Agricultura
USDA revisa projeções de oferta para milho e soja dos EUA no mercado mundial
Corte na produção americana de milho contrasta com aumento na safra de soja, em um mercado influenciado pela oferta argentina e pelo ritmo da demanda chinesa.
BATANEWS/OPR
As novas estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para a safra 2026/27 aumentam a sensibilidade do mercado mundial de grãos aos próximos dados de campo. No milho, o órgão reduziu novamente a produtividade e a produção americana, movimento que diminui a oferta disponível e dá sustentação às cotações internacionais. Na soja, a produção foi revisada para cima, mas o aumento das exportações impediu a recomposição dos estoques finais.
As revisões, porém, não apontam para uma direção única dos preços. No milho, a oferta elevada da Argentina limita o impacto da menor produção americana. Na soja, o comportamento da China ganha peso diante da combinação entre uma safra maior nos Estados Unidos e estoques finais menores. Com isso, a colheita americana e o ritmo da demanda internacional passam a ser determinantes para a formação dos preços nos próximos meses.
A produtividade projetada para o milho nos Estados Unidos caiu de 189 para 186,4 sacas por hectare. Com o ajuste, a estimativa de produção passou de 406,8 milhões para 401,3 milhões de toneladas.
Os estoques finais também foram reduzidos, de 42 milhões para 39,8 milhões de toneladas. No mercado global, os estoques finais de milho da safra 2026/27 recuaram de 274,7 milhões para 272,1 milhões de toneladas.
Engenheira agrônoma Yedda Monteiro: “O corte na produção americana dá algum suporte ao milho no mercado internacional, mas isso não significa necessariamente uma reação igual nos preços brasileiros. A oferta argentina continua forte e coloca uma pressão competitiva importante sobre o produto do Brasil” – Foto Divulgação
O movimento aproxima a projeção do USDA daquela apresentada pelo Pro Farmer em agosto. O levantamento privado estimou produtividade de 181,2 sacas por hectare e produção de 389,5 milhões de toneladas. Ainda há, portanto, uma diferença de aproximadamente 11,8 milhões de toneladas entre as duas estimativas. ” O USDA já começou a incorporar uma parte do que o Pro Farmer havia sinalizado em agosto, principalmente no milho. Ainda existe uma diferença importante entre as estimativas, e agora a colheita passa a ser fundamental para mostrar qual cenário está mais próximo da realidade”, afirma a engenheira agrônoma Yedda Monteiro.
A confirmação dos números no campo ganha importância porque uma produção americana ainda menor poderia apertar mais o balanço mundial e dar suporte adicional aos preços.
O cenário, entretanto, é diferente quando se considera a oferta sul-americana. A Argentina chega ao mercado com uma safra recorde de milho e maior disponibilidade para exportação, mantendo o cereal competitivo em diferentes destinos.
Essa oferta aumenta a concorrência com o milho brasileiro, principalmente nos mercados em que os dois países disputam espaço. A proximidade logística também favorece a presença argentina em determinados destinos e pode limitar a transmissão de uma eventual alta internacional para os preços brasileiros. “O corte na produção americana dá algum suporte ao milho no mercado internacional, mas isso não significa necessariamente uma reação igual nos preços brasileiros. A oferta argentina continua forte e coloca uma pressão competitiva importante sobre o produto do Brasil”, avalia Yedda.
Assim, o mercado mundial de milho passa a trabalhar com forças opostas: de um lado, menor produção e estoques nos Estados Unidos; de outro, maior disponibilidade argentina. A definição dos preços dependerá de qual desses fatores ganhar maior peso à medida que a colheita americana avançar.
Na soja, o USDA elevou em 0,3% a estimativa de produção dos Estados Unidos, para 123,4 milhões de toneladas. Apesar do aumento da oferta, os estoques finais foram reduzidos de 8,7 milhões para 8,4 milhões de toneladas.
A principal explicação está na demanda. A projeção de exportações americanas subiu de 45,2 milhões para 45,9 milhões de toneladas, enquanto o consumo doméstico permaneceu elevado. “O número da produção, sozinho, não conta toda a história da soja americana. As exportações foram revisadas para cima e isso ajuda a explicar por que os estoques finais caíram mesmo com uma safra maior. Daqui para frente, a execução dessa demanda será um dos pontos mais importantes para o mercado”, diz Yedda.
