Política
Riedel projeta novo ciclo com saúde regional, educação técnica e economia de maior valor agregado
Em sabatina, governador defendeu continuidade das políticas de desenvolvimento, mais eficiência na saúde, expansão da rede regional, fortalecimento da educação profissional, proteção às mulheres e uma nova etapa de industrialização em Mato Grosso do Sul.
BATANEWS/ASSESSORIA DE IMPRENSA
Quando uma fábrica chega a uma pequena cidade, a transformação não fica restrita aos muros da indústria. Cresce a procura por moradia, aparecem novos restaurantes e oficinas, aumenta o movimento nos hotéis, mais crianças chegam às escolas e o sistema de saúde passa a atender uma população muito maior. Em outro extremo dessa mesma engrenagem, uma família que depende da rede pública quer algo muito mais simples: encontrar atendimento perto de casa, conseguir realizar um exame ou saber que o hospital da sua região estará preparado quando precisar.
Foi a partir dessas duas dimensões — crescimento econômico e impacto concreto na vida das pessoas — que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, apresentou parte significativa de sua visão para os próximos anos de Mato Grosso do Sul durante o Frente a Frente, rodada de entrevistas promovida por Campo Grande News, SBT/MS, TV Guanandi, A Crítica, JD1 Notícias e Correio do Estado.
Ao longo da sabatina, mediada por Alexandre Giachetto e com perguntas dos jornalistas Daniel Pedra, Maristela Brunetto, Marcos Anelo, Nathalia Pelzl, Carlos Guilherme e Edir Viegas, Riedel defendeu a continuidade das políticas implantadas durante seu governo, mas argumentou que a própria transformação do Estado exige uma nova etapa.
“É um ciclo de política pública que se implanta e amadurece”, afirmou. Para o governador, políticas de saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento precisam de tempo para produzir resultados e, mesmo quando avançam, nunca podem ser consideradas uma “obra acabada”.
Emprego, renda e incentivos como motores da economia
Na economia, Riedel colocou os incentivos fiscais no centro da estratégia adotada pelo Estado para atrair investimentos e estimular a atividade produtiva.
Segundo ele, Mato Grosso do Sul gerou mais de 140 mil empregos nos últimos três anos e meio. O governador relacionou esse resultado à chegada de novos investimentos e afirmou que a expansão econômica ajudou o Estado a alcançar a sexta maior renda média do país e o menor nível de desemprego de sua história.
Mas Riedel argumentou que os incentivos não estão restritos às grandes empresas que decidem instalar fábricas em Mato Grosso do Sul.
Ele citou produtos diretamente ligados ao orçamento das famílias, como gás de cozinha, carne, combustíveis, etanol e itens da cesta básica, cuja tributação pode ser reduzida como instrumento de política econômica.
A lógica defendida pelo candidato é trabalhar simultaneamente em duas frentes: oferecer condições para que novos empreendimentos se instalem no Estado e reduzir custos de determinados produtos e serviços para o consumidor.
Caso seja reeleito, Riedel afirmou que pretende manter essa política.
“Vou manter essa política para atrair cada vez mais investimentos, capital e novos negócios para o Estado, porque ela é um motor da economia”, declarou.
Ao ser questionado sobre o volume de incentivos — estimado na pergunta da sabatina em quase R$ 12 bilhões neste ano — Riedel argumentou que parte dos investimentos atraídos simplesmente não existiria sem mecanismos de estímulo. Nesse raciocínio, uma fábrica que não se instalasse no Estado tampouco produziria a arrecadação, os empregos e a movimentação econômica decorrentes de sua atividade.
O governador também sinalizou qual será um dos desafios fiscais dos próximos anos. Com a redução da arrecadação relacionada ao gás boliviano e as mudanças provocadas pela reforma tributária, Mato Grosso do Sul terá de encontrar formas de preservar sua capacidade de investimento.
Para Riedel, antes de procurar novas receitas, o Estado precisa concentrar esforços na qualidade do gasto.
Segundo ele, mesmo diante de uma arrecadação crescendo abaixo da inflação em alguns períodos, o governo manteve investimentos equivalentes a entre 12% e 15% da receita corrente líquida.
