Agricultura
Recorde de produção esconde crise de liquidez no campo
Com 360,1 milhões de toneladas de grãos projetadas, agronegócio convive com alta da inadimplência, juros elevados e maior exposição a riscos climáticos.
BATANEWS/OPR
O agronegócio brasileiro chega ao segundo semestre de 2026 diante de um paradoxo. A Conab estima a safra 2025/2026 em 360,1 milhões de toneladas de grãos, resultado que, se confirmado, representará novo recorde e avanço de 2,2% sobre o ciclo anterior.
No primeiro trimestre, as exportações do setor alcançaram US$ 38,1 bilhões e produziram superávit de US$ 33,1 bilhões. Esses números medem produção e comércio exterior, não rentabilidade. No mesmo período, o volume exportado cresceu 3,8%, mas o preço médio caiu 2,8%. Colher e exportar mais, portanto, convive com perda de margem e de liquidez.
A safra brasileira de grãos 2025/2026 está estimada em 360,1 milhões de toneladas, novo recorde para o país. No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio acumulou superávit de US$ 33,1 bilhões, embora o preço médio dos produtos exportados tenha recuado 2,8%.
Ao mesmo tempo, a inadimplência dos produtores rurais em operações de crédito chegou a 7,17% em maio de 2026, ante 3,99% em maio de 2024. O custo do dinheiro também permanece elevado: a Selic estava em 14,25% ao ano após o corte de junho. No mercado internacional, o milho registrou queda de 6,2% no índice de preços da FAO em junho, sinalizando pressão adicional sobre a receita dos produtores.
Recordes agregados, dificuldades concretas O mercado mundial não atravessa uma única crise das commodities. Em junho, o índice de preços de alimentos da FAO permaneceu 18,7% abaixo do pico de março de 2022. Cereais recuaram 3,5% no mês e o milho, 6,2%, diante da perspectiva de oferta abundante e da fraqueza do petróleo; carnes e óleos vegetais, por outro lado, avançaram. Os ciclos são distintos e seus efeitos também: uma cotação favorável à pecuária pode pressionar a indústria de proteínas; milho barato beneficia ração e usinas, mas comprime a receita do agricultor.
O produtor brasileiro vende em mercado global, adquire insumos em cadeias internacionalizadas e se financia nas condições brasileiras. Conflitos geopolíticos, sanções, barreiras comerciais e oscilações de petróleo e câmbio afetam fertilizantes, defensivos, diesel, fretes e máquinas.
A taxa Selic, embora reduzida em junho, permanece em 14,25% ao ano. Somados os spreads, seguros, registros, garantias e despesas acessórias, o custo efetivo do crédito não equalizado pode superar a rentabilidade operacional de várias atividades. O gargalo, muitas vezes, não está em produzir, mas em financiar o intervalo entre o desembolso e a receita.
O clima como multiplicador de risco O clima não explica sozinho o quadro, mas funciona como multiplicador. Secas, enchentes, ondas de calor, geadas e chuvas irregulares afetam produtividade, qualidade, colheita e logística. A safra nacional recorde esconde perdas locais: a própria Conab registrou efeitos de veranicos sobre o milho em Goiás, Minas Gerais e Piauí e de baixa precipitação em áreas de Sergipe e Alagoas.
Quando choques se repetem, o produtor consome capital de giro, reduz o pacote tecnológico e rola obrigações em condições progressivamente piores. Seguro rural insuficiente, limitações do Proagro e coberturas paramétricas ainda pouco disseminadas transferem risco produtivo para o balanço do produtor e, depois, para o sistema de crédito.
A dependência de um número reduzido de culturas amplia essa exposição. Diversificar receitas por novas cadeias, agregação de valor e mercados de destino atenua o impacto de um choque isolado de preço ou de clima, ainda que preços, câmbio e políticas setoriais continuem oscilando. A resiliência do produtor depende dessa gestão de risco na porteira e de instrumentos de proteção que, por ora, permanecem incompletos.
