A estratégia de partidos e candidatos para capturar o decisivo ‘voto pragmático’

Os eleitores dessa fatia da sociedade se dizem preocupados basicamente com os problemas do dia a dia

BATANEWS/VEJA


DEBATES - Tarcísio e Haddad: candidatos foram confrontados com temas do cotidiano de São Paulo (Miguel Schincariol/AFP)

Desde o início da pré-campanha eleitoral, as pesquisas indicam que uma faixa considerável do eleitorado pretende votar em quem apresente respostas concretas para os problemas do dia a dia. A linguagem política tradicional, muitas vezes composta de termos abstratos como governança, cidadania e soberania, ou por matizes ideológicos como esquerda e direita, progressismo e liberalismo, não tem encontrado ressonância em determinados segmentos. São questões como segurança pública, saúde, carestia e educação que estão no topo das preocupações de boa parte da população.

Os partidos parecem atentos a isso. O PSB, por exemplo, concluiu recentemente um estudo constatando que nas eleições deste ano, principalmente nos estados, largarão na frente os candidatos que convidarem para participar das decisões de seus futuros governos nichos desvinculados de qualquer debate ideológico. Isso explica os motivos que levaram deputados e senadores a se empenharem nos últimos dias em acelerar a tramitação do projeto que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

No mais recente levantamento realizado pelo BTG/Nexus, a violência e a criminalidade lideram a lista daqueles que são considerados pelos eleitores como os principais problemas do país. O estudo do PSB atestou que o punitivismo, a desconfiança institucional e o papel do Estado combinados são forças que movem eleitores de vários espectros, particularmente evangélicos, mulheres chefes de família e jovens. É por isso que criticar o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal rende popularidade a alguns candidatos. Os jovens, em especial, não enxergam nas instituições um nível desejável de transparência.

Como resultado, muitos deles são seduzidos por candidatos que se apresentam como antissistema — aqueles que concentram seus discursos de maneira mais radical no direito de ir e vir, cobram dos governantes medidas duras contra a violência e serviços públicos eficientes. “Na hora que essa fatia da população precisa que o Samu chegue no momento certo, o Estado falta. Quando ela vai abrir seu pequeno negócio, sobra o Estado com a burocracia”, ressalta Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

Com raras exceções, os primeiros debates eleitorais confirmaram essa tendência de tentar falar aos eleitores pragmáticos. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) até ensaiaram nacionalizar a discussão, mas logo centraram a disputa em temas como o combate ao feminicídio, a cracolândia, o enfrentamento ao PCC, o desempenho das escolas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), as demandas de cidades do interior e a privatização das empresas públicas.

O mesmo aconteceu no Distrito Federal, com críticas de adversários da governadora Celina Leão (PP) à condução da crise de liquidez do Banco de Brasília (BRB). Na Bahia, houve embates entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil) sobre as filas para pacientes terem acesso a consultas e cirurgias especializadas.

As campanhas presidenciais precisarão se aprofundar em temas como corrupção, economia e relações internacionais, mas já se preparam também para enfrentar questões mais ligadas ao cotidiano do povo. O nível de preocupação da população brasileira com a segurança pública, por exemplo, já é motivo de pesados embates antes mesmo do início oficial da disputa pelo Planalto. Candidato do PL, o senador Flávio Bolsonaro prometeu declarar “guerra” contra as facções criminosas em seu primeiro dia de governo e não perde a chance de acusar seu adversário, o presidente Lula, de omissão e leniência no enfrentamento ao crime organizado.

Carlos Siqueira, presidente da Fundação João Mangabeira, do PSB, partido que compõe a chapa do PT com o vice-presidente Geraldo Alckmin, admite a fragilidade de propostas do campo da esquerda nessa área. “É preciso termos uma atitude muito mais determinada e muito mais firme de repressão ao crime organizado. Ou se reprime com muito vigor ou caminharemos para uma situação incontrolável”, alerta o dirigente.

Na avaliação do cientista político Valdir Pucci, o atual perfil do eleitorado, notadamente os mais jovens, assimilou os avanços tecnológicos e as mudanças culturais e, por isso, também demanda soluções novas para problemas antigos. “Uma campanha bem construída tem que entender que o eleitor está preocupado realmente com seu dia a dia. Acordar, conseguir cuidar de sua família, ir trabalhar e retornar para casa com segurança.” O desafio está posto.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008