“Antes de pensar em arrecadar mais, precisamos pensar em gastar melhor”, resumiu.
O desafio de transformar crescimento em desenvolvimento
Poucos lugares traduzem tão claramente os benefícios e os desafios dessa transformação quanto os municípios atingidos pela expansão da indústria de celulose.
Três Lagoas viveu a primeira grande onda. Ribas do Rio Pardo recebeu outro empreendimento de grande porte. Agora, Inocência enfrenta uma mudança ainda mais acelerada.
Com aproximadamente 8 mil habitantes, o município reúne atualmente, segundo Riedel, cerca de 14 mil trabalhadores ligados à implantação da fábrica da Arauco.
Esse movimento significa empregos e oportunidades, mas também pressiona moradia, saúde, educação, segurança, transporte e infraestrutura.
Riedel afirmou que as experiências anteriores serviram para modificar a forma como o poder público se prepara para receber grandes empreendimentos. Em Inocência, segundo ele, contrapartidas relacionadas ao alojamento dos trabalhadores, transporte, segurança e saúde foram discutidas previamente.
Um posto de saúde equipado pela empresa está disponível tanto para trabalhadores quanto para moradores. O governo também trabalha considerando que o pico de mão de obra da construção é temporário: após a conclusão da fábrica, parte dos trabalhadores deixa o município, enquanto outros permanecem e passam a demandar habitação e serviços permanentes.
Em Ribas do Rio Pardo, lembrou o governador, o crescimento populacional levou à construção de uma escola com capacidade para mil novos alunos.
Os impactos ambientais também entraram na discussão.
Questionado sobre problemas observados em áreas onde a indústria florestal avançou, Riedel afirmou que biodiversidade, água e balanço de carbono precisam ser permanentemente acompanhados.
Na avaliação apresentada pelo governador, a substituição de áreas de pastagens degradadas por florestas plantadas contribuiu para melhorar o balanço de carbono do Estado. Ele também destacou que as fábricas mais modernas utilizam biomassa, geram parte da própria energia e reaproveitam resíduos industriais.
Riedel, entretanto, reconheceu que grandes transformações produzem problemas que precisam ser identificados e corrigidos.
“Existem problemas? Claro que existem, e temos de solucioná-los”, afirmou.
Ao mesmo tempo, chamou atenção para os negócios que surgem ao redor das grandes indústrias: restaurantes, hotéis, oficinas, transportadoras, serviços médicos e odontológicos, comércio e outras atividades que movimentam não apenas o município onde a fábrica está instalada, mas toda a região.
Educação: estrutura pronta e foco no aprendizado
Na educação, Riedel descartou a implantação imediata de Parcerias Público-Privadas na rede estadual, embora tenha dito que considera o modelo conceitualmente possível.
A razão, segundo ele, é simples: Mato Grosso do Sul já possui uma rede física de escolas consolidada.
O governador afirmou que foram investidos R$ 1,2 bilhão na reforma de 270 unidades escolares. Segundo sua descrição, as intervenções foram além de pintura e manutenção, incluindo redes elétrica e lógica, climatização, laboratórios de informática e robótica e bibliotecas.
Nesse cenário, sustentou, não haveria neste momento necessidade de entregar ao setor privado a construção ou administração física das escolas.
Riedel também enfatizou que, mesmo em um eventual modelo de parceria, o conteúdo pedagógico, os professores e a responsabilidade pelo aprendizado continuariam sendo públicos.
“O Estado é sempre o responsável”, afirmou.
Quando questionado sobre metas educacionais para 2030, o governador preferiu apontar a continuidade das políticas atuais.
Segundo Riedel, Mato Grosso do Sul alcançou a nona posição nacional em proficiência na avaliação do Pisa, considerando leitura, matemática e ciências. Também afirmou que 55% dos estudantes do ensino médio estão matriculados em cursos técnicos profissionalizantes, contra uma média nacional de 16%.
Para ele, estrutura escolar, remuneração dos professores e ampliação do ensino integral precisam ser compreendidos como meios para alcançar um objetivo maior.
“O objetivo é o aluno”, resumiu.
A presença da formação técnica em mais da metade do ensino médio também dialoga com outra preocupação que apareceu durante a entrevista: preparar os jovens para uma economia cada vez mais industrializada, tecnológica e diversificada.