No balanço mundial, a produção de soja para 2026/27 está estimada em aproximadamente 442,4 milhões de toneladas, praticamente em linha com o consumo. Os estoques finais permanecem próximos de 124 milhões de toneladas.
Nesse cenário, a China continua sendo o principal ponto de atenção para a soja. O USDA manteve em 115 milhões de toneladas a projeção de importações chinesas em 2026/27. O consumo foi estimado em 136 milhões de toneladas, enquanto os estoques finais ficaram em 44,3 milhões de toneladas.
Apesar da demanda elevada, os estoques de soja nos portos chineses aumentaram nas últimas semanas, reduzindo a necessidade de compras mais agressivas no curto prazo.
A programação de chegada de soja tende a diminuir nos próximos meses, enquanto pequenas e médias esmagadoras chinesas enfrentam margens mais apertadas e o produto brasileiro permanece relativamente caro.
Parte das empresas já trabalha com redução do esmagamento entre dezembro e fevereiro. Nesse contexto, o ritmo das compras chinesas e a escolha entre as diferentes origens de soja podem influenciar diretamente os preços internacionais e os prêmios praticados no Brasil.
O ponto de atenção, portanto, não está apenas no tamanho da safra. Se a China mantiver uma demanda consistente, a oferta adicional dos Estados Unidos poderá ser absorvida sem aumento expressivo dos estoques. Caso as compras sejam mais lentas, a pressão sobre as cotações tende a aumentar.
Os fundamentos de oferta e demanda dividem espaço com fatores geopolíticos. No mercado de milho, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua afetando os fluxos de exportação do Mar Negro.
O USDA elevou para 31,8 milhões de toneladas a estimativa de produção de milho da Ucrânia, mas reduziu a projeção de exportações para 22 milhões de toneladas. Os estoques finais foram estimados em 5,5 milhões de toneladas.
Já no Oriente Médio, o petróleo está entre os principais fatores de atenção. Uma eventual alta da energia pode favorecer a competitividade relativa dos biocombustíveis e dar sustentação ao óleo de soja. Ao mesmo tempo, pode elevar os custos de diesel, frete e parte dos insumos utilizados na produção agrícola.
Para o Brasil, a leitura do cenário internacional exige considerar esses movimentos simultaneamente. No milho, a menor produção americana representa um fundamento potencialmente favorável aos preços globais, mas a oferta argentina aumenta a concorrência e pode limitar os ganhos do cereal brasileiro.
Na soja, o quadro depende principalmente da relação entre a produção americana e a demanda internacional. A safra maior nos Estados Unidos não significa necessariamente pressão sobre os preços se as exportações continuarem absorvendo o aumento da oferta.
Para o mercado brasileiro, o comportamento da China também será relevante para os prêmios de exportação e para a formação dos preços internos. Compras mais fortes podem sustentar a demanda pela soja brasileira; uma postura mais seletiva dos chineses tende a aumentar a competição entre origens.
Com o avanço da colheita nos Estados Unidos, os dados efetivamente obtidos nas lavouras deverão ganhar espaço nas decisões do mercado. No milho, principalmente, a diferença entre USDA e Pro Farmer ainda é grande e precisa ser confrontada com a produtividade observada no campo. “Agora o mercado precisa de confirmação. No milho, principalmente, a diferença entre as estimativas ainda é grande. A produtividade que vier da colheita americana, junto com o ritmo das compras da China e a oferta da América do Sul, vai ajudar a definir os próximos movimentos dos preços”, complementa Yedda.
O cenário mundial, portanto, combina menor oferta potencial de milho nos Estados Unidos com forte disponibilidade argentina e uma soja americana mais produtiva, mas acompanhada por demanda externa suficiente para reduzir os estoques. Até que os dados da colheita confirmem o tamanho real da safra americana, milho e soja devem permanecer sensíveis às oscilações da demanda, aos fluxos de exportação e aos fatores geopolíticos.






