore Z — uma medida que compara o IMC da criança ou do adolescente com o esperado para sua idade e sexo. Os autores, porém, ressaltam que esse resultado se baseia em um número pequeno de estudos e, por isso, precisa ser confirmado por novas pesquisas.

Outro resultado chamou a atenção: intervenções focadas apenas na mudança de hábitos, como alimentação saudável, atividade física e acompanhamento comportamental, já foram suficientes para reduzir de forma significativa o IMC. Em alguns estudos, essa estratégia apresentou resultados iguais ou até melhores do que os observados com determinados medicamentos que foram usados sem esse suporte.

“Componente indispensável”

A principal mensagem do estudo é que não existe tratamento medicamentoso eficaz sem acompanhamento do estilo de vida. Para os autores da análise, os dados mostram que as mudanças no estilo de vida continuam sendo um “componente indispensável de qualquer tratamento eficaz para o controle de peso, proporcionando perda de peso significativa e uma composição corporal mais saudável por si só”.

Além disso, eles ressaltaram que o uso dos medicamentos, quando combinado com a mudança de hábitos, é “um componente chave, e não apenas um adjuvante” no tratamento da obesidade.

Em vez de substituir alimentação adequada, atividade física e apoio comportamental, os medicamentos devem ser incorporados a uma estratégia mais ampla, em uma abordagem que, segundo os pesquisadores, oferece as maiores chances de sucesso tanto na perda de peso quanto na manutenção dos resultados ao longo do tempo.