Saúde mais perto de quem precisa
Na saúde, a regionalização apareceu como uma das políticas que Riedel pretende concluir em um eventual segundo mandato.
Nos últimos anos, o Estado tem procurado reduzir a dependência de Campo Grande para procedimentos de média e alta complexidade. Segundo o governador, além dos hospitais regionais, Mato Grosso do Sul financia 45 hospitais de média complexidade em diferentes municípios, com remuneração vinculada à produção.
Ainda há, porém, regiões onde a distância continua sendo um obstáculo.
Riedel apontou Corumbá e Ladário como a principal lacuna da atual estrutura regional de atendimento. Segundo ele, já foi dada ordem de serviço para a implantação de um hospital regional na região.
“Hoje são quatro; falta o quinto”, afirmou.
A meta apresentada pelo governador é concluir essa rede em um eventual próximo mandato.
A discussão sobre saúde também passou pela crise da Santa Casa de Campo Grande, instituição responsável por parcela expressiva dos atendimentos de alta complexidade no Estado.
Riedel descartou uma nova intervenção e defendeu como caminho a profissionalização da gestão do hospital.
Segundo o governador, o Estado repassou R$ 98 milhões à instituição em 2024, R$ 149 milhões em 2025 e R$ 106 milhões até agosto deste ano. A projeção apresentada por ele é chegar perto de R$ 190 milhões em 2026.
A disposição para ampliar recursos, entretanto, foi condicionada por Riedel à transparência e à produtividade.
“Essa é uma relação de mão dupla, porque o dinheiro pertence à sociedade sul-mato-grossense. Vou cobrar eficiência e transparência sempre”, afirmou.
Riedel reconheceu que a Santa Casa enfrenta uma dificuldade financeira estrutural e citou um passivo em torno de R$ 600 milhões. Para ele, simplesmente colocar o hospital sob intervenção municipal não resolveria questões como a dívida acumulada e o modelo administrativo.
“A solução é a profissionalização da gestão”, declarou.
A posição também foi registrada pela cobertura publicada após a sabatina pelo Campo Grande News.
Violência contra a mulher chega à escola
Um dos momentos mais sensíveis da entrevista ocorreu quando Riedel foi questionado sobre os feminicídios em Mato Grosso do Sul.
O governador reconheceu que a resposta policial ocorre quando uma cadeia anterior de proteção já falhou.
“Quando o assunto chega à segurança pública, é porque já falhamos como sociedade”, afirmou.
A estratégia defendida por ele parte justamente da tentativa de identificar a violência antes de sua escalada.
Segundo Riedel, mais de 20 mil servidores de 47 municípios foram capacitados para reconhecer sinais de violência. Uma mulher que chega a uma unidade de saúde machucada, muda sua forma de se vestir ou apresenta sinais de violência financeira, moral ou familiar, exemplificou, pode estar vivendo uma situação que antecede agressões ainda mais graves.
O governo também pretende levar o tema para dentro das escolas.
Riedel anunciou que o enfrentamento à violência contra a mulher deverá integrar a grade escolar a partir do próximo ano.
A medida, segundo ele, busca agir sobre as raízes culturais do problema, e não apenas sobre suas consequências.
O governador citou ainda as Salas Lilás existentes em 72 municípios, a Casa da Mulher Brasileira e outras duas unidades em construção, além de mudanças nos procedimentos de atendimento às vítimas.
Entre elas está a utilização de policiais militares capacitados para cumprir notificações, buscando reduzir o tempo para comunicar agressores sobre medidas judiciais. Outro procedimento permite que a vítima preste um único depoimento gravado, compartilhado entre os diferentes órgãos envolvidos, evitando a repetição sucessiva do relato da violência.
Para Riedel, tecnologia, integração institucional e rapidez ajudam a proteger as mulheres, mas não substituem a transformação cultural necessária para enfrentar o problema.
Conflitos indígenas: saída além dos tribunais
Outro problema histórico abordado na entrevista foi o conflito entre produtores rurais e comunidades indígenas.
Riedel defendeu que a solução não pode depender exclusivamente de disputas judiciais que se prolongam por décadas.