Endividamento: medir antes de tratar A deterioração financeira já aparece nos indicadores. A exposição de motivos da Medida Provisória nº 1.376/2026 informa que a inadimplência dos produtores rurais em operações de crédito passou de 3,99%, em maio de 2024, para 7,17%, em maio de 2026. Em recorte mais estreito: crédito rural de pessoas físicas contratado a taxas de mercado, a CNA, com base em dados do Banco Central, aponta 13,84% em fevereiro de 2026, ante 4,73% um ano antes. Os percentuais não são intercambiáveis nem podem ser extrapolados para todo o agro.
Além disso, o passivo real não se limita ao crédito rural bancário: inclui fornecedores, revendas, operações de barter, CPRs, cooperativas, arrendamentos, tributos e crédito comercial. A ausência de uma base consolidada recomenda cautela com estimativas bilionárias sem metodologia aberta.
A política pública deve distinguir iliquidez de insolvência: a maioria dos produtores afetados enfrenta um descompasso temporário de caixa diante de choques comprovados, e não uma inviabilidade de fato. Esses casos pedem recomposição. Uma parcela menor pode envolver situações estruturalmente insustentáveis ou, em hipóteses pontuais, irregularidades, que demandam avaliação individualizada, com contraditório e devido processo, antes de qualquer enquadramento. O objetivo é calibrar o apoio a quem tem viabilidade econômica, não presumir má-fé.
Legislativo e securitização: resposta com critério Publicada em 15 de julho, a MP nº 1.376/2026 é hoje a resposta federal mais concreta. Ela autoriza linhas para composição de dívidas de crédito rural e CPRs e a participação da União em fundo garantidor privado.
Em sua regra geral, exige a comprovação de perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada; prevê encargos de 6%, 9% e 12% ao ano, conforme o perfil, prazo de até oito anos e primeira amortização do principal após dois anos, com juros pagos no período. Há condições diferenciadas para perdas climáticas mais severas. A efetividade dependerá da regulamentação do Conselho Monetário Nacional, da capacidade operacional dos agentes e de critérios que não excluam justamente quem perdeu acesso ao crédito.
Em paralelo, o PL nº 5.122/2023, aprovado com alterações pelo Senado em 10 de junho e devolvido à Câmara, prevê linha especial de refinanciamento com recursos do Fundo Social do Pré-Sal e outras fontes. Congresso e Executivo precisam harmonizar os dois regimes, evitar sobreposição e definir fontes, alcance, governança e controle fiscal. Uma renegociação tardia, burocrática ou incapaz de preservar o custeio da safra seguinte tende a apenas transferir o problema para o próximo ciclo.
A securitização, por sua vez, comporta dois sentidos que não devem ser confundidos. No âmbito público, designa a consolidação e o refinanciamento de passivos em condições extraordinárias. No mercado de capitais, CPRs podem integrar o lastro de estruturas como CRAs, FIDCs e Fiagros, conectando recebíveis ao funding e distribuindo risco.
Essa segunda via pode ampliar a concorrência e reduzir a dependência bancária, desde que o lastro tenha qualidade: exige dados padronizados, garantias juridicamente robustas, limites de concentração, testes de estresse e monitoramento independente. Sem capacidade de pagamento por trás dos recebíveis, o mecanismo transfere a inadimplência a novos detentores em vez de resolvê-la.
Uma agenda para preservar capacidade produtiva A resposta imediata deve consolidar passivos ligados à produção, retirar encargos punitivos, oferecer carência real, alinhar amortizações ao ciclo de caixa e preservar acesso a novo custeio. A agenda estrutural exige Plano Safra com programação plurianual integrada ao PPA, à LDO e à LOA; orçamento estável para seguro rural; aperfeiçoamento do Proagro e de seguros paramétricos; fundos garantidores; instrumentos de armazenagem, irrigação e proteção de preços; transparência sobre a execução do crédito; e segurança jurídica para garantias, renegociações e recuperações judiciais.
A escolha não está entre a anistia indiscriminada e o abandono do produtor. Está em intervir cedo, com critérios de viabilidade, auditoria e responsabilidade fiscal. Deixar que uma crise de liquidez se converta em insolvência disseminada produz venda forçada de ativos, concentração econômica, ruptura de fornecedores e crédito ainda mais caro. A safra recorde comprova a capacidade produtiva do país; preservá-la depende, agora, da saúde financeira de quem a sustenta.






