Futebol
O futebol de MS não precisa apenas de estádio; precisa voltar a formar jogadores
JOSé CâNDIDO
Mato Grosso do Sul já ocupou lugar de respeito no futebol brasileiro. O Operário enfrentou os maiores clubes do País e terminou o Campeonato Brasileiro de 1977 em terceiro lugar. O Morenão recebia grandes públicos, jogadores conhecidos nacionalmente e partidas que mobilizavam Campo Grande. Havia rivalidade, torcida e, principalmente, esperança.
Hoje, resta a lembrança de um passado que parece cada vez mais distante.
Os clubes sul-mato-grossenses perderam espaço no cenário nacional, os campeonatos estaduais encolheram, as arquibancadas esvaziaram e muitos times sobrevivem com dificuldades. Falta dinheiro, mas também planejamento, profissionalismo, calendário e capacidade de formar novas gerações.
A convocação do zagueiro Arthur Dias, de 19 anos, pelo técnico Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira principal mostra que o talento continua existindo. Criado no Bairro Santa Luzia, na periferia de Campo Grande, Arthur começou no Pelezinho, passou pela Funlec e deixou o Estado aos 15 anos para completar sua formação no Athletico-PR. A trajetória do jogador deveria servir não apenas como motivo de orgulho, mas como alerta.
Arthur chegou à Seleção. Quantos outros meninos igualmente talentosos ficaram pelo caminho porque não encontraram estrutura, treinador, alimentação adequada, transporte ou alguém disposto a enxergá-los?
O problema do futebol de Mato Grosso do Sul não é a falta de crianças jogando bola. Elas continuam nos campinhos de terra, nas quadras das escolas, nos projetos sociais e nas periferias. O problema é a ausência de uma ponte segura entre o futebol amador e a formação profissional.
O Estado revela talentos, mas não consegue mantê-los. Quando aparece um jogador acima da média, ele precisa sair cedo para São Paulo, Paraná, Minas Gerais ou Rio Grande do Sul. Os clubes de fora ficam com o atleta, com os direitos econômicos e com os resultados do investimento. Mato Grosso do Sul fica apenas com o orgulho de dizer que o jogador nasceu aqui.
Parte dessa decadência precisa ser creditada aos dirigentes. Durante anos, clubes foram administrados sem planejamento de longo prazo, com disputas internas, improvisações e dependência do poder público. Dinheiro colocado apenas para pagar despesas de equipes profissionais durante alguns meses não reconstrói o futebol. No máximo, prolonga a sobrevivência de um modelo que já demonstrou não funcionar.
O Morenão simboliza esse abandono. O estádio, que já recebeu dezenas de milhares de torcedores, passou anos fechado e deteriorado. Agora sob responsabilidade estadual, começa a ser recuperado. O Governo abriu uma licitação estimada em R$ 17,8 milhões para adequações estruturais, elétricas, hidráulicas, de acessibilidade e segurança. As obras previstas são necessárias e estão atrasadas há muito tempo.
Também não há problema em transformar o Morenão em espaço para shows e grandes eventos. Estádios modernos precisam produzir receita e ser utilizados durante todo o ano. O erro seria reformá-lo como praça de eventos e tratar o futebol como visitante dentro da própria casa.
Reconstruir arquibancadas é mais fácil do que reconstruir o futebol. Concreto novo, gramado bonito e iluminação moderna não formam atletas nem devolvem torcida aos clubes. Sem equipes competitivas, calendário e trabalho de base, o Morenão continuará sendo um gigante à espera de jogos que não virão.
A retomada precisa começar pelas crianças. Governo, prefeituras, federação, clubes, escolas e iniciativa privada deveriam construir um programa permanente de formação. Isso significa manter campeonatos sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20 durante todo o ano, criar centros regionais, capacitar treinadores, garantir transporte e alimentação e levar observadores também às cidades do interior.
O investimento público deve ter regras, metas e transparência. Clube que receber dinheiro precisa manter categorias de base, apresentar prestação de contas e demonstrar quantos jovens atende. Não se pode continuar despejando recursos em contratos de poucos meses, sem deixar patrimônio esportivo ou social.
É necessário ainda abrir espaço para o futebol feminino, organizar competições escolares e aproximar os clubes das comunidades. Quem pretende recuperar as arquibancadas precisa, primeiro, recuperar a ligação entre os times e a população.
Arthur Dias saiu do Santa Luzia e chegou à Seleção Brasileira. Sua história prova que o talento pode nascer em qualquer campo de terra. Mas depender apenas do sacrifício da família e da sorte de ser descoberto não é política esportiva.
Mato Grosso do Sul não pode viver eternamente das fotografias do Operário de 1977 nem da lembrança do Morenão lotado. A história merece respeito, mas não entra em campo. Se o Estado quiser voltar ao futebol nacional, terá de investir menos em improviso e mais na base.
O próximo Arthur Dias talvez já esteja jogando descalço em algum bairro de Campo Grande. A pergunta é se haverá alguém preparado para encontrá-lo antes que o abandono o faça desistir.