Segundo ele, Mato Grosso do Sul já experimentou, em alguns casos, uma alternativa que durante muito tempo encontrou resistência: a compra de propriedades para posterior destinação às comunidades indígenas.
O governador citou situações em que áreas envolvidas em disputas de aproximadamente três décadas foram adquiridas e entregues às comunidades.
Para ele, esse mecanismo pode ajudar a conciliar direitos que entram em conflito, mas não encerra o problema.
Riedel afirmou que também é necessário ampliar políticas de educação, saúde e infraestrutura dentro das comunidades indígenas, área em que reconheceu a existência de déficits acumulados ao longo de muitos anos.
Do milho ao etanol, da celulose ao papel
Na parte final da entrevista, Riedel apresentou uma visão para a próxima fase da economia sul-mato-grossense.
Se o primeiro movimento foi atrair grandes investimentos, o próximo, segundo ele, deve ser fazer com que uma parcela cada vez maior da transformação industrial aconteça dentro do próprio Estado.
“Não quero parar na fábrica de celulose”, afirmou.
Riedel citou a possibilidade de ampliar a cadeia com fábricas de papel, papelão, tecidos e outros produtos acabados, além de incorporar distribuição e logística.
O mesmo raciocínio vale para as cadeias de proteína animal, bioenergia e tecnologia.
Nesse projeto, a Rota Bioceânica teria papel estratégico ao conectar Mato Grosso do Sul aos portos do Pacífico e abrir novos caminhos para a exportação de produtos industrializados.
O governador também procurou incluir o pequeno produtor nessa transformação.
Para Riedel, agricultores familiares precisam de infraestrutura, assistência técnica e oportunidades para participar de cadeias agroindustriais.
Ele citou como exemplo a chegada das usinas de etanol de milho, que cria demanda local pelo grão e pode melhorar as condições de comercialização para produtores próximos às unidades industriais.
Outro exemplo relatado durante a entrevista foi a discussão com pequenos produtores para implantação de uma fábrica de mandioca em um assentamento, destinada à produção de farinha e outros derivados para o mercado regional.
“Diversificação, assistência técnica e infraestrutura são fundamentais”, afirmou.
Ciência e inovação para uma economia que muda
A estratégia econômica apresentada por Riedel também inclui ciência, tecnologia e inovação.
Segundo o governador, Mato Grosso do Sul avançou no ambiente nacional de inovação e possui hoje uma rede crescente de mestres, doutores e pesquisadores.
A proposta apresentada para os próximos anos é atrair pelo menos dois novos centros de pesquisa, desenvolvimento e inovação, públicos ou privados, voltados para áreas nas quais o Estado já possui vantagens competitivas.
Riedel citou o hidrogênio verde como exemplo de um campo que pode aproximar universidades, pesquisa científica, produção de energia e novos investimentos.
“Se quisermos aumentar a produtividade e a eficiência da sociedade como um todo, temos de investir nessa base tecnológica e científica”, afirmou.
No conjunto, a entrevista mostrou que a principal aposta política de Riedel para pedir mais quatro anos de governo está menos na apresentação de uma ruptura e mais na defesa de uma segunda etapa das políticas iniciadas no atual mandato.
Na economia, isso significa tentar transformar a atração de grandes investimentos em cadeias industriais mais longas e sofisticadas. Na educação, aproximar formação e oportunidades de trabalho. Na saúde, completar a regionalização e cobrar produtividade das estruturas financiadas pelo poder público. Na proteção às mulheres, levar a prevenção para além das delegacias. E, nos municípios transformados pela industrialização, buscar antecipar os impactos sobre moradia, escolas, hospitais e serviços públicos.
“Eu gostaria de continuar esses projetos e fazer outros”, afirmou Riedel ao explicar por que disputa a reeleição.
A mensagem que atravessou a sabatina foi justamente essa: na avaliação do governador, Mato Grosso do Sul entrou em um processo acelerado de transformação econômica e social. O desafio que ele apresenta para um eventual próximo mandato é fazer com que crescimento, investimento e modernização continuem se convertendo, de maneira cada vez mais direta, em serviços públicos, oportunidades e qualidade de vida para quem vive no Estado.
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