Tecnologia usa RNA para combater percevejo sem modificar geneticamente a soja

Desenvolvida na Unicamp, pesquisa utiliza silenciamento gênico para interromper funções vitais do Euschistus heros e pode integrar o manejo da praga.

BATANEWS/OPR


Foto: Divulgação/Sistema Faep

Uma tecnologia baseada em RNA de interferência (RNAi) desenvolvida na Unicamp busca mudar a forma de combater uma das principais pragas da soja: o percevejo-marrom (Euschistus heros). Em vez de utilizar uma molécula de ação ampla sobre os insetos presentes na lavoura, a estratégia trabalha sobre genes específicos do próprio percevejo, interrompendo funções essenciais para sua sobrevivência.

A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em um projeto coordenado pelo professor Henrique Marques de Souza, e licenciada para a TMG Tropical Melhoramento e Genética S.A., que é cotitular da patente. O desenvolvimento foi realizado por meio de um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação entre a universidade e a empresa.

A lógica do método está no chamado silenciamento gênico. Os pesquisadores identificam um gene essencial para o funcionamento do inseto e produzem, em laboratório, uma molécula de RNA de fita dupla correspondente a essa sequência. Quando o material entra no organismo do percevejo, desencadeia um mecanismo natural de defesa celular que interrompe a expressão daquele gene.

O efeito esperado depende do gene escolhido. O silenciamento pode comprometer o desenvolvimento, a alimentação ou a reprodução do inseto e, em determinados casos, levar à sua morte. “Estudamos a biologia de uma praga, no caso o percevejo, e identificamos qual gene, se removido, o levará à morte, a parar de se alimentar, ou de procriar. Podemos desenhar a fita dupla de acordo com o que é identificado como vital para o inseto”, explica Souza.

Por que o percevejo é um alvo O Euschistus heros está entre os percevejos associados às lavouras de soja no Brasil. O inseto se alimenta diretamente da planta e pode comprometer a formação e a qualidade dos grãos, o que faz do seu controle uma das preocupações fitossanitárias da cultura.

Para Souza, as condições climáticas brasileiras também favorecem a presença de diferentes pragas ao longo do ciclo agrícola. “Levando em consideração que o Brasil é um país tropical e muito quente, existem muitas pragas que podem afetar o cultivo de soja, mas o percevejo é o mais danoso a essa cultura”, afirma.

É nesse ponto que o RNAi procura se diferenciar dos inseticidas convencionais. Em vez de atuar sobre diferentes organismos de maneira mais ampla, a estratégia é construída a partir de uma sequência genética escolhida pelos pesquisadores para atingir o organismo-alvo.

Especificidade é principal aposta da tecnologia A possibilidade de selecionar um gene específico é um dos elementos centrais da tecnologia. A proposta é reduzir a exposição de organismos que não são alvo do controle, incluindo insetos benéficos presentes no ambiente agrícola.

Outro aspecto é que o método não exige a modificação genética da planta. O mecanismo atua no próprio inseto depois que ele entra em contato com a molécula de RNA desenvolvida para aquela finalidade.

Isso não significa, porém, que o RNAi elimine a necessidade de outras estratégias de manejo. Segundo Souza, a tecnologia não tem comportamento de ação imediata comparável ao de um inseticida convencional. “Não é uma técnica de choque. Ela depende que a molécula de RNA entre, silencie o gene e pare de produzir proteína para que a praga morra”, enfatiza.

A tecnologia, portanto, foi concebida para integrar estratégias de manejo de pragas, e não para substituir isoladamente todas as ferramentas utilizadas no controle do percevejo.

Pesquisa básica virou tecnologia agrícola A origem do trabalho está em uma pesquisa que inicialmente não tinha como objetivo desenvolver uma solução para a agricultura. Durante o doutorado na Universidade de Colônia, na Alemanha, Souza estudava RNAi relacionado ao desenvolvimento embrionário de insetos.

Na Unicamp, o pesquisador passou a investigar como o mesmo mecanismo poderia ser utilizado para interferir na biologia de pragas agrícolas. A mudança levou a uma pesquisa de quatro anos até chegar à tecnologia desenvolvida em parceria com a TMG.

Ao todo, 15 pessoas participaram do desenvolvimento, entre estudantes de pós-graduação, iniciação científica e pós-doutorado.

O trabalho também avançou para a proteção da propriedade intelectual. A Inova Unicamp, agência de inovação da universidade, atuou na estratégia de proteção e no processo de patenteamento, com participação da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). A TMG passou a deter, junto à universidade, a titularidade da patente e recebeu a licença para exploração da tecnologia.

Tecnologia chega à etapa de transferência O licenciamento marca uma mudança de etapa para a pesquisa: o conhecimento desenvolvido em laboratório passa a ter uma empresa responsável por sua exploração tecnológica.

A tecnologia e os pesquisadores envolvidos no desenvolvimento foram reconhecidos na 19ª edição do Prêmio Inventores da Unicamp. Henrique Marques de Souza, Grazielle Celeste Maktura, Giovanna Vieira Guidelli, Cyro von Zuben de Valega Negrão, Thiago Roncini Gomes da Costa e Jeruza Bossonaro foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.

O reconhecimento ocorre justamente na etapa em que a pesquisa deixa de estar restrita ao ambiente acadêmico e passa a integrar uma estratégia de transferência de tecnologia para o setor agrícola.